Quem
compreende o tempo descobre que ainda há muito a aprender e ensinar.
Tom Simões, humanista, jornalista e
divulgador científico, Santos (Brasil), 31 de outubro de 2026
Li o seguinte texto sobre a velhice, atribuído a Clint Eastwood, 96 anos, mas sem confirmação pública segura. Isso, porém, não diminui o valor da reflexão que ele suscita. Importa a ideia ali apresentada sobre o envelhecimento:
“O personagem despedaça
certas ilusões reconfortantes sobre o envelhecimento. Ele explica como o corpo
se transforma com o tempo. Traça um quadro cru e sem concessões do que acontece
à medida que os 100 anos se aproximam: ‘A luz machuca os olhos, e até mesmo
respirar pode parecer uma tarefa árdua’, admite ele, descrevendo a luta
incessante contra um corpo que enfraquece: ‘O verdadeiro fardo da grande idade
é de ordem emocional e psicológica. Uma vez passado o marco dos noventa anos, a
paisagem das relações sociais sofre uma transformação profunda. Olha-se ao
redor e se percebe que a maioria das pessoas que nos conheceram na juventude —
aquelas que compartilhavam nossa história, nossas cumplicidades e as provações
da vida — desapareceram. O círculo de rostos familiares encolhe, o telefone
para de tocar e o ritmo dos dias se arrasta penosamente. A provação mais amarga
não é a dor física, mas a ausência repentina de alguém que realmente queira te
ouvir’. O autor explica que revisitar suas memórias não é sinal de fragilidade
mental, mas uma tentativa vital de encontrar continuidade em sua própria
existência: ‘Vivemos em uma cultura que erige a longevidade como troféu,
enquanto ignora completamente a solidão esmagadora que acompanha essa
sobrevivência. Celebramos o que brilha, o que vai rápido e o que é hiperconectado,
sem deixar espaço para o ritmo lento e repetitivo da vida das pessoas muito
idosas. No final das contas, as rugas no rosto dos quase centenários não são
meros sinais de velhice; elas desenham o magnífico mapa de uma vida plenamente
vivida’. É um privilégio sentar-se para ouvir o relato de sua jornada de vida!”
Essa descrição abre
caminho para uma rica reflexão, porque toca numa questão fundamental da
existência: aprender a estar só sem se sentir abandonado e descobrir que a
própria companhia também pode ser uma forma de plenitude.
Li recentemente o livro Freud
explica, eu traduzo, de Andréa Vermont, psicanalista e doutora em
neurociências, que recomendo. Ela escreve: “A psicanálise mostra que o
inconsciente não se satisfaz com pingos digitais de atenção; ele pede presença,
olhar, reconhecimento. Quando o laço falta, a conexão se torna compulsão. É por
isso que vemos pessoas incapazes de ficar dez minutos sem checar o celular: não
é curiosidade, é medo de encarar o vazio que o silêncio revelaria”.
Bastar-se não significa
deixar de precisar dos outros. Significa desenvolver recursos interiores para
que a própria existência não dependa inteiramente da presença, da aprovação ou
do afeto alheio. É importante considerar, naturalmente, que, na velhice, essa
autonomia interior precisa ser compreendida à luz das condições de saúde e das
necessidades concretas de cada pessoa.
A solidão é a
experiência dolorosa da ausência de vínculos significativos. Pode surgir mesmo
quando estamos cercados de pessoas. O que falta não é necessariamente companhia
física, mas conexão, acolhimento e sensação de pertencimento. Solitude,
por sua vez, é a experiência de estar consigo mesmo sem que essa condição
represente necessariamente sofrimento. Pode ser um espaço de liberdade,
reflexão, criatividade, autoconhecimento e abertura à dimensão espiritual da
existência.
“Todo mundo já se
perguntou algo sobre o amor e todo mundo já se perguntou algo sobre a solidão.
Amor e solidão são duas experiências que dizem respeito à nossa própria vida,
muito antes de colocarmos esses temas em algum campo teórico. Falar de amor e de
solidão é falar da vida. [...] É preciso que nos sintamos a sós com a gente
mesmo para nos dirigirmos ao outro e amá-lo. Sempre amamos sozinhos, pois cada
qual ama a seu próprio modo, cada qual ama com sua história, com seu sintoma,
com suas perebas psíquicas, com seus perrengues transgeracionais. No amor a
gente sempre comparece com a gente mesmo”, escreve Ana Suy, em seu livro A
gente mira no amor e acerta na solidão, que também li recentemente e
recomendo.
Em seu clássico livro Escrever,
Marguerite Duras reflete: “A solidão não se encontra, se faz. A solidão se faz
sozinha. Eu a fiz. Porque decidi que era ali que deveria estar sozinha, que
ficaria sozinha para escrever livros”. Essa frase me lembra Albert Einstein:
“Se quer viver uma vida feliz, amarre-se a uma meta, não às pessoas nem às
coisas”.
Boas leituras, conversas
enriquecedoras, um bom filme e vídeos educativos: ninguém sai da mesma forma
depois de aprender algo novo. Aprender é também transformar-se.
Aprender, porém, não
depende apenas do que lemos ou assistimos, mas também da qualidade das nossas
relações e da disposição para ouvir o outro.
Há pessoas que, quando
falam excessivamente de si mesmas, acabam transformando o diálogo em monólogo,
sem perceber que o outro também tem experiências, ideias e histórias a
compartilhar. Quando não há reciprocidade, perde-se a oportunidade de um
aprendizado mútuo. Com o tempo, essa dificuldade de ouvir pode até provocar o
afastamento de pessoas.
O que a filosofia nos
ensina sobre bastar-se
A filosofia antiga oferece
contribuições preciosas para essa reflexão. A vida encontra sentido também
naquilo que fazemos pela humanidade. Precisamos aproveitar melhor o tempo.
Lembrando Sócrates: “Só é útil o conhecimento que nos torna melhores”. Seu pensamento
nos convida ao conhecimento de nós mesmos. Sem compreender o que somos, podemos
passar a vida buscando nos outros respostas que também precisam nascer de nossa
própria reflexão.
Os estoicos, especialmente
Sêneca, ensinam a cultivar a vida interior e a distinguir aquilo que depende de
nós daquilo que não controlamos. Isso não significa desprezar os vínculos
afetivos, mas não entregar inteiramente a eles nossa estabilidade interior.
Montaigne encontrou na
observação de si mesmo um caminho para compreender a condição humana. A
convivência consigo mesmo pode tornar-se uma forma de liberdade.
Por sua vez, Schopenhauer
refletiu sobre a relação entre a capacidade de estar só e a riqueza da vida
intelectual. Sua perspectiva, contudo, merece ser equilibrada: a independência
não elimina nossa necessidade humana de afeto e convivência.
O ponto comum dessas
reflexões não é o isolamento, mas a construção de uma vida interior que nos
permita escolher a companhia sem fazer dela uma condição absoluta para existir
com serenidade.
A espiritualidade e a
descoberta de uma presença interior
Isso permite ampliar a
reflexão sobre o se bastar. A autonomia interior não exige afastamento das
pessoas. Podemos cultivar a solitude e, ao mesmo tempo, encontrar nos vínculos
humanos motivos renovados para viver.
Na perspectiva
espiritualista, a solitude pode adquirir outro significado. O silêncio deixa de
ser apenas ausência de ruído e passa a ser uma oportunidade de escuta interior.
A meditação, a
contemplação da natureza, a música e a reflexão podem favorecer uma percepção
mais profunda da existência. Não se trata de provar cientificamente uma
realidade transcendental, mas de reconhecer que muitas pessoas encontram nessas
experiências um sentido de pertencimento a algo maior do que suas preocupações
imediatas.
Há aqui uma conexão com o
pensamento do filósofo indiano Jiddu Krishnamurti, para quem a compreensão de
si exige atenção e observação sem julgamentos, e com as tradições
contemplativas orientais, que investigam a relação entre apego, sofrimento e
liberdade interior.
A espiritualidade, nesse
contexto, não precisa afastar ninguém do mundo. Pode, ao contrário, ampliar
nossa capacidade de amar sem possuir, conviver sem depender excessivamente e
aceitar as transformações inevitáveis da vida.
A criança e a velhice:
duas fontes de aprendizado
“Precisamos reencantar o
mundo, tomando por empréstimo o olhar das crianças”, escreve Mia Couto.
A criança é especialmente
interessante para os idosos. Ela pode nos ensinar a redescobrir o presente, a
curiosidade e a capacidade de encontrar encantamento nas coisas simples.
Entretanto, também precisa de vínculos seguros para desenvolver sua autonomia.
Algo que, de outra maneira, vale igualmente para a pessoa idosa.
Quando me refiro à
companhia das crianças para o idoso, penso na espontaneidade delas e na
possibilidade de redescobrir o mundo infantil. Com sensibilidade para esse
universo, avós e bisavós podem contar histórias — que as crianças adoram —,
brincar com elas e encontrar nessa conexão um novo sentido para a vida.
E não precisam ser
necessariamente crianças da família. Sempre temos alguma criança por perto.
Esse encontro pode acontecer na vizinhança, numa praça, na convivência com
filhos de amigos ou em outras relações espontâneas. Não estou falando apenas da
companhia das crianças, mas do encontro entre duas etapas da vida que podem se
enriquecer mutuamente.
Envelhecer não significa
afastar-se da vida, mas aprender a reconhecê-la em suas diferentes
manifestações. Às vezes, basta a presença de uma criança para que o tempo, tão
carregado de lembranças, volte a ser também um território de descobertas. Ao
compartilhar histórias e brincadeiras, o idoso não apenas transmite o que
viveu: reencontra, no encantamento infantil, a possibilidade de continuar
aprendendo.
Outro dia, estava
brincando de esconde-esconde com João, um menininho, filho de uma amiga de
minha filha. A princípio, ele estranhou minha presença. Resolvi, então, começar
a me esconder. Aos poucos, João entrou na brincadeira, entusiasmado, e passou a
se esconder também. Foi um momento gratificante para ambos.
A pureza da criança
oferece ao idoso a espontaneidade, a curiosidade e o encantamento diante das
pequenas descobertas.
Há uma troca silenciosa
entre ambos. Enquanto a criança descobre a vida, o idoso redescobre-se através
dos olhos dela. Ao contar histórias, inventar brincadeiras ou responder a
perguntas inesperadas, ele deixa de ser apenas alguém que acumula lembranças para
participar ativamente da redescoberta do mundo.
A criança desperta no
idoso a alegria de descobrir; o idoso desperta na criança o prazer de escutar.
Talvez uma das formas mais
bonitas de envelhecer seja desenvolver a sabedoria de quem viveu muito e ainda
consegue se maravilhar com a vida. Envelhecer não precisa significar abandonar
a capacidade de brincar, aprender, surpreender-se e descobrir o mundo. O corpo
envelhece, mas a curiosidade e a disposição para aprender podem continuar
vivas.
Que a sabedoria dos anos
não nos roube o encantamento da infância, nem a serenidade da solitude nos
feche as portas para a alegria de compartilhar a vida.
“Não penso na velhice,
tenho medo de que a velhice pense em mim”, escreve Mia Couto.
Ana Suy oferece outra
provocação que dialoga diretamente com esta reflexão: buscamos no amor uma
experiência de completude, mas descobrimos que o outro não pode eliminar toda a
falta que existe em nós.
Amar não significa
encontrar alguém capaz de resolver definitivamente nossa condição humana.
Significa construir um vínculo entre duas pessoas que continuam sendo, cada
uma, uma existência singular.
Ao esperar que alguém nos
complete inteiramente, corremos o risco de transformar o amor numa exigência
impossível. Se reconhecemos nossa própria incompletude, podemos construir
relações mais livres, sem deixar de reconhecer a importância da reciprocidade e
do cuidado.
Aprender a estar consigo
mesmo talvez seja uma das tarefas mais delicadas da existência. Passamos boa
parte da vida buscando no outro o afeto, o reconhecimento e a segurança de que
precisamos. Entretanto, chega um momento em que compreendemos que nenhuma
presença externa pode substituir inteiramente o encontro com nós mesmos.
A solidão dói quando
representa abandono, ausência de vínculos e impossibilidade de compartilhar a
vida. A solitude, ao contrário, pode nos ensinar a desfrutar da própria
companhia, a cultivar o silêncio e a encontrar sentido naquilo que somos,
independentemente da aprovação alheia.
Na maturidade, essa
descoberta pode ganhar profundidade. As crianças nos recordam a beleza do
instante; a espiritualidade é um convite à interiorização; e a experiência
ensina que amar as pessoas não significa depender delas para reconhecer o valor
da própria existência.
Bastar-se, porém, não é
prescindir do amor, da amizade ou do cuidado. É desenvolver uma relação consigo
mesmo que permita acolher a presença do outro sem transformá-la na única fonte
de sentido da vida.
Talvez a verdadeira
liberdade não esteja em nunca sentir solidão, mas em aprender a conviver
consigo sem fechar as portas para o mundo.
Na velhice, a experiência
acumulada pode permitir uma relação mais serena com o tempo, com as perdas e
com aquilo que realmente importa. Mas isso não acontece automaticamente com o
avanço da idade: é uma possibilidade construída ao longo da vida, com diferentes
graus de autonomia e necessidades de cuidado.
Aprender a se bastar não
significa aprender a dispensar o outro, mas aprender a não se abandonar quando
o outro está ausente.
Nenhuma reflexão sobre
autonomia interior deve servir para romantizar o abandono social, a falta de
cuidados ou a privação de afeto. O idoso pode ter uma riqueza espiritual e,
ainda assim, precisar de companhia, assistência e presença humana.
E como não lembrar de José
Saramago: “Não tenhas pressa, porque onde tens de ir é a ti mesmo”.
O destino mais importante
é a descoberta de quem realmente somos. O processo de olhar para dentro,
entender as próprias dores, desejos e limites exige calma, silêncio e reflexão.
Isso é o que mais importa:
viver uma velhice mais consciente é compreender que envelhecer não significa
apenas acumular anos, mas ampliar a consciência, rever escolhas e atribuir
novos sentidos à existência. Sem atalhos, com sabedoria e serenidade.
“Quanto mais envelhecemos,
mais precisamos ter o que fazer. Mais vale morrer do que arrastarmos na
ociosidade uma velhice insípida: trabalhar é viver”, lembra Voltaire.
Afinal, envelhecer também
é descobrir que a vida não deixa de nos ensinar enquanto estivermos dispostos a
aprender.
O hábito da leitura, por
exemplo, alimenta essa disposição, amplia horizontes e nos permite descobrir
novas perspectivas sobre nós mesmos e o mundo. Essa prática traz benefícios
para a saúde cognitiva: exercita a interpretação, a concentração e outras funções
mentais, além de contribuir para a redução do estresse e para o enfrentamento
da solidão.
“Caminhas em direção da
solidão. Eu, não, eu tenho os livros”, escreve Marguerite Duras.
Compreender o tempo não
significa apenas aceitar o envelhecimento, mas reconhecer que a existência
continua nos oferecendo oportunidades de aprender, ensinar e contribuir para a
sociedade.
A velhice não deve ser
compreendida apenas como uma etapa da vida marcada pela passagem do tempo e
pelas limitações naturais do corpo, mas também como uma possibilidade de
amadurecimento humano. É um período em que a experiência acumulada pode
favorecer o autoconhecimento, a expansão da consciência e a descoberta de novos
sentidos para a existência. Afinal, envelhecer não significa deixar de evoluir.
Ao ser questionado sobre
sua disposição em continuar trabalhando, Clint Eastwood teria respondido que
não deixava o velho entrar.
Essa reflexão dialoga com
minha ideia de velhice consciente: aceitar o tempo sem abrir mão da capacidade
de se transformar continuamente. Afinal, como observei ao falar da convivência
entre idosos e crianças, a curiosidade não tem idade.
Minhas palavras são fruto
da experiência de meus 78 anos.
O que a vida ainda espera
de mim?
A gente só pode levar
alguém até lugares para onde já foi. Talvez seja essa a essência da minha
missão como humanista: percorrer caminhos, compreendê-los e, depois, oferecer
ao outro a possibilidade de percorrê-los também.

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