Algumas pessoas percorrem
continentes; outras percorrem a si mesmas
Tom Simões, jornalista e divulgador
científico, Santos (Brasil), 18 de junho de 2026
Existem viagens
horizontais e viagens verticais. As horizontais nos levam a novos lugares; as
verticais nos levam a novas profundezas de nós mesmos. Algumas pessoas
necessitam da primeira experiência para se realizarem; outras encontram
plenitude na segunda.
Vivemos numa época em que viajar tornou-se quase uma obrigação social. Fotografias digitais diante de monumentos, aeroportos e paisagens exóticas frequentemente funcionam como certificados públicos de uma vida considerada bem vivida.
Há uma frase que diz algo assim:
“Se não escreves tuas histórias, elas te intoxicam”. Nada tenho contra
as viagens. Elas podem ampliar horizontes, enriquecer a cultura e proporcionar
experiências memoráveis. Entretanto, ao longo da vida, descobri que meu
principal destino sempre foi outro: o meu mundo interior.
Enquanto muitos encontram
realização percorrendo continentes, sempre me senti atraído para compreender a
mim mesmo e o significado da existência. Livros, filosofia, espiritualidade,
contemplação e silêncios têm sido meus meios de transporte. São viagens menos
visíveis, sem fotografias para publicar e sem aplausos para receber, mas que me
conduzem a lugares de paz, autoconhecimento e sentido da existência. Minha jornada
acontece menos entre cidades e mais entre ideias, valores e perguntas
fundamentais.
Escrevo a partir da
experiência vivida, não de uma teoria. Aos 78 anos, não me arrependo das
viagens que não fiz. Tal declaração não é uma defesa teórica da introspecção,
mas o testemunho de uma vida que encontrou significado por um caminho menos
comum. Cada pessoa possui sua própria forma de caminhar pelo mundo. Algumas
percorrem continentes; outras percorrem a si mesmas. Creio que ambas as
jornadas podem ser igualmente legítimas e enriquecedoras.
Compreendo que existem
muitas formas de conhecer o mundo. Algumas passam por estradas, navios e
aviões; outras passam pela contemplação, pela filosofia, pela espiritualidade e
pelo diálogo sincero consigo mesmo. Nenhuma é superior à outra. Apenas correspondem
a diferentes chamados da alma.
Uma escolha pouco
compreendida
Numa sociedade que
valoriza tanto as viagens, costumo causar certa estranheza entre familiares e
amigos. Afinal, não demonstro aquele desejo ardente de conhecer países,
acumular carimbos no passaporte ou colecionar imagens diante de paisagens
famosas.
Muitos interpretam isso
como falta de curiosidade, acomodação ou medo de sair da zona de conforto. Mas
existem outras formas de explorar a existência. Não se trata de desprezo pelas
viagens. Elas podem ser enriquecedoras e transformadoras. Apenas descobri, ao
longo da vida, que minha natureza me conduz por outros caminhos.
Há uma sabedoria profunda
nessa observação. Nem toda descoberta exige deslocamento. Nem todo horizonte
está além das montanhas ou do oceano. Existem territórios imensos dentro de
cada ser humano, e poucos se aventuram a explorá-los.
Talvez eu tenha visto
menos paisagens do que outras pessoas. Em compensação, percorro os caminhos do
autoconhecimento, que não aparecem em imagens reais nem despertam a admiração
das redes sociais, mas oferecem algo que considero precioso: paz interior e
sentido para a vida.
Não por falta de recursos
financeiros, mas por causa das minhas inquietações
Alguém poderá pensar que
eu apenas racionalizo a impossibilidade de viajar. Minha pouca inclinação para
viagens não decorre de falta de recursos financeiros. Poderia, de tempos em
tempos, conhecer outros países e percorrer os roteiros que atraem tantos
viajantes.
Não deixei de conhecer o
mundo por falta de oportunidades. Trata-se da escolha consciente de
prioridades. Apenas descobri que minha curiosidade sempre esteve voltada para
outro continente: o da alma humana.
Ao longo da vida, percebi
que minhas maiores inquietações não apontavam para destinos geográficos, mas
para questões de sentido, autoconhecimento e espiritualidade. O que procuro não
está necessariamente além das fronteiras; muitas vezes, está além das aparências.
A frase de Paul Auster
encaixa-se perfeitamente na minha presente confissão: "Diz-se que é
preciso viajar para ver o mundo. Por vezes, penso que, se estiveres quieto, num
sítio e com os olhos bem abertos, verás tudo o que podes controlar."
Ela sugere que a profundidade da experiência humana nem sempre depende da
distância percorrida, mas da qualidade do olhar com que observamos a vida.
Auster (1947-2024)
foi um romancista, ensaísta, poeta e roteirista norte-americano, amplamente
reconhecido por sua escrita que mistura acaso, identidade, solidão e
metaficção.
Como registra o
romancista, talvez haja momentos em que permanecer quieto e atento revele mais
sobre a vida do que muitas jornadas apressadas. Quando alguém diz que prefere
explorar a própria consciência, os livros, a filosofia e a espiritualidade, não
está necessariamente renunciando ao mundo; está escolhendo uma forma diferente
de habitá-lo.
Nem todas as jornadas são
medidas em quilômetros. Algumas são medidas em profundidade. Há quem atravesse
oceanos para encontrar paisagens. Eu prefiro atravessar silêncios para
encontrar sentido na vida. Viajar para dentro de nós mesmos pode ampliar nossa
compreensão da vida. O coração deste texto está na experiência vivida, não na
teoria.
Peregrinações
Seria injusto, no entanto,
ignorar que existem viagens cuja finalidade transcende o turismo convencional.
Como uma peregrinação: jornada a um lugar sagrado ou de profundo significado
espiritual. Geralmente realizada a pé, a prática envolve uma busca por
autoconhecimento, devoção religiosa ou propósito de vida, e costuma resultar em
transformação pessoal.
Ao longo da história,
homens e mulheres têm percorrido caminhos movidos não pela curiosidade
geográfica, mas pela busca de significado. Para essas pessoas, a viagem
exterior também tem a função de uma viagem interior.
Locais como a Trilha
Inca, que conduz a Machu Picchu (Peru); a cidade de Lhasa, capital
do Tibete (China), conhecida como o “Teto do Mundo” - tida como o coração espiritual
e cultural do budismo; e o Caminho de Santiago (uma rede de rotas
históricas de peregrinação pela Europa que leva à Catedral de Santiago de
Compostela, no noroeste da Espanha), por exemplo, mostram que a jornada
física pode tornar-se também uma jornada da alma. Muitos peregrinos percorrem
esses caminhos para se afastar da rotina, contemplar a natureza, refletir sobre
a própria existência, superar limites pessoais e buscar respostas para questões
profundas.
Não existe um único
caminho legítimo para a realização humana. Algumas pessoas chegam à
interioridade pela contemplação; outras, pela experiência do mundo. Talvez os
caminhos do mundo sejam, para algumas pessoas, uma etapa necessária antes do
encontro com os caminhos da alma. O essencial é que cada um descubra, com
sinceridade, a estrada que lhe permite viver com mais consciência, significado
e paz.
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