quarta-feira, 8 de julho de 2026

O DESPERTAR DA ATENÇÃO

 

A importância de direcionar intencionalmente a atenção para o momento presente


Tom Simões, humanista, jornalista e divulgador científico, Santos (Brasil), 8 de julho de 2026   

 

Nossa capacidade de atenção sempre foi diminuta. E nada de responsabilizar as redes sociais para a falta de concentração. Sim, as redes sociais alteraram profundamente a maneira como administramos nossa atenção. Por isso viciam, manipulando os circuitos de dopamina com notificações, atualizações de status, fotos, vídeos, notícias e anúncios, sem contar a avalanche de informações inúteis que caracteriza o mundo contemporâneo: postagens superficiais e repetitivas, produzidas sem reflexão, que chegam de repente e em enorme quantidade. A dopamina atua diretamente no sistema de recompensa, motivação, humor e controle motor; ela impulsiona a pessoa a agir e a buscar.

Uma atenção focada e responsável dirige o olhar e o pensamento para o essencial, evitando distrações e impulsos. Concentrar a mente no que realmente importa, com consciência e discernimento, é algo raro. Atenção focada e responsável significa “estar presente”, pensar antes de reagir e agir com intenção. Cada pessoa pode ser capaz de distinguir o que é autêntico ou nocivo para o seu bem-estar. Despertar nesse sentido exige esforço consciente e intencional para ser cultivado.

O ser humano sempre foi suscetível à distração e ao desvio de foco. Antes da internet e das redes sociais, a interrupção constante ocorria através do rádio, da televisão, de telefonemas, de conversas de escritório ou mesmo da leitura de jornais e revistas, que dividiam a atenção com as obrigações diárias.

Apesar da distração não ser uma invenção moderna, a dinâmica atual é diferente. Especialistas apontam que a internet e as redes sociais intensificaram o chamado ‘capitalismo da atenção’. Estudos em psicologia cognitiva e neurociência indicam que a transição constante entre múltiplas tarefas e estímulos digitais reduz a capacidade de manter o foco prolongado e aprofundado.

Diferente de uma televisão ou rádio que exigiam estar em um local específico, os dispositivos móveis acompanham os indivíduos em todos os ambientes, eliminando os períodos de pausa e ociosidade.

Obras como A Geração Superficial, do jornalista e escritor americano Nicholas Carr, discutem como a era digital influencia a plasticidade cerebral, modificando nossos padrões de atenção. Na mesma direção, o escritor e professor de Ciências da Computação da Universidade de Georgetown, Cal Newport, defende o conceito de trabalho profundo e de um ritmo mais sustentável de produtividade, valorizando a concentração em poucas tarefas de cada vez. Por sua vez, o psicólogo e economista Daniel Kahneman demonstrou que nossas decisões são frequentemente influenciadas por processos automáticos e ‘vieses cognitivos’, reforçando a importância de uma atenção consciente e deliberada. Já o biólogo molecular Jon Kabat-Zinn difundiu o conceito contemporâneo de mindfulness, mostrando que a atenção plena pode ser desenvolvida por meio da prática, com benefícios para a saúde, o equilíbrio emocional e a qualidade de vida.

Vieses cognitivos são atalhos mentais inconscientes que o cérebro utiliza para processar informações rapidamente e economizar energia. Embora úteis para a sobrevivência, essas distorções podem levar a julgamentos ilógicos, irracionais ou erros sistemáticos na tomada de decisões diárias.

Em conjunto, esses quatro autores oferecem perspectivas complementares sobre um mesmo desafio contemporâneo: os efeitos da tecnologia sobre a atenção, a recuperação da capacidade de concentração, a influência dos processos cognitivos na tomada de decisões e o desenvolvimento da atenção plena como prática de equilíbrio e autoconhecimento.

 

Como viver o presente

 

A atenção plena (mindfulness) refere-se à prática de dirigir conscientemente a mente para o momento presente, sem agir no ‘piloto automático’ e sem julgamentos precipitados, observando o que acontece dentro e fora de nós com clareza, equilíbrio e intenção. Em vez de viver distraído pelas preocupações, pelas lembranças ou pelo excesso de estímulos, aprende-se a viver com maior presença e lucidez.

Parece haver um paradoxo na sociedade atual: nunca tivemos tanto acesso à informação, mas talvez nunca tenhamos vivido tão dispersos. Celulares, redes sociais, notificações e o excesso de conteúdos fragmentam nossa capacidade de concentração. A atenção, caracterizada como recurso precioso, tornou-se um dos bens mais disputados da era digital.

Nesse contexto, a atenção plena não é apenas uma técnica de meditação, mas uma competência humana essencial. Ela nos permite ouvir melhor, aprender melhor, tomar decisões mais conscientes, fortalecer relações e descobrir a capacidade de reflexão.

Trata-se da porta de entrada do conhecimento. Sem atenção, não há aprendizado; sem aprendizado, não há pensamento crítico; e sem pensamento crítico, enfraquece-se a formação intelectual e a vida em sociedade.

“Mesmo que a desconexão se torne mais e mais difícil, pois a expectativa de que permaneçamos conectados está embutida na nossa vida profissional e cada vez mais na vida social, a maneira de manter o modo mais contemplativo de pensamento é se desconectar por um tempo substancial, reduzindo nossa dependência em relação às tecnologias de tela e exercendo nossa capacidade de prestar atenção profundamente em uma única coisa”, analisa Nicholas Carr.

Plataformas focadas na interação social, criação de perfis e manutenção de relacionamentos, mesmo que sejam obviamente úteis para as pessoas, são também as que mais distraem, constantemente nos interrompendo com pequenas mensagens. É quando Nicholas traça a fronteira: “mesmo que eu perca algo por não estar no Facebook ou Instagram, por exemplo, as interrupções são um preço alto demais a pagar”.

 

O despertar da consciência

 

O despertar da atenção consciente não acontece por decreto nem de um dia para o outro. É um processo lento, construído pela reflexão, pela experiência e pelo exercício cotidiano de observar a si mesmo e o mundo. Até que, em determinado momento, surge um estalo: uma compreensão que muda a forma de enxergar a vida. A partir daí, já não é possível voltar ao estado anterior de inconsciência.

No instante em que a percepção muda, não se transforma apenas a maneira de enxergar o mundo; transforma-se também a maneira como o mundo passa a existir dentro da consciência.

Sob uma perspectiva filosófica, esse despertar representa o amadurecimento da consciência. Quando a pessoa aprende a se bastar, deixa de buscar fora de si as respostas para tudo e passa a distinguir com mais clareza a paz da desarmonia, o essencial do supérfluo, o ruído do significado. É nesse momento que ela começa a entender, com autonomia e lucidez, que atenção consciente é o primeiro passo para uma vida mais livre, equilibrada e dotada de sentido.

Seria um equívoco demonizar as redes sociais. Afinal, o verdadeiro progresso não depende apenas do avanço das ferramentas, mas de quem as utiliza de forma consciente e responsável. Quando usadas com discernimento, elas deixam de ser instrumentos de dispersão para se tornar poderosos meios de acesso ao conhecimento, à cultura, à ciência e às boas ideias. O despertar da atenção permite justamente essa escolha: filtrar o ruído, valorizar o conteúdo de qualidade e fazer da tecnologia uma aliada na construção de uma sociedade mais crítica, equilibrada e humana.

Surpreendo-me com a quantidade de informações hoje disponíveis na internet e nas redes sociais. Nunca foi tão fácil acessar livros, pesquisas, cursos, conferências, vídeos e textos educativos e outros instrumentos capazes de ampliar nossa compreensão do mundo. Para quem cultiva a curiosidade e tem um propósito de vida voltado ao conhecimento, a tecnologia torna-se uma poderosa aliada na democratização do saber e na popularização da ciência. O verdadeiro desafio, portanto, não é reduzir o acesso à informação, mas desenvolver a atenção consciente que nos permita distinguir o que nos faz crescer daquilo que apenas nos distrai. Quanto maior a consciência, melhor o uso da tecnologia — e maior a contribuição para um mundo mais esclarecido, crítico e humano.

Mais do que uma disputa pela nossa atenção, o verdadeiro desafio do nosso tempo é aprender a governá-la.

 

***

 

          ·         Imagem e sugestão de leitura: https://www.einstein.br/n/vida-saudavel/5-vantagens-do-mindfulness-e-um-passo-a-passo-para-pratica-lo  



Um comentário:

  1. Há uma riqueza que está se tornando cada vez mais escassa: a capacidade de prestar atenção.
    Sem ela, lemos sem compreender, ouvimos sem escutar, vivemos sem realmente perceber. Afinal, a atenção é o lugar onde a vida realmente acontece. Aquilo a que dedicamos nossa atenção molda nossos pensamentos, nossas escolhas e, pouco a pouco, quem nos tornamos.
    TALVEZ A MAIOR CRISE DO NOSSO TEMPO NÃO SEJA A FALTA DE INFORMAÇÃO, MAS A INCAPACIDADE DE PERMANECER ATENTOS. Quando a mente é constantemente capturada pelo imediato, perdemos algo essencial: a possibilidade de compreender, contemplar e despertar.
    Este artigo é um convite a uma pausa deliberada para refletirmos sobre o destino da nossa atenção em tempos de distração permanente. Porque, ao recuperarmos a atenção, recuperamos também a consciência da própria vida.

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