quinta-feira, 31 de julho de 2014

ARROGÂNCIA INTELECTUAL E SABEDORIA

“Podemos ser muito bons em certos aspectos e fracassar em outros”

Tom Simões, tomsimoes@hotmail.com, jornalista, Santos (S)


A ARROGÂNCIA em certos ‘intelectuais’ chega a me incomodar, pois sentem-se ‘possuidores de todo o conhecimento’. E, se alguém não faz parte do seu grupo, eles simplesmente o menosprezam. Arranjam sempre uma maneira de depreciar o trabalho de quem não faz parte da sua ‘elite intelectual’. Na contramão dos pretenciosos, Rubem Alves e Ariano Suassuna, recém-falecidos, são exemplos bem acabados da “humildade” entre intelectuais.

Vejamos o que Jorge Blaschke escreve sobre o assunto, em sua obra “Além de Osho”: “Acreditar que somos os melhores, seja em geral ou em nossa especialidade. Podemos ser muito bons em certos aspectos e fracassar em outros. É o que Daniel Goleman discutiu em ‘Inteligência Emocional’: pessoas que obtiveram muitos diplomas acadêmicos ‘cum laude’, e passam a acreditar que são as melhores, depois são incapazes de se relacionar com os demais por não poderem controlar suas emoções nem compreender as alheias”.


O foco principal do trabalho de Peter Drucker, considerado o ‘Papa da Administração’, é o homem e seu desejo de sabedoria. Para esse autor, o conhecimento humano é criativo, participativo e transformador. Esse conhecimento, que não apenas forma, mas transforma, constitui a grande riqueza a ser multiplicada para o acesso de um número cada vez maior de pessoas. Ele diz que a arrogância intelectual leva à ignorância incapacitadora. São muitas as pessoas – e principalmente as pessoas com vasto conhecimento em uma área – que menosprezam o conhecimento em outras áreas ou acreditam que ser ‘brilhante’ substitui o saber. E então, a análise de feedback logo mostra que uma razão importante para o fraco desempenho é quando não se sabe o suficiente, ou se despreza o conhecimento fora da própria área de especialidade.

De acordo com Blaschke, o desprezo pelos demais, segundo os ensinamentos de Osho, filósofo indiano, é um dos aspectos que nos converte em cretinos. “Geralmente, desprezamos pessoas porque as consideramos inferiores, menos inteligentes do que nós, ou porque pertencem a outra etnia que não é a que nós consideramos hegemônica. Nós as desprezamos porque não tiveram a oportunidade de ter uma educação como a nossa e seus modos não estão à nossa altura, ou simplesmente porque acreditam em coisas que para nós parecem bobagens ou falsidades.  Desprezamo-as porque têm uma religião diferente da nossa, porque seus deuses não são os que nos inculcaram por meio de uma educação condicionante. Em qualquer caso, esse desprezo é injustificado, já que são muitas as circunstâncias que formam as pessoas e nem todas têm as mesmas oportunidades na vida. O desprezo por qualquer ser humano não é justificável nem entre os piores.” Para esse escritor, até mesmo com a pessoa mais cretina do mundo podemos aprender algo; no mínimo, quais foram as circunstâncias que a levaram a esse estado de cretinice. Ao utilizar o termo ‘cretino’, Blaschke não se refere aos que padecem da patologia definida como cretinismo, mas ao termo cretinice, que se refere a um comportamento não patológico de idiotice ou estupidez.

Isso tudo lembra Idries Shah, também citado por Blaschke: “Ninguém pode chegar à Verdade até que seja capaz de pensar que o próprio caminho pode estar equivocado.” Ele cita também Saadi Shirazi: “Por mais conhecimento que você adquira, se não utilizá-lo, poderá ser ignorante. O conhecimento é para você se beneficiar de suas crenças, não para desfrutar das coisas do mundo.” 

Outro ponto interessante para Blaschke é que, neste mundo, atravessamos várias etapas: inicialmente, tínhamos apenas de sobreviver para transmitir um código genético e uma experiência a nossos descendentes, mas hoje nossa obrigação é transmitir também um conhecimento que lhes facilite saber por que estamos aqui e qual é o nosso destino neste Universo no qual aparecemos.

É bem possível que encontremos muitas respostas a nossas inquietudes, pelo mero fato de pensar ou refletir. Também devemos nos instruir, ler livros e estudar, diz o autor. “Devemos reforçar nossos conhecimentos por meio da leitura, mas essa leitura deve ser informativa, não doutrinadora. Ninguém está em poder da verdade absoluta; portanto, os livros podem nos dar informação e conhecimento sobre os quais devemos refletir; o importante na leitura é não memorizar nem nos converter em intelectuais que apenas repetem nomes de autores, frases e pensamentos.”

Blaschke crê que a leitura deve se converter em uma forma de condicionamento, em uma informação sobre a qual temos de trabalhar e refletir. “Não existem livros bons, existem apenas autores que representam suas reflexões, seus estados de consciência em suas obras. Autores que nos transmitem um saber, uma experiência interior. E não importa se esses autores são antigos ou modernos, o importante é que sua mensagem seja autêntica e reflita as experiências sobre o conceito da vida que foram sentidas naqueles momentos.”



Krishnamurti, segundo Blaschke



Para Jiddu Krishnamurti – filósofo, escritor e educador indiano -, o mundo se encontra em um caos pelo fato de os seres humanos perseguirem falsos valores. Dá-se importância ao terreno, à glória, ao material e a uma infinidade de aspectos que geram apenas conflito e dor. O verdadeiro valor está no pensar com retidão, na busca interior, na compreensão de toda a estrutura do pensamento.

Krishnamurti era muito consciente de como esbanjamos, na vida, nossas energias internas. Destacava que desperdiçamos nossa energia em conflitos, brigas, vaidades e medo de perder nosso poder. Para que nosso cérebro não se deteriore, temos de fugir dos conflitos, da ambição, da luta, do desalento. Temos uma energia extraordinária quando não estamos competindo com outros, comparando-nos, reprimindo-nos.

Há na crônica de Ferreira Gullar, “Frases de efeito” (Folha de S. Paulo, 10/11/2013), algo assim: “Quando Fernando Pessoa diz que a arte é ‘uma confissão de que a vida não basta’, o que está afirmando é que o significado da vida não se limita à realidade material do mundo; essa realidade não lhe basta, ela só se completa com a dimensão espiritual. A arte e a literatura – particularmente a dele, Pessoa – são uma confissão de que a vida só se completa no plano espiritual. A realidade material não basta”.

Tem ainda algo escrito por Jean Klein, citado em “Além de Osho”, que apoia e amplia esta reflexão sobre o conhecimento: "Um mestre é alguém que vive livre da ideia ou imagem de ser alguém. É alguém que não pede nada, que apenas dá. Um verdadeiro mestre não se considera mestre, nem considera seu discípulo como discípulo. Quando nenhum dos dois se considera algo, pode haver um encontro, uma unidade. E nessa unidade é realizada a transmissão”.   
Para Jorge Blaschke, a intelectualidade, o raciocínio, a lógica ou as conceitualizações só são necessários para compreender nossas próprias limitações. 

Revisão do texto: Márcia Navarro Cipólli, navarro98@gmail.com

10 comentários:

  1. “AOS OLHOS DA MAIORIA, a sabedoria é considerada loucura, porque repousa numa visão do mundo, numa cosmologia cuja compreensão íntima supõe um esforço teórico fora do comum.”

    * Luc Ferry, filósofo francês, “Aprender a viver, filosofia para os novos tempos”

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  2. “Humildade é a base sobre a qual as coisas podem acontecer. É o cuidado e a simplicidade a partir dos quais se pode criar. Como nela não existe a expectativa do brilhantismo, a tarefa pode acontecer com mais naturalidade, sem a preocupação do que os outros vão pensar ou dizer. Ao lado de uma pessoa humilde, nos sentimos bem porque ela se respeita, nada a diminui e tudo reforça a sua beleza, porque a metade já foi realizada.”

    * Anthea Church

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  3. “PARA SABERMOS TUDO, precisamos conhecer todas as perguntas, o que é claramente impossível. Melhor assim, pois ficamos livres para continuar a perguntar, inspirados pelo que não sabemos.” Marcelo Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), crônica “Perguntas irrespondíveis”, Folha de S. Paulo, Saúde+Ciência, 3/8/2014

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  4. Osho destaca que o ego é essa atitude que nos faz acreditar sermos únicos, que o mundo gira a nosso redor, que somos a atenção de tudo, que somos infalíveis e também os melhores. O ego nos faz menosprezar os demais, ser ambiciosos e nos comportar com superioridade. O ego não é uma particularidade das pessoas incultas, há personagens muito cultos com um grande ego; também há políticos e até mesmo cientistas assim. Existiram e existem escritores que foram superados por seus egos e levados a tratar os demais como inferiores por não terem o talento que eles tinham. Também houve e há políticos que, por terem alcançado o poder entre seus cidadãos, creem-se superiores e infalíveis perante todos os demais. Até mesmo cientistas que, por criarem novas teorias ou realizado uma descoberta importante, creem-se capazes de compreender a ciência e o mundo que os rodeia. Todos eles são incapazes de se auto-observar, de se autoconhecer e de descobrir sua pequenez e sua escassa realização interior. Fonte: Jorge Blaschke, "Além de Osho"

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  5. Osho e todas as tradições espirituais, assim como todos os mestres que seguem essas filosofias, são claros e explícitos quanto ao conceito do êxito e do poder: trata-se de duas armadilhas para impedir a evolução interior e o caminho espiritual. Lamentavelmente, nosso sistema social está constituído da modalidade do prêmio e recompensa para aqueles que chegam a seus mais altos escalões sociais, para os que têm êxito e triunfam e para os que alcançam o poder. Toda a educação, toda a publicidade, todo o ensinamento gira em tornode alcançar o êxito, de triunfar e conseguir o poder. Até mesmo muitas religiões estimulam a alcançar altas metas para poder continuar manipulando o resto dos seres com seus dogmas e ensinamentos.
    Se ainda não estamos em uma via espiritual, temos de começar admitindo que somos únicos, normais. Devemos aumentar nossos conhecimentos e cultura, ao mesmo tempo em que buscamos a verdade interior. Temos de conhecer a nós mesmos e aceitar que somos como somos, e que não queremos ser como os famosos. Se por alguma circunstância alcançarmos uma relativa fama – como escritores, artistas ou atletas -, devemos procurar ser humildes, passar despercebidos, seguir a norma de que é uma grande inteligência saber ocultar nossa inteligência. Fonte: Jorge Blaschke, "Além de Osho"

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  6. “A faculdade de pensar objetivamente é a razão; a atitude emocional por trás da razão é a da humildade. Ser objetivo, usar a razão, só é possível quando se consegue uma atitude de humildade, quando se emerge dos sonhos de onisciência e onipotência que se tem quando criança.”
    * Erich Fromm, 1900-1980, psicanalista alemão, filósofo e sociólogo

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  7. Chega de informação!
    “Os cientistas dizem que um único sistema de memória, uma única mente humana, pode conter todas as bibliotecas do mundo. Essa capacidade existe. Mas, ainda que uma pessoa contenha todas as bibliotecas do mundo, ela não será um Buda. Continuará sendo a mesma pessoa tola, o mesmo burro carregado de todas as escrituras. Isso não transforma o ser. Se você quer transformar seu ser, precisa ir além da palavra, além de todas as teorias, ideologias, doutrinas, escrituras.
    Chega de informação! Ponha um ponto final nisso, porque tanta informação só faz do homem um papagaio. E chamamos esses papagaios de gênios... Mas isso não torna uma pessoa satisfeita, feliz, amável, sábia. Dê um fim a toda essa informação, o que significa dar um fim à mente.
    Dar um fim à mente é o início da meditação. E, quando a meditação se inicia, os milagres começam a acontecer, então a vida começa a avançar de maneira espetacular... É inacreditável! Você se torna ciente de muitos mistérios que existem a sua volta, que estão por aí em abundância. Mas nos fechamos por causa de nosso conhecimento. Nossos olhos estão fechados. Estamos cegos por causa do conhecimento.
    Você tem de ser inocente como uma criança. Quando se tornar inocente – limpo, completamente limpo, como um espelho -, você refletirá a verdade. E conhecer a verdade é transformar-se nela.”
    (Osho, filósofo indiano, 'Meditações para a noite’)

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  8. TOME CUIDADO COM O CONHECIMENTO
    “ERUDIÇÃO é algo muito fácil de se conseguir. Os textos sagrados estão aí, as bibliotecas está aí, as universidades estão aí; é muito fácil tornar-se uma pessoa erudita. Acontece que, ao acumular conhecimento, você acaba se colocando numa situação bastante delicada, pois o ego logo vai acreditar que se trata do ‘seu’ conhecimento – aliás, não apenas de conhecimento, mas que se trata de sua sabedoria. O ego vai querer transformar aquilo que é mero conhecimento em sabedoria. E logo você começará a acreditar que já sabe.
    Mas você não sabe nada. Você sabe apenas aquilo que leu nos livros. E é bem provável que esses livros tenham sido escritos por pessoas iguaizinhas a você. Na verdade, 99 por cento dos livros são escritos por pessoas cujo conhecimento provém unicamente dos livros, e não da experiência.”
    * Osho, filósofo indiano, ‘Vivendo perigosamente – A aventura de ser quem você é’

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  9. TOME CUIDADO COM O CONHECIMENTO
    “ERUDIÇÃO é algo muito fácil de se conseguir. Os textos sagrados estão aí, as bibliotecas está aí, as universidades estão aí; é muito fácil tornar-se uma pessoa erudita. Acontece que, ao acumular conhecimento, você acaba se colocando numa situação bastante delicada, pois o ego logo vai acreditar que se trata do ‘seu’ conhecimento – aliás, não apenas de conhecimento, mas que se trata de sua sabedoria. O ego vai querer transformar aquilo que é mero conhecimento em sabedoria. E logo você começará a acreditar que já sabe.
    Mas você não sabe nada. Você sabe apenas aquilo que leu nos livros. E é bem provável que esses livros tenham sido escritos por pessoas iguaizinhas a você. Na verdade, 99 por cento dos livros são escritos por pessoas cujo conhecimento provém unicamente dos livros, e não da experiência.”
    * Osho, filósofo indiano, ‘Vivendo perigosamente – A aventura de ser quem você é’

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  10. “TÃO frequentemente o intelectual é um imbecil que o deveríamos sempre tomar como tal, até que nos tenha provado o contrário.”
    * Georges Bernanos, 1888-1948: escritor e jornalista francês. Bernanos participou intensamente da vida política francesa; foi soldado de trincheira na Primeira Guerra Mundial e repórter na Guerra Civil Espanhola.

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