quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

USO EXCESSIVO DO CELULAR REQUER PONDERAÇÃO

    Quanto mais o uso se integra ao cotidiano, mais difícil é reconhecê-lo como problema

 

Imagem: https://br.freepik.com/fotos/idoso-deitado/6

 

Tom Simões, jornalista especializado em divulgação científica, Santos (Brasil), 11 de fevereiro de 2026

 

Na era do celular, nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão sós. A promessa do celular era aproximar pessoas. Em parte, foi cumprida. Mas junto veio um efeito colateral silencioso: o egocentrismo digital e uma solidão disfarçada de conexão.

O uso excessivo do celular virou um tema central no Brasil e no mundo. Quando pensamos na pergunta: “O que o uso excessivo de celular pode causar?”, os efeitos se distribuem em várias dimensões.

O excesso raramente é percebido enquanto acontece. Costuma aparecer nos sintomas (comprometimento do sono, dificuldade de foco, irritabilidade, cansaço visual) antes de virar diagnóstico. O aumento das buscas por termos como ‘doenças’, ‘distúrbios’ e ‘malefícios’ ligados ao uso excessivo e desregulado do celular revela um desconforto coletivo. Trata-se de uma inquietação crescente sobre os limites que estamos ultrapassando e, também, dos efeitos que já começamos a sentir no cotidiano. Estudos sugerem que ‘a tomada de consciência dos custos’ aumenta a motivação para mudar.

Só vale a pena saber aquilo que nos transforma. Essa ideia atribuída a Sócrates, o filósofo, lembra que conhecimento não é acúmulo de informação, é formação do caráter. Para os gregos, especialmente Sócrates, aprender era um exercício de autoconhecimento: questionar crenças, reconhecer limites, cultivar virtudes como: justiça, prudência e coragem. Conhecer, portanto, era tornar-se melhor – mais consciente, mais responsável, mais humano. Num mundo hiperconectado e cheio de dados, a provocação segue atual: O que eu sei me torna mais sábio ou apenas mais informado, ou mais absoluto de mim mesmo?  

Se o que você sabe lhe torna mais rígido, mais intolerante ou mais fechado ao outro, talvez esteja se tornando apenas mais informado – ou mais preso à sua própria imagem. Se você se torna mais cuidadoso, mais silencioso em certos julgamentos e mais atento às contradições, aí sim há sabedoria em curso. 

Sabedoria é quando o saber muda o jeito de olhar, de agir e de julgar – inclusive a si mesmo. Não endurece, flexibiliza. Não fecha respostas, qualifica perguntas. Não cria certezas finais, cria responsabilidade. No fundo, o conhecimento é uma ferramenta. Ele pode construir pontes, ou muros. “A diferença está menos no que você sabe e mais no que o saber faz com você”, alguém escreveu.                      

 

Um convite à consciência

O celular não é vilão. É ferramenta. O risco está no uso inconsciente. Perguntas simples ajudam a reequilibrar: (1) Estou me conectando ou apenas me exibindo? (2) Estou conversando ou só reagindo? (3) Estou presente ou apenas disponível on-line?

Recuperar o humano na era digital talvez seja o grande desafio do nosso tempo: menos performance, mais presença; menos vitrine, mais vínculo.

Abrimos o telefone celular para “só checar uma notificação” e, quando percebemos, meia hora passou. Repetimos isso dezenas de vezes por dia. O resultado é uma rotina fragmentada, marcada por interrupções constantes e um desconforto novo: a suspeita de que estamos ultrapassando limites que o corpo e a mente não conseguem mais ignorar.

Não há evidências científicas de que a radiação emitida pelos celulares cause câncer ou outros danos graves à saúde, desde que os limites de exposição sejam respeitados. Esse tipo de radiação é do tipo não ionizante, ou seja, não tem energia suficiente para alterar o DNA humano. Os principais riscos do uso excessivo estão mais ligados a problemas de sono, atenção, má postura por tempo prolongado, redução da concentração, sedentarismo, saúde mental e até distúrbios alimentares, mais do que à radiação. Pesquisas da Universidade Federal de Lavras (UFLA) mostram que o uso compulsivo ou dependente de celulares está associado a níveis mais altos de ansiedade, depressão e outros sintomas negativos de saúde mental. A constante exposição a notificações e redes sociais gera sobrecarga cognitiva e estresse crônico. Grande parte desse processo nasce da comparação social e da insatisfação com a própria imagem.

O Brasil viveu, em 2025, o maior pico de interesse já registrado sobre os efeitos do uso excessivo de celular. Segundo a Sala Digital, parceria entre Band e Google, as buscas pelo tema aumentaram 140% nos últimos cinco anos, mais do que o dobro. Entre as perguntas mais frequentes dos brasileiros na ferramenta de pesquisa, uma se destaca de forma consistente: “O que o uso excessivo de celular pode causar?”

O Relatório Digital 2024, produzido pela agência We Are Social em parceria com a Kepios, um dos levantamentos mais completos sobre tendências e dados digitais globais, mostra que o mundo ultrapassou a marca de 5 bilhões de usuários ativos em redes sociais em janeiro de 2024, o que representa cerca de 62% da população global. Além disso, revela mudanças importantes nos hábitos digitais, como o aumento do tempo médio on-line e a intensificação da disputa entre Instagram e TikTok.

Instagram é uma rede social mais ampla e versátil, focada em fotos, vídeos curtos e longos, enquanto o TikTok é especializado em vídeos curtos, dinâmicos e altamente virais, com forte apelo entre jovens da Geração Z. Em resumo: Instagram é mais “multiformato” e usado por marcas, enquanto TikTok é mais “entretenimento rápido” e viral.

O Relatório Digital 2024 também aponta que os brasileiros passam, em média, 3 horas e 46 minutos por dia no smartphone (celular avançado que combina funções de telefonia com recursos de computador, como acesso à internet e aplicativos) — uma das maiores médias do mundo. É tempo suficiente para transformar um hábito tecnológico em um elemento central da vida social, profissional e emocional.  

 

O que a ciência já sabe

A literatura científica é clara: não existe risco único, isolado, que explique o ‘excesso’.  Trata-se de um acúmulo de efeitos que se instalam aos poucos: enquanto alguns agem de forma silenciosa, outros se manifestam de maneira rápida e perceptível.

O vício em celular na terceira idade é uma realidade crescente, frequentemente alimentada pela solidão, busca de preenchimento de tempo ou escape de angústias. Comportamentos como uso excessivo, ansiedade sem o aparelho e isolamento social podem indicar nomofobia (medo de ficar sem celular). A intervenção envolve diálogo, atividades físicas, hobbies e, em casos severos, terapia cognitiva. 

Estudos de ergonomia e ortopedia mostram que o uso prolongado em posição inclinada aumenta a carga sobre a região cervical, o que pode levar à chamada ‘síndrome do pescoço de texto’ (inclinação constante da cabeça para frente ao usar celular), quadro associado a dores, rigidez e até inflamações musculares.

Como exemplo, um idoso que fica deitado ou sentado em má postura por longos períodos realmente pode comprometer a saúde da coluna vertebral. Isso acontece porque a postura incorreta aumenta a pressão sobre os discos intervertebrais, tensiona músculos e ligamentos e pode causar dores nas costas, pescoço, ombros e mãos, ou até problemas crônicos, além de enfraquecer músculos e articulações. Esse mau hábito provoca alterações na curvatura natural da coluna, inclusive.  

Passar longos períodos imóvel reduz a movimentação, aumentando risco de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Também favorece inchaço nas pernas e pode aumentar risco de trombose. O uso excessivo de telas, especialmente à noite, atrapalha a produção de melatonina e pode causar insônia. Para oftalmologistas, o esforço contínuo da visão em telas pequenas pode gerar fadiga ocular digital, marcada pela ardência, visão turva temporária e dor ao final do dia. Portanto, é aconselhável determinar horários para usar o celular, evitando especialmente antes de dormir.

Isso não significa, segundo especialistas, que o celular ‘cause’ esses quadros, mas que amplifica vulnerabilidades já existentes e cria ciclos de hiperestimulação difíceis de romper.

Curiosamente, surpreende-me atualmente a quantidade de idosos presos aos celulares em qualquer lugar e, ao mesmo tempo, a presença considerável deles em academias de ginástica. A musculação já deixou de ser “coisa de jovem”. Faz cada vez mais sentido que muitos idosos estejam adotando musculação como parte central da rotina de saúde. Os benefícios vão além de músculos. Hoje médicos, gerontologistas e profissionais de saúde em geral não só incentivam exercícios de força para idosos como os consideram uma ferramenta terapêutica e preventiva essencial, e não apenas uma moda de academia.

É realmente um fenômeno interessante observar essas duas tendências. Por um lado, os celulares se tornaram uma espécie de extensão da vida cotidiana — não apenas para jovens, mas também para idosos, que os usam para se conectar com familiares, acompanhar notícias, pesquisar informações úteis de interesse, por exemplo, como até mesmo para passar longos períodos consumindo conteúdos insanos, infelizmente. Sem falar da proliferação de fake news gerando desinformação, confusão e desgaste da confiança social. Nesse particular da cultura digital, há muita coisa circulando rápido, pouca checagem, muito apelo emocional e quase nenhum critério. É claro que há também piadas hilárias no contexto da internet, aliadas a conteúdos produtivos. Isso cria a impressão de algumas pessoas estarem ‘presas’ ao aparelho, mas muitas vezes é também uma forma de inclusão digital e social.

O uso da internet cada vez mais comum para idosos efetuarem pagamentos bancários pode trazer autonomia e praticidade, desde que sejam acompanhados de orientação e cuidados com a segurança.

Por outro lado, o aumento desse público em academias reflete uma mudança cultural: envelhecer já não significa se afastar da atividade física. Há uma busca maior por qualidade de vida, prevenção de doenças e manutenção da independência funcional. Academias perceberam esse contingente e passaram a oferecer treinos adaptados, aulas de baixo impacto e até grupos sociais que tornam o exercício mais atraente.

Se pensarmos bem, essas duas imagens — idosos conectados ao celular e idosos levantando pesos ou fazendo alongamentos — mostram como o envelhecimento hoje é bem mais ativo e diverso do que há algumas décadas.

 

Riscos mentais e sociais

A hiperconectividade define a era atual de acesso constante à internet, redes sociais e dispositivos, trazendo oportunidades de agilidade, mas gerando desafios severos à saúde mental. As redes sociais transformaram o celular num ‘espelho permanente’. Curtidas, visualizações, seguidores – tudo gira em torno de ‘como eu apareço’. Isso incentiva uma lógica sutil: ‘eu existo na medida em que sou visto’. Aos poucos, o outro deixa de ser alguém com quem me relaciono e passa a ser plateia. O problema não é o ‘eu’, mas o ‘excesso de eu’. Quando tudo vira autopromoção, sobra pouco espaço para a escuta, empatia e presença real.

Conversamos o dia inteiro, mas muitas vezes sem utilidade ou profundidade. Emojis substituem silêncio compartilhado, áudios substituem encontros, reações substituem diálogo. O celular cria a sensação de companhia constante, mas não supre necessidades humanas básicas: olhar, toque, tempo, atenção plena. Resultado? Pessoas hiperconectadas e emocionalmente carentes. Essas pessoas estão quase sempre on-line: celular na mão, notificações piscando, múltiplas abas abertas, redes sociais, mensagens, notícias, vídeos. Tudo é visto rapidamente e ao mesmo tempo, mas raramente digerido ou refletido.

Nunca foi tão fácil comparar vidas – e nunca foi tão difícil se sentir suficiente. O feed (fluxo contínuo e atualizado de conteúdo – posts, fotos, vídeos ou artigos), comum em redes sociais como Instagram, Facebook e sites, serve para consumo rápido de informações, novidades de pessoas seguidas ou destaques de uma marca, funcionando como um mural de conteúdos permanentes.

O fluxo contínuo e atualizado de conteúdos (feed) mostra sucesso, felicidade e corpos perfeitos, enquanto a vida real segue imperfeita. Essa comparação contínua alimenta ansiedade, sensação de inadequação e isolamento interior. A SOLIDÃO MODERNA NÃO É ESTAR SEM PESSOAS, É ESTAR SEM VÍNCULO. O RISCO MAIOR: PERDER A CAPACIDADE DE ESTAR COM O OUTRO.

Talvez o perigo mais profundo não seja a solidão em si, mas a atrofia da convivência. Ficar desconfortável com o silêncio, evitar conversar difíceis, preferir a tela ao encontro. Sem perceber, desaprendemos a estar presente.  

Dependência digital não é apenas hábito: é comparável a dependências comportamentais, como jogos de azar. Ela envolve mecanismos neurobiológicos ligados à dopamina. A longo prazo, pode comprometer relações sociais, desempenho profissional ou acadêmico e saúde integral. Especialistas recomendam monitorar sinais de dependência (como irritabilidade sem o celular ou dificuldade em reduzir o uso) e buscar apoio profissional se necessário. Evidências mostram que bloquear interrupções externas aumenta foco e produtividade.

Tem gente fazendo terapia por conta de dependência de celular. Sim, isso já está acontecendo. A chamada ‘nomofobia’ é o medo irracional de ficar sem o celular ou de não ter acesso à internet. Essa condição pode causar sintomas como ansiedade e estresse quando a pessoa estiver longe do telefone ou sem conexão.

A nomofobia e a dependência digital são questões cada vez mais discutidas em psicologia. Muitas pessoas procuram terapia porque sentem que o uso excessivo do celular está afetando: relacionamentos pessoais (dificuldade de estar presente em conversas ou momentos familiares); produtividade (checar notificações constantemente atrapalha foco e trabalho; saúde mental (ansiedade, insônia e sensação de vazio ao estar longe do aparelho); e bem-estar físico.

Na terapia, os profissionais costumam trabalhar estratégias como: estabelecer limites de tempo de uso; criar rotinas sem celular (por exemplo, não usar na hora de refeições ou antes de dormir); explorar as causas emocionais que levam ao uso compulsivo; substituir parte do tempo on-line por atividades prazerosas off-line (ou seja, com o aparelho desligado ou temporariamente inativo).

Curiosamente, em alguns países já existem até clínicas especializadas em desintoxicação digital, direcionadas a quem sente que perdeu o controle.

 

Redução do diálogo em casa

Eis um ponto bem relevante. O uso excessivo do celular dentro de casa pode realmente reduzir a qualidade das interações familiares. Em vez de conversas espontâneas na sala ou durante as refeições, não raramente cada pessoa fica imersa em sua própria tela. Isso gera alguns efeitos: menos troca de experiências do dia a dia; isolamento dentro do lar – cada membro da família se fecha em seu ‘mundo digital’; perda de momentos saudáveis coletivos – refeições, brincadeiras ou até pequenas conversas acabam substituídas por tempo no celular; dificuldade de atenção plena – mesmo quando há conversa, interrupções constantes por notificações diminuem a profundidade da interação. Famílias que adotam pequenas regras de ‘desconexão’ descobrem uma melhora significativa na convivência.

Se o celular substitui interações presenciais, o isolamento social pode aumentar a solidão e sensação de desconexão. A dependência digital pode virar vício, dificultando o equilíbrio com outras atividades. Enquanto a falta de estímulos variados (leitura, conversas, hobbies) podem acelerar perda de memória e funções cognitivas. E olha só: o excesso de notícias negativas ou redes sociais pode aumentar preocupações e afetar o humor.

Para reduzir riscos, importa também alternar períodos de uso do celular com caminhadas leves, alongamentos ou outras atividades prazerosas habituais fora da tela: jardinagem, encontro com amigos, academia de ginástica, cinema, cursos etc.

Jogos (palavras cruzadas, sudoku e outros) também distraem produtivamente, sem virar tarefa chata. Os jogos ativam vários sistemas do cérebro ao mesmo tempo. A memória se beneficia com isso. Jogos despertam curiosidade, desafio, frustração, vitória. Quando há emoção, o cérebro libera dopamina e noradrenalina (que aumenta o estado de alerta, o foco e a atenção. Ela prepara o cérebro para reagir e, ao mesmo tempo, marca aquela informação como algo que não deve ser esquecido) - que facilitam a consolidação da memória. Diferente de só ouvir ou ler, nos jogos a gente toma decisões, erra e corrige, testando estratégias. A memória precisa de repetição, mas não de repetição chata. Mesmo sendo ‘só um jogo’, cria-se uma narrativa com objetivo claro, progresso visível e recompensa.

A propósito, antigamente, atividades como arrumar gavetas e armários, por exemplo, cumpriam várias funções ao mesmo tempo: organizar o espaço externo e ter uma sensação concreta de utilidade, ajudando a organizar também o ‘espaço interno’ (pensamentos, emoções). Sim, e isso pode explicar como a mente precisa de ocupação com sentido, não apenas de estímulo. Que saudade de dona Assunção, minha mãe; com ela, eu e minhas irmãs aprendemos muito sobre organização doméstica.

Era um tipo de ocupação manual, repetitiva e silenciosa, quase meditativa. Sem perceber, muita gente regulava a ansiedade assim. Hoje, o celular tomou esse lugar. Mas há uma diferença crucial: arrumar um armário acalma, enquanto rolar a tela excita. Enquanto a arrumação envolve foco contínuo, previsibilidade e fechamento de ciclos (‘comecei e terminei’), o celular fragmenta a atenção e mantém o cérebro em estado de alerta constante – sempre esperando a próxima novidade.   

Talvez o ponto não seja idealizar o passado, mas recuperar algo dele: fazer coisas com as mãos, lidar com o concreto e aceitar o tédio leve que precede a criatividade. Trocar um pouco de tela por tarefas simples pode parecer banal, mas é profundamente regulador. Às vezes, não é falta de tempo, é falta de ritmo humano.

Para mitigar os efeitos negativos do uso excessivo de celulares, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e especialistas recomendam: usar fones de ouvido em chamadas longas para reduzir a proximidade do aparelho com a cabeça; criar períodos sem o uso de dispositivos, especialmente antes de dormir; desativar notificações não essenciais; e estabelecer horários específicos para verificar mensagens e redes sociais.

É importante refletir sobre a ansiedade e perda de produtividade com o impacto d0 uso obsessivo desse aparelho. Práticas de atenção plena ajudam a perceber impulsos antes de agir, fortalecendo o autocontrole. Um exemplo: substituir o ato de checar redes sociais por atividades como respiração profunda concentrada, alongamento e/ou meditação. Isso reduz a associação automática entre tédio e celular.

A meditação realmente nos ensina a cultivar presença e contentamento sem depender de estímulos externos — e o celular é talvez o maior símbolo dessa busca constante por distração. A gente aprende a se bastar com a meditação. Quando você se senta em silêncio, percebe que não precisa preencher cada instante com notificações ou redes sociais; há um bem-estar manifesto em simplesmente observar a respiração ou os pensamentos passando. Digo isto por experiência própria, após o café da manhã. Logo após a meditação, ainda dedico um tempo para ouvir uma ou outra música clássica. Trata-se do momento diário de autoencontro. Cada pessoa tem seu próprio tempo para amadurecer e se encontrar. “Maturidade é saber o que já não nos serve mais”, alguém escreveu.

Há pessoas que até usam a meditação como uma forma de ‘desintoxicação digital’: reservar momentos do dia para estar longe das telas. É quase como treinar o cérebro para se sentir completo sem precisar de reforços imediatos.

 

Uso produtivo da tecnologia

Sim, certamente há pessoas que usam o celular com certa frequência, mas com intenção, critério e propósito – não por compulsão vazia. Esse tipo de uso costuma ter algumas marcas claras: (1) consumo ativo de conhecimento: leem artigos, assistem a aulas, acompanham pesquisas, podcasts e livros digitais, por exemplo. Podcast é um conteúdo digital em áudio (ou vídeo) sob demanda, parecido com rádio, mas com a flexibilidade de ser ouvido a qualquer hora, em qualquer lugar, no celular ou computador, abordando variados temas como notícias, educação e entretenimento, destinados a informar, educar, entreter ou construir comunidades. (2) curadoria pessoal: filtram fontes, comparam informações, checam credibilidade. (3) compartilhamento com sentido: não repassam qualquer coisa – COMPARTILHAM O QUE PODE AJUDAR, PROVOCAR REFLEXÃO OU INFORMAR MELHOR OS OUTROS. (4) uso instrumental da tecnologia: O CELULAR É FERRAMENTA, NÃO MULETA EMOCIONAL.

O ponto-chave não é o tempo de tela, mas a qualidade da atenção. Duas pessoas podem passar horas no celular – uma sai esgotada e vazia; a outra sai informada, inspirada e mais consciente.

 

Mensagens repetitivas diárias

Mensagens repetitivas não são só ‘falta de noção’, mas uma forma de buscar vínculo ou aliviar ansiedade. Tal comportamento sem critério algum (como enviar saudações diárias, correntes religiosas, ‘bom dia com flor e versículo’), mesmo sabendo que às vezes incomoda, pode significar: (1) busca de pertencimento: para algumas pessoas (muito comum em idosos, mas não só), o celular vira o principal elo social. Mandar mensagens é uma forma de dizer “eu estou aqui, existo, faço parte”. A reação do outro – mesmo em silêncio – já confirma presença. (2) moralização do bem: no caso das correntes religiosas, há quem realmente acredite estar ‘fazendo o bem’, abençoando ou até salvando o outro. Quando isso vira insistência, a fé deixa de ser partilha e vira imposição. (3) ansiedade e vazio: o envio compulsivo de mensagens pode funcionar como um ritual: reduz angústia, preenche o tempo, organiza o dia. O problema é que o alívio é momentâneo, e precisa ser repetido. (4) poder sutil: existe também um componente menos inocente: ocupar inutilmente o espaço do outro, interromper, obrigar a atenção. É uma forma suave de controle: “eu apareço quando quero”. (5) analfabetismo digital-emocional: nem todo mundo entende que ‘silêncio é resposta’, que intimidade não é automática, ou que excesso cansa. Falta leitura emocional do ambiente – algo muito típico da era do celular.

E qual é o efeito disso tudo? O resultado costuma ser o oposto do desejado: irritação, afastamento, bloqueios silenciosos e relações desgastadas.  O “bom dia” constante, quando imposto, vira ruído. A fé, quando repetida como corrente, vira spam. No fundo, isso diz mais sobre solidão, medo de irrelevância e dificuldade de estar consigo do que sobre espiritualidade ou gentileza.

 

Imagem: https://www.tecmundo.com.br/ciencia/274905-usar-celular-atrapalha-o-treino-descubra.htm 

 

A concentração durante a atividade física não é frescura nem papo de atleta profissional – é parte essencial do exercício. Quando o corpo se move, a mente precisa estar junto. Na academia, aquela cena comum de pessoas na esteira ou levantando peso sem desgrudar do celular parece inofensiva, mas tem vários efeitos negativos: (1) corpo presente, mente ausente – o exercício funciona melhor quando há conexão mente-músculo. Prestar atenção na respiração, no ritmo, na postura e na execução do movimento melhora o recrutamento muscular, a eficiência e os resultados do treino. QUANDO A ATENÇÃO ESTÁ NO CELULAR, O MOVIMENTO VIRA AUTOMÁTICO – E MENOS EFICAZ. (2) mais risco de lesões (postura errada, sobrecarga mal distribuída e movimentos mal executados). Um segundo de desatenção pode virar dor crônica ou lesão séria.

É O FAMOSO TEMPO GASTO SEM PRESENÇA REAL. Menos qualidade, mais tempo perdido. Exercício também é treino mental. Atividade física é um raro momento com foco, silêncio interno e autorregulação emocional.

Usar o celular o tempo todo rouba esse benefício. O treino vira só mais um ruído no meio do excesso de estímulos do dia. Não é demonizar o celular. Claro: ouvir música ou cronometrar séries podem ajudar. O problema é o uso compulsivo – redes sociais, mensagens, vídeos – que quebram o fluxo do corpo. Em resumo: treinar com atenção é treinar com respeito ao próprio corpo. Menos tela, mais presença. Menos distração, mais consciência.

 

Uso de celulares entre crianças e adolescentes

Essa é uma preocupação constante. As diretrizes da Organização Mundial da Saúde visam promover um equilíbrio saudável entre o uso da tecnologia e atividades físicas, além de incentivar interações sociais no mundo real. É fundamental que pais e cuidadores estejam cientes dos riscos associados e adotem práticas que promovam o bem-estar das crianças e jovens. Lembrando que adultos que controlam o uso do celular inspiram seus filhos.

Uma das orientações da OMS é que crianças de até cinco anos não passem mais de 60 minutos por dia em atividades passivas diante de telas. Além disso, bebês com menos de 12 meses não devem ser expostos a dispositivos eletrônicos. As orientações visam incentivar atividades físicas e interações no mundo real, como leitura e passatempos educativos, em vez de tempo de tela.

Embora a tecnologia traga muitos benefícios, como o acesso à informação e à educação digital, o uso excessivo de telas pode causar vários impactos negativos na saúde das crianças. Os profissionais de saúde se preocupam com as consequências que o assunto tem gerado no desenvolvimento dos pequenos.
A pediatra Loren Nobre do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), lotada no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), destaca que o uso excessivo de telas (telefones, tablets e televisão) pode afetar negativamente o desenvolvimento físico, social e emocional das crianças. Por isso, é fundamental incentivar a redução do tempo de tela e promover atividades educativas, que estimulam a criatividade, o aprendizado e o bem-estar.

Segundo a especialista, o desenvolvimento motor também fica prejudicado, já que a interação com telas pode reduzir o tempo dedicado a atividades construtivas ao ar livre, prejudicando o desenvolvimento motor e a saúde física infantil. Também há impactos no desenvolvimento social e emocional, pois o uso excessivo de tecnologia pode afastar as crianças de interações sociais reais, o que prejudica o desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais essenciais.

Em resumo: o celular pode ampliar o conhecimento, o entretenimento e os vínculos. Porém, quando o uso se torna excessivo e substitui o movimento e a convivência, surgem prejuízos. O equilíbrio entre tempo de tela, atividade física, interação social e descanso é fundamental para a saúde

 

             ·         Fontes Consultadas:

https://www.agenciabrasilia.df.gov.br/w/especialista-alerta-sobre-danos-que-o-uso-excessivo-de-telas-pode-causar-nas-criancas, 02/05/2025 

https://www.band.com.br/noticias/celular-uso-excessivo-202511241541, 24/11/2025

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