Nem todo sofrimento precisa de respostas; muitos precisam apenas de escuta
Tom Simões, humanista, jornalista e
divulgador científico, Santos (Brasil), 22 de julho de 2026
“Escutar uma história sem
transformá-la em conselho. Reconhecer que não temos resposta” (Via A
Caminhada). Li recentemente e me identifiquei profundamente com essa
ideia.
Este tema é muito rico e dialoga com psicologia, filosofia e sabedoria cotidiana. A minha intenção não é condenar quem aconselha de boa-fé, mas refletir sobre uma postura muito comum: a necessidade de opinar antes de compreender.
Há o provérbio: “Se
conselho fosse bom, não se dava, se vendia”. Acontece que quem está de fora do
problema costuma enxergar as coisas com mais clareza e isenção.
São raras as pessoas que
realmente têm ouvidos para o desabafo de alguém. Só um fiel amigo ou um
psicólogo merecem a nossa confiança. A gente só se abre com pessoas certas, que
acolhem desinteressadamente, abrem espaço para um desabafo, compreendem
profundamente uma dor e são capazes de ouvir em silêncio – aquele silêncio que
penetra na alma. Há uma frase de autor desconhecido: “Se não escreves tuas
histórias, elas te intoxicam”.
Nem sempre é prudente
desabafar uma amargura a um amigo comum, até mesmo a um familiar - dessas
pessoas que se prestam a conselhos imprudentes. Incapazes de se colocar no
lugar do outro, elas desejam se justificar ou mostrar que estamos errados, que precisamos
mudar... São pessoas que tendem a superestimar suas próprias habilidades.
Quanto menos sabem, mais acreditam que sabem e se sentem “donas da verdade”. Se
não há nada construtivo a dizer, o silêncio vale mais do que certezas
ilusórias.
Quem está no início do
aprendizado não tem noção da imensidão de determinado assunto, o que gera uma
falsa autoconfiança. À medida que a pessoa estuda e se aprofunda, ela passa a
ter clareza do quanto ainda não sabe, tornando-se mais cautelosa.
Porque quem ama de verdade
não dá lições – “está sempre junto, verdadeiramente, ouvindo e acolhendo
silenciosamente um desabafo”; e quando fala algo, trata-se de algo valioso, que
fortalece um diálogo. Nem todo sofrimento precisa de uma resposta. Muitas
vezes, precisa apenas de uma presença. Não raramente, quem critica o sofrimento
alheio necessita de mais ajuda do que aquele que sofre.
Mas há de se reconhecer, sim,
alguém que nos aprecia humanamente e, ao saber de certa adversidade em nossa
vida, logo se presta a auxiliar de alguma forma prática: “Conheço uma pessoa
que talvez quem sabe possa lhe ajudar. Vou conversar com ela...”
Também há algo que acontece:
sabe aquela mãe, aquele pai, que cria uma imagem futura para o filho – “que,
com ele, tudo vai dar certo?” Essas pessoas criticam friamente a dificuldade do
filho do outro.
Quem realmente sabe,
costuma falar menos; quem sabe pouco sente necessidade de opinar sobre tudo – é
claro que não dá para generalizar.
Esse ponto encontra
respaldo em um fenômeno bastante estudado na psicologia, conhecido como “efeito
Dunning-Kruger”: pessoas com pouco conhecimento sobre determinado assunto
tendem a superestimar a própria competência, enquanto quem possui maior domínio
reconhece a complexidade do tema e se torna mais prudente.
O efeito Dunning-Kruger
foi descrito em 1999 pelos psicólogos sociais americanos David Dunning e Justin
Kruger. Eles demonstraram que pessoas com pouco conhecimento sobre determinado
assunto tendem não apenas a cometer erros, mas também a não perceber que estão
erradas - um estado frequentemente descrito como 'incompetência inconsciente'.
A escuta profunda também é
um dos pilares da abordagem do psicólogo americano Carl Rogers. Rogers afirmava
que ser verdadeiramente ouvido, sem julgamento e sem pressa para corrigir o
outro, já possui um enorme poder terapêutico.
Embora o neuropsiquiatra
austríaco Viktor Frankl enfatize a busca de sentido, sua obra mostra que
ninguém pode viver ou interpretar a existência pelo outro. Há dores que
precisam ser atravessadas, não simplesmente resolvidas por opiniões alheias.
Dar um conselho é
relativamente fácil; difícil é assumir as consequências dele. Por isso, as
pessoas generosas costumam ser cautelosas antes de dizer ao outro o que ele
deveria fazer.
Existe ainda uma distinção
que considero muito rica: a diferença entre “conselho solicitado” (que costuma
ser um gesto de confiança) e “conselho imposto” - uma forma sutil de vaidade. Nem
sempre quem aconselha deseja ajudar; às vezes deseja apenas demonstrar que sabe
mais.
O simples fato de alguém
nos ouvir é terapêutico
Os resultados da terapia
psicanalítica não podem ser atribuídos exclusivamente àquilo que o analista diz
ou faz. O simples fato de haver alguém para quem encaminhamos nossas queixas,
indagações e elaborações já é, em si mesmo, terapêutico.
“Para desabafar a gente
fala com um amigo. Com um psicanalista, a gente fala para se escutar”, explica o
psicólogo, psicanalista e professor brasileiro Lucas Nápoli. Isso acontece porque, no
momento que articulamos nossos pensamentos na forma de uma fala livre
(exigência da Psicanálise), temos a oportunidade de perceber ligações,
semelhanças e equivalências entre nossas ideias que só se evidenciam no âmbito
da FALA.
E não de qualquer fala.
Afinal, como é fato, falar sozinho não produz o mesmo efeito. De acordo com
Nápoli, eventuais insights só acontecem quando falamos com a suposição de que tem
alguém ouvindo o que estamos dizendo. É só falando livremente com um outro
que a gente consegue se escutar.
“Se esse outro RESPONDE na
forma de uma interpretação ou de um corte pertinente, a escuta de si fica ainda
mais refinada. E se esse outro ocupa simplesmente em silêncio o lugar de
destinatário do nosso discurso, isso já é suficiente para que os nossos ouvidos
se abram à nossa própria voz”, diz o psicanalista.
Quando o conselho fere
mais do que ajuda
Idealizamos nossos filhos
e julgamos os dos outros com maior severidade. É o velho mecanismo de enxergar
as circunstâncias alheias de fora, sem conhecer suas lutas. Isso pode mostrar
como somos indulgentes conosco e exigentes com os demais.
A frase atribuída ao
escritor e historiador norte-americano Theodore Roosevelt dialoga nesse
sentido: “As pessoas não se importam com o quanto você sabe até saberem o
quanto você se importa”. Mesmo que tal autoria seja discutida em algumas
fontes, a ideia sintetiza bem o espírito deste artigo: “antes do conhecimento,
vem o acolhimento”.
As pessoas são apressadas
em concluir, ansiosas por oferecer respostas, incapazes de sustentar o
silêncio, mais interessadas em afirmar certezas do que em compreender,
emocionalmente indisponíveis para acolher e tomadas pela ilusão de que todo
problema possui uma solução simples.
Em muitos casos, não são
más pessoas. Elas apenas experimentam certo desconforto diante do sofrimento
alheio. O silêncio as inquieta; por isso, preenchem o vazio com opiniões.
Acreditam estar ajudando, quando, na realidade, impedem que o outro
simplesmente seja ouvido.
Escutar não é esperar a
vez de falar. É oferecer ao outro um espaço onde ele possa existir sem precisar
se defender.
Há dores que nenhum
conselho é capaz de dissolver. Existe, porém, uma presença silenciosa capaz de
aliviar um coração. Em um mundo onde todos parecem ter respostas para tudo,
talvez uma das formas mais elevadas de sabedoria seja reconhecer, com
humildade: "Não sei o que dizer. Mas estou aqui para ouvir”. Afinal,
compreender é, muitas vezes, muito mais importante do que aconselhar.
Este tema toca uma
experiência universal: todos nós, em algum momento, precisamos menos de um
conselho e mais de alguém que simplesmente permaneça ao nosso lado, em
silêncio, sem a pretensão de resolver aquilo que apenas a própria vida poderá
ensinar.
Por uma humanidade mais
consciente...
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