Tom Simões, humanista, jornalista e
divulgador científico, Santos (Brasil), 2 de novembro de 2026
Minha sugestão é que
assistam primeiro ao filme, lançado em 2026 e disponível na Netflix, antes de ler este
artigo.
Permitam-se vivenciar a história, observar seus personagens e construir suas próprias interpretações. Depois, convido-os a conhecer algumas reflexões que desenvolvi, em diálogo com o ChatGPT, sobre as questões humanas, éticas e filosóficas suscitadas por essa extraordinária produção cinematográfica.
A Terapia Certa alcançou o primeiro lugar
no ranking mundial semanal da Netflix de filmes em língua não inglesa, na
semana de sua estreia. Uma conquista expressiva para o cinema argentino.
Trata-se de uma produção
centrada em conflitos psicológicos, relações humanas e questionamentos
existenciais, que conseguiu alcançar milhões de visualizações em diferentes
países. Isso demonstra que temas humanos universais também encontram espaço no
grande público.
Eis uma das grandes
possibilidades do cinema: transformar uma história em uma oportunidade de
reflexão sobre nós mesmos. Um bom filme não precisa entregar respostas. Às
vezes, sua maior contribuição é deixar perguntas que continuam trabalhando
dentro de nós.
A história acompanha um
psicanalista renomado que perde a confiança nos métodos tradicionais e passa a
interferir secretamente na vida de seus pacientes, recorrendo a estratégias
pouco convencionais e ultrapassando limites éticos. Sua controversa abordagem
parece funcionar até a chegada de um escritor com bloqueio criativo, que ameaça
mudar tudo.
Essa obra cinematográfica
nos deixa uma pergunta especialmente valiosa: estamos ajudando as pessoas a
pensar por si mesmas ou tentando ensiná-las a pensar como nós? Talvez essa seja
também uma boa síntese da diferença entre educar e doutrinar.
A produção reúne os atores
argentinos Ricardo Darín, um dos nomes mais reconhecidos do cinema de seu país,
e Diego Peretti, médico formado em psiquiatria que deixou a profissão para se
dedicar à atuação. Ambos protagonizam essa comédia de humor ácido: um
psicanalista que perdeu a confiança na terapia tradicional cruza os limites de
sua profissão para tentar ajudar um escritor com bloqueio criativo.
Minha leitura é que o
filme vai muito além de uma crítica aos métodos tradicionais da psicanálise.
Ele nos coloca diante de questões bastante profundas: os limites da intervenção
sobre a vida do outro, a arrogância de quem acredita conhecer a mente humana e
a diferença entre ajudar alguém a despertar e querer conduzir sua
transformação.
Proponho, então, uma
interpretação filosófica e humanista, considerando também algumas questões que
dialogam com meus interesses pelo autoconhecimento e pela expansão da
consciência.
1. O terapeuta que
acredita saber o que é melhor para o outro
O personagem de Darín, Ulises
Verón, é um psicanalista experiente que perdeu a confiança nos métodos
convencionais. Passa a interferir diretamente na vida dos pacientes,
manipulando situações e provocando acontecimentos para produzir mudanças.
Aqui aparece uma primeira
contradição: alguém que deveria ajudar o outro a compreender a própria
existência começa a acreditar que pode conduzi-la.
Surge, então, uma questão
fundamental: até que ponto alguém tem o direito de interferir na vida de outra
pessoa, mesmo quando acredita estar fazendo isso para o bem dela?
A intenção de ajudar não
concede, por si só, autoridade moral para decidir pelo outro.
2. A arrogância
intelectual e a ilusão de controlar a mente humana
Ulises acredita ter
desenvolvido uma compreensão superior do comportamento humano. Sua experiência
profissional parece autorizá-lo a ultrapassar limites que deveriam ser
inegociáveis.
Mas há uma armadilha nessa
postura: confundir conhecimento com sabedoria.
Conhecer teorias
psicológicas, identificar comportamentos e interpretar conflitos não significa
conhecer integralmente uma pessoa.
A mente humana não é uma
máquina cujos mecanismos podemos ajustar de fora.
Aqui me parece estar uma
das provocações mais interessantes do filme: quando a inteligência deixa de
ser acompanhada pela humildade, pode transformar-se em instrumento de dominação.
O terapeuta, que deveria
ajudar o paciente a encontrar autonomia, corre o risco de torná-lo dependente
de suas próprias interpretações.
3. O encontro entre duas
vaidades
A chegada do escritor Martín
Bouchard, interpretado por Diego Peretti, modifica a dinâmica da narrativa.
Temos dois homens
inteligentes, cultos e bastante seguros de suas próprias capacidades. Um
acredita dominar a psicologia humana; o outro, apesar de seu bloqueio criativo,
preserva uma percepção muito particular de si mesmo.
O encontro acaba se
transformando em uma espécie de jogo de espelhos. Cada um confronta o outro com
aquilo que talvez não consiga reconhecer em si próprio.
É interessante observar
como a vaidade pode se manifestar de maneiras diferentes: no terapeuta, pela
autoridade profissional; no escritor, pela necessidade de reconhecimento
intelectual.
O filme sugere que ninguém
está completamente livre das próprias contradições, por mais esclarecido que se
considere.
4. A urgência de encontrar
respostas
Há também uma crítica
bastante contemporânea.
Vivemos em uma sociedade
que deseja resolver rapidamente seus conflitos emocionais. Procuramos respostas
prontas, métodos eficientes, fórmulas de felicidade e soluções para nossas
inquietações.
Mas o autoconhecimento
exige tempo.
Não existe necessariamente
uma resposta imediata para uma angústia existencial. Algumas descobertas
dependem de silêncio, reflexão, amadurecimento e disposição para olhar para
dentro.
Nesse sentido, o filme
dialoga com uma questão que considero especialmente importante: a transformação
verdadeira não pode ser imposta de fora; precisa encontrar ressonância na
consciência de quem se transforma.
O despertar da consciência
não acontece simplesmente porque alguém nos diz o que devemos fazer.
5. A questão ética: os
fins justificam os meios?
Talvez seja o conflito
moral mais importante da história.
Se um terapeuta ultrapassa
os limites éticos de sua profissão, mas aparentemente consegue produzir
resultados positivos, devemos considerar legítimos seus procedimentos?
Essa é uma questão que
ultrapassa a psicologia. Podemos transportá-la para a educação, a política, as
relações familiares e até para a espiritualidade.
Um educador pode
estimular, provocar e oferecer caminhos, mas não deve substituir a consciência
de quem aprende. Um líder pode inspirar, mas não deve exigir submissão.
E alguém que se considera
espiritualmente evoluído precisa ter especial cuidado para não confundir sua
percepção pessoal com uma verdade que todos deveriam aceitar.
A diferença entre orientar
e dominar pode ser muito sutil.
6. O título original
talvez revele algo mais
Um detalhe interessante: o
título original argentino é Lo dejamos acá, expressão que pode ser
traduzida como "Deixamos por aqui".
A expressão permite uma
associação interessante com o encerramento de uma sessão terapêutica e combina
com a narrativa, abrindo espaço para outra interpretação: nem tudo precisa ser
resolvido imediatamente. Há momentos em que precisamos interromper, assimilar e
continuar refletindo.
O título brasileiro, A
Terapia Certa, tem uma conotação quase irônica, porque o próprio filme nos
faz questionar se existe uma terapia certa, um método infalível ou alguém
suficientemente preparado para determinar o caminho de transformação de outra
pessoa.
7. Minha interpretação
central
Se eu tivesse de condensar
a mensagem filosófica do filme em uma única reflexão, escolheria esta:
Ajudar alguém a encontrar
o próprio caminho é muito diferente de acreditar que conhecemos o caminho que
essa pessoa deve seguir.
E acrescentaria uma
segunda ideia:
O verdadeiro
autoconhecimento começa quando deixamos de procurar alguém que nos diga quem
somos e desenvolvemos a coragem de descobrir isso por nós mesmos.
É justamente aí que vejo
uma aproximação com o pensamento de Krishnamurti, para quem a
compreensão de si não deveria depender da submissão a autoridades psicológicas,
religiosas ou intelectuais.
A educação como caminho
para a autonomia
Não considero o filme uma
defesa de métodos terapêuticos heterodoxos. Sua força está justamente em
provocar o espectador a questionar os limites éticos entre conhecimento, poder
e responsabilidade.
Quando conquistamos
autonomia, ampliamos nossa capacidade de compreender e transformar as próprias
circunstâncias, contribuindo também para a expansão da consciência coletiva.
Essa postura pressupõe algo muito diferente da atitude assumida pelo personagem
de Darín.
O educador oferece
instrumentos para que o outro pense. Não pensa pelo outro.
O conhecimento pode ser
compartilhado, mas a consciência não pode ser transferida. Cada pessoa precisa
realizar seu próprio percurso.
E talvez essa seja a maior
lição que podemos extrair do filme: a verdadeira ajuda não consiste em conduzir
a vida de alguém, mas em contribuir para que essa pessoa se torne capaz de
conduzi-la por si mesma.
Não devemos pretender
despertar a consciência de alguém segundo nossas próprias convicções. Podemos
apenas oferecer caminhos, compartilhar experiências e respeitar o tempo de cada
despertar.
A meu ver, é uma reflexão
que vai além da experiência cinematográfica e nos convida a pensar sobre a
própria condição humana.
***

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