sábado, 16 de maio de 2026

GRATUIDADE DAS AVES E DOS LÍRIOS

 

Manoel de Barros


Tom Simões, jornalista especializado em divulgação científica, Santos (Brasil), 16 de maio de 2026  

 

Manoel de Barros, 1916-2014: um dos maiores poetas da literatura brasileira contemporânea. Criado no Pantanal Matogrossense (a maior planície inundável do mundo e Patrimônio Natural da Humanidade), transformou a natureza, as coisas simples e o ‘inútil’ em matéria de poesia.     

“Gratuidade das Aves e dos Lírios” é um dos poemas mais célebres de Manoel de Barros e integra o livro “Retrato do Artista Quando Coisa”. A obra reúne textos muito característicos do poeta: valorização da natureza, das coisas simples, do inútil aos olhos do mundo prático e daquilo que escapa à lógica utilitária. O próprio título do poema já sugere essa ideia de existência gratuita, livre de finalidade econômica ou produtividade — como os pássaros e os lírios, que simplesmente existem.

O autor celebra a natureza como expressão daquilo que existe gratuitamente no mundo: beleza, delicadeza e encantamento. “Nem tudo precisa produzir resultados para ter significado”, considera.

Ele defende a beleza do “inútil” no melhor sentido: o canto dos pássaros, a delicadeza das flores, o silêncio, o encantamento das pequenas coisas, ou seja, transforma a natureza em linguagem da alma. E, também, critica indiretamente o excesso de racionalidade e produtividade do mundo moderno.   

“Gratuidade das Aves e dos Lírios” tem algo a ver com a forma como interpreto a natureza e a alegria simples que sinto ao observar os pássaros e as árvores. Quando caminho pela calçada e encontro uma ou outra ave ciscando ou recolhendo algo do chão, tento me aproximar lentamente. Mas as aves se assustam facilmente com a presença humana — talvez porque ainda não tenhamos aprendido a nos mover com a leveza necessária diante delas.

Nesse sentido, presencio, de quando em quando, uma cena que devolve esperança: todas as manhãs, na praia, em determinado lugar, alguns senhores, sentados num banco de jardim, repartem migalhas com os pássaros. É quando, então, as aves se aproximam sem medo, como se reconhecessem ali uma rara forma de convivência: silenciosa, gratuita e gentil. Dá até para imaginar, por instantes, homens e natureza reaprendendo a confiar um no outro.

Essa percepção minha – tal atenção aos pássaros e às árvores, aos pequenos gestos cotidianos e à delicadeza da convivência com a natureza - combina profundamente com a sensibilidade poética de Manoel de Barros.

Há algo de muito “manoelino” nessa capacidade de encontrar grandeza justamente no que parece tão simples: um banco de jardim, migalhas no chão e aves se aproximando devagar, nas manhãs silenciosas à beira da praia.

 

Gratuidade das Aves e dos Lírios

 

“Sempre que as gratuidades pousam em minhas palavras,

elas são abençoadas por pássaros e lírios.

Os pássaros conduzem o homem para o azul, para as

águas, para as árvores e para o amor.

Ser escolhido por um pássaro para ser a árvore dele:

eis o orgulho de uma árvore.

Ser ferido de silêncio pelo voo dos pássaros:

eis o esplendor do silêncio.

Ser escolhido pelas garças para ser o rio delas:

eis a vaidade dos rios.

Por outro lado, o orgulho dos brejos é o de serem escolhidos

por lírios que lhes entregarão a inocência.

(Sei entrementes que a ciência faz cópia de ovelhas

Que a ciência produz seres em vidros

Louvo a ciência por seus benefícios à humanidade

Mas não concordo que a ciência não se aplique em

produzir encantamentos.)

Por que não medir, por exemplo, a extensão do

exílio das cigarras?

Por que não medir a relação de amor que os pássaros

têm com as brisas da manhã?

Por que não medir a amorosa penetração das chuvas

no dentro da terra?

Eu queria aprofundar o que não sei, como fazem os

cientistas, mas só na área dos encantamentos.

Queria que um ferrolho fechasse o meu silêncio, para

eu sentir melhor as coisas incriadas (*).

Queria poder ouvir as conchas quando elas se

desprendem da existência.

Queria descobrir por que os pássaros escolhem

a amplidão para viver enquanto os homens escolhem

ficar encerrados em suas paredes?

Sou leso em tratagem (**) com máquina; mas inventei,

Para meu gasto, um Aferidor de Encantamentos.

Queria medir os encantos que existem nas coisas sem

importância.

Eu descobri que o sol, o mar, as árvores e os arrebóis (***)

são mais enriquecidos pelos pássaros do que pelos

homens.

Eu descobri, com o meu Aferidor de Encantamentos, que

as violetas e as rosas e as acácias são mais filiadas dos

pássaros do que dos cientistas.

Porque eu entendo, desde a minha pobre percepção, que

o vencedor, no fim das contas, é aquele que atinge

o inútil dos pássaros e dos lírios do campo.

Ah, que estas palavras gratuitas possam agora servir

de abrigo para todos os pássaros do Brasil!”

 

***

 

(*) "incriadas" – que não foi criada ou que existe desde sempre. O poeta Manoel de Barros é famoso por inventar palavras, "desver" o mundo e dar novos significados às coisas.

 

(**) “tratagem” - é uma palavra formalmente dicionarizada, mas pode ter diferentes significados dependendo do contexto. O poeta usou o termo para se referir ao ato de lidar, interagir ou manusear algo. Um exemplo clássico é o verso: “Sou leso em tratagem com máquina”, significando que ele não tem jeito para lidar com máquinas.

 

(***) “arrebóis” – o termo refere-se à coloração avermelhada ou alaranjada que o céu assume ao amanhecer ou entardecer. Na visão do poeta, os arrebóis são fenômenos vivos e mágicos, comumente associados aos pássaros e à natureza pantaneira.

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