domingo, 4 de janeiro de 2026

EXPERIÊNCIAS DE QUASE-MORTE

 

O que afinal sabemos do que vem (ou não) depois? Empiricamente, nada.

  

Tom Simões, jornalista especializado em divulgação científica, Santos (Brasil), 4 de janeiro de 2026

 

O mundo está repleto de curiosidades fascinantes que podem surpreender e inspirar. Aqui está uma delas.

Há dimensões da existência que a maior parte das pessoas nunca chega a saber que existem, um nítido senso, inclusive, de que a morte é uma coisa ilusória, uma porta através da qual entramos em outro plano da existência, de que brotamos de uma eternidade à qual retornaremos.

“Se as portas da percepção se desvelassem”, especulou o poeta romântico e gravurista inglês William Blake, ‘cada coisa apareceria ao homem como é: infinita. Pois o homem se enclausurou a tal ponto que apenas consegue enxergar através das estreitas frestas de sua gruta”. O mundo é infinitamente complexo e a mente humana se nos afigura como o maior mistério do universo, ao menos para nós mesmos.  

Em seu novo livro ‘Imortalidades’ (que acabo de ler com muita curiosidade), o economista, professor e escritor Eduardo Giannetti, valendo-se de erudito repertório, tem como foco a ambição da criatura humana de transcender à transitoriedade do corpo e aos caprichos do acaso. Como buscamos projetar a nossa existência para além da nossa finitude?  O que é feito de quem se foi? E o que podem nos dizer a filosofia, a ciência e as religiões face ao doloroso enigma da morte, que da vida o nó desata? O tema central de ‘Imortalidades’ não é a morte, mas a afirmação da vida – o desejo de ser para além de si.

“Desde a mais remota ancestralidade, a consciência antecipada da morte nos assombra e aquieta. A ânsia de saber humano pede muita explicação. E, ao longo da história, as diferentes tradições filosóficas, religiosas e científicas não se furtaram a oferecer respostas”, escreve o autor.

Um dos capítulos da referida obra aborda experiências de quase-morte (EQMS), de forma lógica e sensata, como recomenda a sóbria cautela científica, com base em relatos de quem esteve no limiar da fronteira e conseguiu retornar.

“As EQMS – eventos psíquicos deflagrados por episódios de colapso das funções vitais do corpo, quando o oxigênio e o fluxo sanguíneo do cérebro se veem gravemente comprometidos por uma crise cardíaca, asfixia, choque ou acidente traumático como explosão ou queda – são o que temos de mais próximo de uma evidência empírica sobre o país ignorado”, relata Eduardo Giannetti.         

Pessoas que estiveram praticamente mortas – carentes de sinais vitais por certo lapso de tempo, foram consideradas como mortas por médicos, mas conseguiram regressar ao reino dos vivos. O que explica esse fenômeno?

Algo entre 10% e 20% das vítimas de paradas cardiorrespiratórias que sobreviveram em hospitais nos Estados Unidos ‘recordam’ ter vivenciado jornadas espirituais de alta intensidade durante o curto período em que oscilaram entre a vida e a morte. Como escreve Giannetti, “os traços mais comuns descritos por esses pacientes incluem: sentir-se livre da dor; a sensação de flutuar e deixar o corpo; o acesso a uma dimensão para além da existência comum e dos limites usuais de espaço e tempo; a visão numinosa (estado de vivência que envolve questões sobrenaturais e sagradas) de uma intensa fonte de luz; percepção de tempo alterada; e visão de 360 graus. Além disso, são frequentes os relatos de vivências de cunho pessoal como, por exemplo, ser capaz de ver e ouvir os esforços e procedimentos médicos de reanimação, o reencontro com familiares e pessoas queridas, vivos ou mortos, e a recapitulação, como em flash panorâmico, das memórias e passagens decisivas de uma vida”.  

Embora as EQMS sejam episódios de brevíssima duração, elas não só são recordadas vivamente pelos que as experienciaram, – menciona Giannetti – mas costumam produzir transformações duradouras de conduta e visão de mundo, como menor apego a bens materiais e maior tranquilidade diante da morte. Apagão ou clarão?              

Desdenhado e tratado como anedótico de início, o fenômeno das EQMS tornou-se hoje um campo de investigação científica estabelecido.

 

O que dizem os relatos dos quase-mortos?

 

Nessa obra, Eduardo Giannetti descreve alguns testemunhos, dentre milhares, que ajudam a explicitar esses fenômenos. Como este: em 8 de julho de 1918, durante a Primeira Guerra Mundial, o jovem Ernest Hemingway foi gravemente ferido pela explosão de uma granada enquanto servia como voluntário da Cruz Vermelha no front italiano; em carta à família relatando o recém-ocorrido incidente, ele escreveu: “Morrer é simples. Eu olhei a morte e realmente sei. Se tivesse morrido teria sido muito fácil para mim. Quase a coisa mais fácil que já fiz”. Anos mais tarde, em carta a um amigo, Hemingway detalhou o episódio: “Houve um daqueles estrondos que por vezes ouvimos no front. Então eu morri. Senti minha alma ou outra coisa saindo para fora do meu corpo, como quando se tira um lenço de seda do bolso por uma das pontas. Ela flutuou ao redor e veio então de volta e entrou de novo e eu não estava mais morto”.

Em diversos contos e romances, Ernest Hemingway, o autor de “As neves do Kilimanjaro” (que explora a mortalidade, o arrependimento e a condição humana) revisitou sua EQM por meio de personagens, como o protagonista de Adeus às armas: “Tentei respirar, mas o ar não veio e eu me senti precipitar corporalmente para fora de mim, cada vez mais para fora, e sempre com o corpo ao vento. Eu parti rapidamente, com tudo de mim, e sabia que estava morto e que era errado pensar que acabara de morrer. Então eu flutuei e, ao invés de seguir, senti-me deslizar de volta. Respirei e voltei”.  

 

 

Eduardo Giannetti nasceu em Belo Horizonte, em 1957. Formou-se em economia e em ciências sociais pela Universidade de São Paulo e obteve o Ph.D. na Universidade de Cambridge (Reino Unido). Professor universitário por trinta anos, é autor, entre outros livros, de Autoengano, O valor do amanhã, Trópicos utópicos e O anel de Giges. E membro efetivo da Academia Brasileira de Letras.       

“Como alguém que passou boa parte da vida mergulhado em livros (possivelmente mais do que deveria), reparo que alguns autores pressupõem o leitor ideal, enquanto outros limitam-se a sonhar com ele. Não pretendo aqui convencer ou converter ninguém a nada. Tudo que almejo com este livro é dar, a quem for lê-lo, a oportunidade de caminhar alguns passos em sua companhia. É inspirar reverência pelo que permanece – talvez irremediavelmente – para além dos nossos horizontes”, comenta o escritor.  

Ele explica que a inquietação da qual resulta Imortalidades o acompanha desde a infância: o pânico do escuro era o pânico da morte. Mas foi somente nos últimos trinta ou quarenta anos que, sem nenhuma clareza ou propósito definido de início, passou a tomar notas de leitura e esboçar vislumbres e ideias embrionárias acerca da imortalidade nos seus cadernos de estudo. “Os setenta anos se avizinham. A idade, constato, traz consigo certa liberdade de pensamento e expressão – proporciona maior distanciamento. Achei que era chegada a hora”, arremata.  

 

      ·  Veja também: http://www.tomsimoes.com/2025/09/imortalidades-genialidade-de-eduardo.html#more

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