segunda-feira, 29 de junho de 2026

LULA E BOLSONARO: COMO AVALIAR GOVERNOS RACIONALMENTE

                                                       O papel do raciocínio crítico 



Tom Simões, humanista, jornalista e divulgador científico, Santos (Brasil), 29 de junho de 2026

 

Quando alguém odeia, esse sentimento costuma revelar algo profundo. O humorista e jornalista Millôr Fernandes observou que o ódio é sempre sincero porque frequentemente expõe ressentimentos, rivalidades ou feridas pessoais. Em sociedades polarizadas, esse mecanismo também aparece na política: muitas vezes julgamos governos menos pelos fatos e mais pelas identidades que construímos em torno deles.

Desenvolver o pensamento lógico exige treino constante. O raciocínio lógico é a capacidade de organizar informações, analisar evidências e chegar a conclusões coerentes. Não se limita à matemática formal; trata-se da habilidade de examinar premissas e verificar se os argumentos realmente se sustentam.

Objetividade significa aproximar-se dos fatos da maneira mais rigorosa possível, reduzindo a influência de preferências pessoais. A análise de governos, portanto, não deve ser guiada pela simpatia ou antipatia política, mas por critérios consistentes e igualmente aplicáveis a todos.

Se o desemprego é importante para avaliar um governo, deve sê-lo para qualquer governo. Se o desmatamento preocupa em determinado período, deve preocupar também em outro. Se educação, ciência e saúde são relevantes, sua evolução precisa ser observada de forma contínua.

Em sociedades altamente polarizadas, o cidadão frequentemente deixa de perguntar "o que aconteceu?" para perguntar "de que lado estou?". Esse deslocamento enfraquece o debate público e faz com que os critérios de avaliação mudem conforme a preferência política do observador.

Este texto propõe um caminho diferente: avaliar governos por meio de indicadores relativamente objetivos, utilizados por economistas, sociólogos, historiadores, cientistas políticos e estudiosos das políticas públicas. A intenção não é defender ou condenar governos, mas aplicar o mesmo conjunto de critérios a diferentes períodos históricos.

 

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO

 

O papel do articulista não é dizer ao leitor o que pensar, mas oferecer elementos para que ele pense. A objetividade não consiste em eliminar opiniões, mas em submeter as opiniões aos fatos.

Democracias não dependem apenas do direito de votar. Dependem também da capacidade de julgar governos por critérios estáveis, verificáveis e igualmente aplicáveis a todos.

Uma análise objetiva pode considerar indicadores relativamente constantes:

- Renda e poder de compra; 
- emprego e desemprego;
- pobreza e desigualdade;
- educação, ciência e produção científica;
- saúde pública;
- meio ambiente;
- segurança pública;
- política externa e inserção internacional;
- funcionamento das instituições democráticas.

Muitas análises políticas fracassam por dois motivos: excesso de abstração, que afasta o leitor, ou excesso de militância, que transforma a conclusão em ponto de partida. Existe um terceiro caminho: rigor intelectual aliado à clareza jornalística.

Em textos destinados ao público leigo, alguns princípios costumam funcionar:

• preferir fatos a conceitos abstratos;
• utilizar comparações simples;
• explicar o contexto sem transformá-lo em desculpa;
• apresentar resultados concretos.

Dizer que "a renda das famílias mais pobres cresceu mais rapidamente" costuma ser mais claro do que falar apenas em "redução da desigualdade". Da mesma forma, afirmar que "o salário-mínimo passou a comprar mais produtos e serviços" é mais compreensível do que utilizar expressões técnicas.

Contextos também importam. Os primeiros governos Lula foram beneficiados por um ciclo internacional favorável às commodities — produtos básicos negociados no mercado internacional. O governo Bolsonaro enfrentou a pandemia de Covid-19, uma das maiores crises sanitárias e econômicas da história recente. Nenhum desses fatores, entretanto, elimina a responsabilidade dos governos pelas decisões tomadas.

 

AVALIAÇÃO DOS GOVERNOS

 

Mais importante do que escolher vencedores é observar padrões. Em ambos os casos há avanços e limitações, que variam conforme o indicador analisado.

 

GOVERNO BOLSONARO (2019–2022)

 

O período foi fortemente condicionado pela pandemia de Covid-19.

 

Pandemia e economia:

 

- Milhões de brasileiros perderam emprego ou renda durante a crise sanitária;
- criação do Auxílio Emergencial para sustentação da renda;
- recuperação econômica após a fase mais grave da pandemia;
- redução do desemprego em relação ao pico de 2020;
- recuperação desigual entre setores e grupos sociais;
- inflação elevada em diversos momentos, reduzindo o poder de compra.

 

Reformas e medidas econômicas:

 

- Reforma da Previdência;
- Lei da Liberdade Econômica;
- autonomia do Banco Central;
- Marco Legal do Saneamento;
- Marco do Gás;
- Marco das Ferrovias.

 

Infraestrutura e gestão:

 

- Leilão do 5G;
- ampliação dos serviços digitais por meio do Portal Gov.br;
- conclusão de etapas da transposição do Rio São Francisco;
- concessões e leilões de infraestrutura;
- privatização da Eletrobras.

 

Política externa:

 

- Aproximação com o governo norte-americano de Donald Trump;
- postura mais crítica em relação a alguns organismos internacionais;
- redução relativa do protagonismo diplomático brasileiro em determinados fóruns.

 

LULA I E II (2003–2010)

 

- Criação do Bolsa Família a partir da unificação de programas sociais;
- Prouni e ampliação do acesso ao ensino superior;
- expansão das universidades e institutos federais;
- programa Luz para Todos;
- Minha Casa Minha Vida;
- Programa de Aceleração do Crescimento (PAC);
- valorização real do salário-mínimo;
- expansão do crédito e da inclusão bancária;
- descoberta e desenvolvimento do pré-sal; 
- aumento do poder de compra;
- crescimento do emprego formal;
- redução da taxa de desemprego.

 

LULA III (2023–PRESENTE)

 

- Retomada do Bolsa Família;
- novo PAC;
- reativação de programas habitacionais;
- ampliação do Minha Casa Minha Vida;
- aprovação da reforma tributária do consumo;
- aumento da renda média do trabalho;
- valorização do salário-mínimo;
- redução do desemprego;
- queda da desigualdade de renda;
- expansão das políticas de transferência de renda;
- crescimento do consumo das famílias.

 

CARACTERÍSTICAS GERAIS

 

Educação, ciência e universidades

Lula:
- expansão das universidades federais, criação de institutos federais, fortalecimento do Prouni, ampliação da pós-graduação e crescimento da pesquisa científica.

Bolsonaro:
- restrições orçamentárias em determinados períodos, tensões com parte da comunidade científica e ausência de expansão significativa do sistema federal.


Meio ambiente

Lula:
- redução do desmatamento em parte dos governos e fortalecimento de órgãos ambientais.

Bolsonaro:
- aumento das taxas de desmatamento e críticas à política ambiental em diversos períodos.


Saúde pública

Lula:
- fortalecimento da atenção básica e expansão de programas do SUS.

Bolsonaro:
- a pandemia tornou-se o principal eixo de avaliação do governo, gerando intensos debates científicos e políticos.

 

Política externa

Lula:
- maior protagonismo internacional e atuação mais ativa em organismos multilaterais.

Bolsonaro:
- alinhamento mais próximo a governos específicos e menor protagonismo em determinados fóruns internacionais.

 

O QUE COSTUMA GERAR CONFUSÃO

 

- Programas podem ser criados por um governo e ampliados por outro;
- obras públicas frequentemente atravessam vários mandatos;
- aprovar uma lei é diferente dos resultados produzidos por ela;
- a avaliação dos resultados frequentemente depende das convicções ideológicas do eleitor.

 

FRAGILIDADES DO BOLSONARISMO

 

O bolsonarismo consolidou-se como importante força política, mas apresenta limitações:

- Forte dependência da liderança de Jair Bolsonaro;
- dificuldades de renovação política;
- dependência das redes sociais;
- tensões entre diferentes correntes internas;
- desgaste associado à circulação de desinformação;
- ausência de um projeto nacional amplamente consensual em algumas áreas.

 

FRAGILIDADES DO GOVERNO LULA

 

As principais dificuldades do atual governo podem ser resumidas em cinco pontos:

- Custo de vida e inflação;
- segurança pública;
- queda de popularidade;
- dificuldades de comunicação;
- dependência de negociações políticas no Congresso.

 

CONCLUSÃO: O PAPEL DO RACIOCÍNIO CRÍTICO

 

Governos podem ser avaliados por discursos, intenções ou simpatias partidárias. Uma análise objetiva, porém, exige observar aquilo que efetivamente foi realizado: leis aprovadas, programas implantados, indicadores sociais, políticas públicas e mudanças institucionais.

Contextos históricos influenciam os resultados. Os governos Lula beneficiaram-se de um cenário internacional favorável às commodities. O governo Bolsonaro enfrentou a pandemia de Covid-19. Ainda assim, crises e conjunturas não eliminam a responsabilidade das decisões governamentais.

A honestidade intelectual não consiste em ser neutro, mas em aplicar aos governos que admiramos os mesmos critérios que aplicamos aos governos que criticamos.

Historiadores, economistas, sociólogos e cientistas políticos raramente classificam governos como inteiramente bons ou inteiramente maus. É comum encontrar avanços em determinadas áreas e limitações em outras.

Em resumo, o raciocínio crítico exige que o mesmo critério utilizado para julgar um governo seja aplicado ao outro. Se o desemprego importa em um caso, deve importar no outro. Se o desmatamento é relevante em um período, deve permanecer relevante no seguinte. Se a ciência, a educação e as universidades são importantes, devem sê-lo independentemente da orientação ideológica do governante.

A contribuição mais importante talvez não seja dizer ao leitor em quem votar, mas mostrar como um governo pode ser avaliado racionalmente. Isso, por si só, já representa um exercício de cidadania intelectual.

 

***

 

* Fontes de consulta: As análises apresentadas resultam da síntese de conhecimentos consolidados em Economia, Ciência Política, Administração Pública e jornalismo de dados, aproximando-se de estudos acadêmicos, relatórios institucionais e séries estatísticas oficiais produzidas por órgãos públicos e centros de pesquisa.    

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