Muitos
crimes acontecem após uma escalada gradual de agressões
Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=dDMbHzemPig
Tom
Simões, jornalista especializado em divulgação científica,
Santos (Brasil), 23 de maio de 2026
No programa “Provoca”, exibido pela TV Cultura de São Paulo em 19 de maio, Marcelo Tas recebeu a escritora e roteirista Patrícia Melo Neschling, abordando sua pesquisa para o livro “Mulheres Empilhadas”, além de comentar outras obras de sua autoria, a situação dos moradores em situação de rua e o sentimento de desesperança presente na sociedade brasileira. Uma entrevista intensa, reflexiva e profundamente voltada às feridas sociais brasileiras – especialmente a violência contra a mulher e a indiferença diante da desigualdade.
Nascida em 1962 na cidade de
Assis (SP), Patrícia é escritora, roteirista e dramaturga, aclamada como umas
das principais vozes contemporâneas da literatura brasileira, especialmente
pela abordagem urbana e violenta de seus romances, frequentemente associados ao
gênero policial – classificação que ela própria costuma rejeitar, preferindo o
tema ‘ficção urbana’. Além da carreira literária, Patrícia Melo trabalhou
intensamente com televisão e cinema. Atualmente, mora em Lugano (Suíça), com o
marido, o maestro John Neschling.
O romance “Mulheres Empilhadas”,
publicado em 2019, tornou-se uma das obras brasileiras mais impactantes sobre o
feminicídio e a violência de gênero. O título é simbólico e perturbador:
“mulheres empilhadas” remete tanto aos corpos femininos acumulados nas
estatísticas da violência quanto à naturalização histórica dessas mortes numa
sociedade patriarcal.
Misturando realismo brutal,
denúncia social e elementos oníricos, o livro aborda uma
jovem advogada que viaja ao Acre para acompanhar julgamentos de assassinatos de
mulheres. Nessa obra, a escritora buscou construir um ‘retrato amplo’ da
condição feminina brasileira, incluindo mulheres indígenas, ribeirinhas,
urbanas e da floresta.
Um dos momentos mais fortes da entrevista
com Marcelo Tas é quando Patrícia relata que “a violência verbal abre a porta
para a violência física”, destacando como relações abusivas geralmente começam
de forma silenciosa e psicológica.
Ao discutir feminicídio, a
escritora é incisiva ao criticar a omissão estatal. Segundo ela, “em alguns
casos, o Estado participa desse homicídio”, por falhar em proteger mulheres
ameaçadas. Patrícia classifica a violência contra a mulher como uma espécie de “pandemia
global”.
Sua literatura é marcada por
temas como violência urbana, exclusão social, crime, poder, misoginia e
degradação moral. Em “Mulheres Empilhadas”, por exemplo, desloca o foco
tradicionalmente masculino de sua obra para o feminicídio no Brasil. Em
entrevistas, afirma considerar o tema “urgente” diante dos índices brasileiros
de violência contra mulheres.
Outro eixo importante é a
desigualdade social no Brasil. Patrícia comentou o crescimento da população em
situação de rua, refletindo sobre como a sociedade acaba “naturalizando” a
miséria como mecanismo de defesa emocional.
Também houve espaço na entrevista
para discutir política e crise de liderança no país. Para ela, o Brasil carrega
problemas históricos jamais resolvidos, especialmente ligados à desigualdade
estrutural. O país necessita de renovação política e ética.
O tom da entrevista foi menos
literário no sentido tradicional e mais humanista e sociológico. Marcelo Tas
conduziu a conversa de forma muito aberta, permitindo que Patrícia articulasse
suas ideias quase como uma ensaísta social — algo que combina bastante com a
natureza do “Provoca”.
De fato, Tas tem essa rara
qualidade de entrevistar sem esmagar o entrevistado com protagonismo próprio;
ele cria um ambiente de reflexão, mais próximo de um diálogo filosófico do que
de uma entrevista convencional. O ouvinte provavelmente percebe isso ao
acompanhar o programa — sobretudo quando o convidado possui densidade
intelectual, como essa escritora.
Em 1999, a revista Time incluiu
Patrícia Melo entre os principais autores latino-americanos do novo milênio.
Suas obras foram traduzidas e publicadas em diversos países, incluindo França,
Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos.
Sinais de
violência em um relacionamento
Misoginia é o ódio, desprezo ou
aversão às mulheres. Pode aparecer em atitudes, discursos, humilhações,
discriminações e violências de vários tipos. Já feminicídio é o assassinato de
mulheres cometido por razões de gênero, ou seja, quando a vítima é morta
simplesmente por ser mulher - e ocorre no ambiente doméstico ou em relações de
afeto (parceiros ou ex-parceiros), envolvendo o ódio à condição feminina e a
sensação de controle sobre a vida e o corpo da mulher.
No Brasil, o feminicídio é
tipificado por lei quando há elementos que indicam violência baseada em gênero,
especialmente em contextos de violência doméstica ou menosprezo à condição
feminina.
Há, de fato, dois fenômenos
acontecendo ao mesmo tempo: em muitos lugares aumentaram as denúncias e a
identificação correta dos casos como feminicídio, mas os números absolutos
também continuam altos — e, em alguns períodos, cresceram de verdade. Por outro
lado, especialistas apontam que hoje há mais conscientização, maior tipificação
legal e mais registros formais, o que torna o problema mais visível.
Alguns feminicidas podem
apresentar traços psicopáticos, mas a maioria dos casos estudados envolve
outros fatores: sentimento de posse, incapacidade de aceitar separação, ciúme
obsessivo, histórico de violência doméstica, misoginia e padrões culturais profundamente
arraigados. Esse tema exige um cuidado: evitar simplificações e tentar
compreender as raízes humanas, emocionais e culturais da violência — sem perder
de vista a responsabilidade individual de quem pratica.
Muitos
crimes acontecem após uma escalada gradual de agressões. Estudos mostram uma
frequência de ameaças, perseguições e boletins de ocorrência anteriores ao
assassinato. Isso é importante porque desmonta uma ideia perigosa: a de que o
feminicida seria sempre um “monstro fora da realidade”. Em muitos casos,
trata-se de homens aparentemente comuns, inseridos socialmente, mas que
desenvolveram relações de controle e violência. Alguns especialistas destacam
justamente esse aspecto: o agressor nem sempre parece violento; pode alternar
agressão, pedido de desculpas e reconciliação.
Também
há um componente cultural forte. Parte dos pesquisadores também relaciona o
feminicídio a uma visão de que a mulher seria uma extensão da vontade masculina
— algo ligado ao machismo estrutural e à ideia de posse afetiva.
Então,
reduzir tudo à psicopatia talvez simplifique demais o fenômeno. O feminicídio
costuma nascer da combinação entre violência emocional, desejo de controle,
desigualdade cultural, falhas de proteção e, às vezes, transtornos psicológicos
— mas não necessariamente psicopatia clínica.
***
Até o
momento, a escritora Patrícia Melo publicou 13 obras literárias, sendo 12
romances e um livro de contos. Entre suas obras mais importantes e reconhecidas
pela crítica e pelo público, destacam-se:
1.
O
Matador — talvez seu livro
mais célebre; retrata a violência urbana e inspirou o filme O Homem do Ano.
Recebeu importantes prêmios internacionais.
2.
Inferno — vencedor do Prêmio Jabuti; acompanha a
ascensão de um jovem no tráfico de drogas em uma favela carioca.
3.
Valsa
Negra — um mergulho
psicológico em obsessão, ciúme e deterioração emocional.
4.
Ladrão
de Cadáveres — romance
policial de grande repercussão internacional, premiado na Alemanha.
5.
Mulheres
Empilhadas — uma das obras
mais discutidas da autora, centrada no feminicídio e na violência contra a
mulher no Brasil.

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