quinta-feira, 9 de março de 2017

Sócrates e a filosofia do autoconhecimento

Qual a importância da autorreflexão para o homem contemporâneo?

Tom Simões, tomsimoes@hotmail.com, Santos (São Paulo, Brasil), março 2017 



MUITAS PESSOAS acham que a filosofia é uma área do saber dispensável. Ora, a filosofia é muito importante. Através dela, conseguimos entender melhor a nós mesmos e também aos outros; conseguimos ser capazes de discutir e aceitar opiniões, e ficar com a consciência de que nada é errado e, porém, nada é definitivamente certo. Uma das capacidades que a filosofia nos proporciona é a de nos questionarmos, de sermos capazes de por em discussão a nossa própria existência e a existência do mundo que nos rodeia assim como ele é. Basta não ligar ao que os outros dizem e encarar a filosofia como um ensinamento para o nosso cotidiano, para a nossa vida.

Sócrates, filósofo grego nascido em Atenas por volta do ano 470 a.C., é um símbolo da filosofia do autoconhecimento. De origem modesta, era filho de Sofronisco, escultor, e de Fenarete, parteira, com quem dizia ‘ter aprendido a arte de obstetra de pensamentos’. Abandonando a arte de seu pai, dedicou-se inteiramente à missão de despertar e educar as consciências, tendo como influência a filosofia de Anaxágoras.


Numa época em que ainda se deprecia o termo ‘autoajuda’, desconhece-se que toda a sabedoria de Sócrates se fundamentava nas suas investigações sobre a ‘filosofia do autoconhecimento’. É compreensível haver uma categoria de livros de autoajuda que só ’chovem no molhado’, com frases ‘bacanas’, difíceis de aplicar na vida, o que não impede que possam ser úteis a uma categoria de leitores. Mas realmente não dá pra confundir a ideia da ‘autoajuda convencional’ com a profundidade da literatura abordando autoconhecimento, fundamentada em estudos e pesquisas de, principalmente, renomados psicólogos e filósofos, alguns deles, cientistas de algumas das maiores universidades do mundo. O autoconhecimento leva ao rompimento com as ideias e formas velhas no mundo do pensamento, através de um contínuo processo de busca e transformação pessoal. Diferentemente da ‘autoajuda’, o autoconhecimento requer muita dedicação, pesquisa, estudo e reflexão.

Sócrates foi o primeiro dos três grandes filósofos gregos que estabeleceram as bases do pensamento ocidental (os outros dois foram Platão e Aristóteles). Sócrates era tão filosoficamente interessante, que o romano Cícero disse: ‘ele fez com que a filosofia descesse dos céus para a terra’. Em outras palavras, o filósofo conduziu a transição do pensamento dos antigos cosmologistas gregos, que viviam refletindo sobre a origem do universo, para preocupações maiores com a ética e a existência humana, adotando o famoso lema: “Conhece-te a ti mesmo”, isto é, torna-te consciente da tua ignorância - como sendo o ápice da sabedoria. A introspecção é a característica da filosofia de Sócrates.

Sempre entre jovens, sempre em discussões, o filósofo não deixou nada escrito para a posteridade e quase tudo que se sabe sobre suas ideias e sua personalidade origina-se das obras de Platão, seu principal discípulo, e do livro ‘Memorabilia’, do historiador clássico grego Xenofonte. Esses dois autores, cerca de 40 anos mais novos que Sócrates, só testemunharam mesmo a última década da vida do filósofo, cuja atividade consistia em debater temas de filosofia com base nos conceitos da moral e da ética.

Sócrates adotava sempre um duplo diálogo, conforme se tratava de um adversário a rejeitar suas ideias ou de um discípulo a instruir. No primeiro caso, assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão de sua ignorância. É a ironia socrática. No segundo caso, tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido), multiplicava ainda as perguntas, dirigindo-as agora a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito, uma definição geral do objeto em questão.

A morte do sábio

A sua atividade e a sua vida foram finalizadas pela condenação à morte. Três cidadãos atenienses instauraram um processo contra o filósofo. Acusavam-no de não venerar os deuses da cidade, de introduzir inovações religiosas e de corromper os jovens de Atenas. A gravidade das acusações era de tal ordem, que exigia pena capital. Sócrates reagiu com serenidade absoluta. Apesar de, durante o julgamento, lhe ser dada a oportunidade de renunciar às suas ideias, ele preferiu manter-se fiel à busca da verdade a assumir uma conduta capaz de torná-lo benquisto entre seus inquisidores. Segundo o relato de Platão, ele desafiou o júri com as palavras: "Enquanto eu puder respirar e exercer minhas faculdades físicas e mentais, jamais deixarei de praticar a filosofia, de elucidar a verdade e de exortar todos que cruzarem meu caminho a buscá-la [...]. Portanto, senhores, seja eu absolvido ou não, saibam que não alterarei minha conduta, mesmo que tenha de morrer cem vezes."

Ao se dirigir aos atenienses que o julgavam, Sócrates disse que lhes era grato e que os amava, mas que obedeceria antes ao Deus do que a eles, pois enquanto tivesse um sopro de vida, poderiam estar seguros de que não deixaria de filosofar, tendo como sua única preocupação andar pelas ruas, a fim de persuadir seus concidadãos, moços e velhos, a não se preocupar nem com o corpo nem com a fortuna, tão apaixonadamente quanto com a alma, a fim de torná-la tão boa quanto possível.

Denunciado, então, como subversivo, foi condenado à morte ultrajante; rodeado por um grupo de amigos desolados, teve de beber uma taça de cicuta na prisão de Atenas, em fevereiro de 399 a.C.

Sócrates queria que as pessoas se desenvolvessem na virtude. A virtude é um agir ótimo, é procurar fazer o bem, que é o correto, o ideal. Ser virtuoso é o máximo que se pode ser. O ato virtuoso depende do fim que se colocar para ele. As coisas são virtuosas à medida que elas fazem bem às coisas para as quais elas foram feitas. O caminho para a virtude não é só o intelecto, razão, é o conhecimento místico também. Para Platão, as principais virtudes são: força, coragem, justiça e piedade. A virtude abrange, também, criar riquezas.

“A virtude da alma é a sabedoria, que é o que a aproxima de Deus”, dizia. Para o filósofo, “a sabedoria tem a ver com humildade intelectual e não com a quantidade de saber. O ignorante é arrogante porque pensa que sabe. Não descobrindo em si mesmo espécie alguma de sabedoria, onde quer que estivesse, interrogava seus interlocutores a respeito de coisas que, por hipótese, deveriam saber. Ao interrogá-los, verificava que não sabem o que julgam saber, e o que é mais grave, não sabem que não sabem. Assim, Sócrates se achava mais sábio porque pelo menos sabia que nada sabia, ao passo que as outras pessoas pensavam que sabiam. O importante para a sabedoria é o que você faz, não é o que você sabe. A sabedoria modifica o ser e purifica a alma de forma que seus objetivos fiquem mais fácil de serem atingidos”.




Na visão de Sócrates, todos os homens procuram a felicidade, quer dizer, o bem, e o vício não passa de ignorância, pois ninguém pode fazer o mal voluntariamente. “A filosofia vem de dentro para fora e sua função é despertar o conhecimento, ou seja, o autoconhecimento, pois a verdade está dentro de cada um. Para conhecer a si mesmo é preciso conhecer o outro. A alma do outro é como se fosse o espelho da própria alma”.

O ‘conhecer-te a ti mesmo’, que era, na inscrição de Delfos (onde Sócrates foi proclamado o mais sábio), uma advertência ao homem para que reconhecesse os limites da natureza humana, tem dois significados: ter a consciência da condição humana, não tentar ser mais do que é para os homens serem, não tentar ser Deus, não ser arrogante, devendo os limites humanos ser respeitados para que se viva bem, ou seja, a consciência da seriedade e gravidade dos problemas, que impede toda presunção de fácil saber e se afirma como consciência inicial da própria ignorância. O filósofo falava sobre o conhecimento interior, ou seja, conhecer o que permanece oculto, isto é, as coisas divinas eternas, o que as pessoas nem sabem que podem ser. É necessário conhecer o universo para conhecer a si mesmo. Sócrates fingia ser capaz unicamente de interrogar, mas não de ensinar alguma coisa, mas levava o interlocutor, mediante uma série de perguntas habilmente formuladas, a tomar consciência da própria ignorância e a confessá-la.

É nessas buscas que percebo o quão ainda incompleto é o conhecimento humano. Basicamente, Sócrates pregava a necessidade de o homem manter uma sensação de propósito e progresso em sua vida. Todos os seus pensamentos e ações dirigiam-se a essa meta. Indiretamente, ele chamava a atenção para que o indivíduo ficasse atento a si mesmo, capacitando-se para ajudar o mundo. Apenas através do autoconhecimento surge um grande entendimento.


“[...] Portanto, ó homem, aumenta tuas necessidades e poderás expandir tua percepção”, ditou Jalal ad-Din Rumi, 1207-1273, poeta, jurista e teólogo sufi persa do Século XII.

O mundo dá muitas voltas. E o homem contemporâneo passa a se inspirar cada vez mais na base filosófica de um Sócrates e de outros filósofos indianos, por exemplo. Após ter atingido o apogeu da revolução tecno-científica e se sentir mais solitário, angustiado, ansioso e infeliz do que nunca, só lhe resta buscar o conhecimento capaz de assegurar algo tão complexo e tão simples ao mesmo tempo: a conquista da ‘serenidade’.

O homem precisa de muita sabedoria para enfrentar o futuro. Sócrates eternizou-se com a sua verdade sobre o que é essencial à natureza humana.



Fonte de referências:

https://teonanacatl.org/threads/s%C3%B3crates-e-a-filosofia-do-auto-conhecimento-feliz.1982/, ‘Sócrates e a filosofia do autoconhecimento’, Fernanda Negreiros. 



   ·         Revisão do texto: Márcia Navarro Cipólli

3 comentários:

  1. “Sócrates foi um filósofo grego que andava pelas ruas de Atenas, onde havia lojas de comércio, e também vendedores chegavam à porta e perguntavam se ele desejava alguma coisa. Ele respondia: “Não, estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz”. Sócrates, para ser feliz, tem necessidade de muitíssimas coisas: são coisas que não se veem, não podem ser tocadas, mas são extraordinariamente raras e onerosas, porque custam sensibilidade, sabedoria e riqueza de vida interior.” Fonte: 'Diálogos Criativos', Domenico De Masi e Frei Betto

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  2. “Sócrates acreditava no conhecimento, sim, mas não na arrogância dos presumidos conhecedores.”
    (João Pereira Coutinho, ‘Em defesa das causas perdidas’, Folha de S.Paulo, 12/9/2017)

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  3. “Sócrates acreditava no conhecimento, sim, mas não na arrogância dos presumidos conhecedores.”
    (João Pereira Coutinho, ‘Em defesa das causas perdidas’, Folha de S.Paulo, 12/9/2017)

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