sábado, 29 de agosto de 2026

O PROJETO DA CIVILIZAÇÃO NÃO ESTÁ MAIS DANDO CERTO

 

Da crise da velha civilização ao despertar de uma nova consciência


Tom Simões, humanista, jornalista e divulgador científico, Santos (Brasil), 29 de agosto de 2026     

 

Karen Armstrong, escritora e historiadora britânica, fala das Eras Axiais, períodos em que grandes mudanças aconteceram em diferentes partes do mundo. Eram épocas em que pessoas que não se encontraram chegaram a pensar de forma semelhante. A época do nascimento do Buda foi uma Era Axial fundamental, como cita o livro A Reinvenção do Ser, que leio atualmente.

Se tudo está predeterminado, qual é a minha liberdade de escolha? De quais causas, condições e efeitos não podemos escapar? O próprio “eu” pode se manifestar em uma existência além desta? Como a memória genética se conecta à lei do carma?

O cientista Marcelo Gleiser e a monja Coen analisam a relação entre espiritualidade e ciência, explorando como esses campos se complementam e quais perguntas devemos deixar para o mistério. Se estamos interligados ao grande esquema do universo, a autonomia do livre-arbítrio pode ser a causa de nosso sofrimento espiritual. O processo de iluminação seria, então, uma busca por retornar a essa conectividade coletiva — à natureza.

“Talvez nós estejamos agora em uma era axial. Toda essa tecnologia, essa nossa capacidade de perceber o que não percebíamos antes. É como tudo no mundo. Desenvolvemos a tecnologia, mas ainda não sabemos utilizá-la de forma adequada. No princípio, somos como as crianças que ganharam um brinquedo novo. A excitação é tanta com esse brinquedo que acabamos fazendo um monte de bobagens, até que a gente vai aprender a usar de forma adequada, benéfica para nós”, admite a monja Coen.

Ela acredita na capacidade de adaptação do DNA humano e que, para nossa sobrevivência, teremos de mudar a maneira de ser, estar e pensar no mundo. Se não mudarmos, poderemos perecer como espécie, e a espécie não quer desaparecer. Da mesma forma, o novo coronavírus não queria morrer, sofreu mutações e se espalhou. Nossa espécie humana também não quer desaparecer do planeta. E somos mais que uma proteína: somos um organismo vivo. E vamos criar condições para sobreviver.

As novas gerações, por exemplo, parecem chegar diferentes, com uma preocupação ambiental e de sustentabilidade, e uma preocupação maior com o coletivo. “Pelo menos eu vejo isso à minha volta. Vejo uma mudança. Não querem mais ser apenas pessoas de sucesso, ricas, com posses. Aliás, elas se questionam até mesmo se devem ter carro ou não. Estão surgindo novos meios de transporte que não precisam dos poluentes. As mudanças estão acontecendo. Não são tão rápidas quanto gostaríamos, mas estão acontecendo. E não podemos deixá-las parar, então o que fazemos é estimular as pessoas nessa direção”, explica a monja.

 

Ela ilustra muito bem essa esperança:

 

“Ao mesmo tempo, não posso julgar e condenar aqueles cujas mentes não se abriram ainda. É como se fôssemos pegar flores, por exemplo. Algumas já desabrocharam, outras já estão até morrendo, murchando, e outras ainda são um botãozinho. Não posso chegar para esse botãozinho e dizer ‘Abra! Você não está desabrochando’ e dar uma bronca nele. Preciso, sim, criar causas e condições para que todos que ainda não despertaram possam enfim despertar. E isso exige acolhida, inclusão, compreensão, afeto, sabedoria, compaixão.”

Ao compreender, transmitimos afeto, não raiva e rancor, e somos capazes de ajudar no processo de expansão de consciência que ainda não aconteceu. Uma expansão gradual, contínua e sólida.

Quando há uma expansão muito rápida, porém, experiências psicodélicas podem provocar desorganização psíquica em algumas pessoas. Acontecia, por exemplo, com pessoas que tomavam LSD sem orientação adequada e algumas tinham experiências extremamente perturbadoras, as chamadas bad trips. Algumas podiam se assustar profundamente com aquilo que vivenciavam. Pode ocorrer uma expansão de consciência forte e rápida, mas, se a identidade de um “eu” não estiver bem estruturada, a pessoa pode se perder dentro dos processos maravilhosos e estranhos da mente humana. Alguns se questionavam: “E agora? Onde é que estou? Quem sou eu?”

Precisamos do processo de expansão da consciência não para uma pessoa ou duas, mas para toda a humanidade. Temos um longo caminho pela frente. E, com a tecnologia, isso pode se acelerar. Vai acelerar... aceleração de partículas, não? Está acelerando.

“Essa luz está chegando, como uma aurora, que vem antes de o sol nascer. E essa aurora, essa luz, vai nutrir essas flores e ajudá-las a desabrochar”, reconhece Marcelo Gleiser.

Essa é a missão: espalhar essa luz pelo mundo. Talvez venha mais lentamente do que precisamos, mas isso vai se alastrar, vai “acelerar”, como diz o cientista.

Para ele, já podemos ver uma mudança de paradigma emergindo aos poucos: as pessoas se preocupando mais com o que comem, os alimentos orgânicos mais acessíveis, as energias mais limpas e renováveis sendo usadas, mais carros elétricos e híbridos nas ruas. A energia que nutre a civilização não precisa mais vir das entranhas da Terra, como veio com o petróleo, o carvão e o gás natural. Agora vem do céu — do Sol e dos ventos.

Essa nova maneira de pensar sobre a natureza e sobre o nosso lugar nela poderá ser o combustível para esse novo despertar, para esse novo renascer da humanidade. Ao menos essa é a visão que o cientista Gleiser compartilha conosco e que acredita ser um caminho viável para nosso futuro coletivo.

“Os indígenas falam muito que ‘as árvores são o povo de pé’. São quem faz a ligação entre a terra e o céu. E o ser humano é bípede. Nós também fazemos essa conexão: com os pés na terra, mas a cabeça no céu. É a história da transcendência na imanência. Nós temos essa capacidade, que agora precisa ser estimulada”, observa a monja Coen.

A “imanência” refere-se àquilo que está contido e se realiza no próprio mundo físico, enquanto a “transcendência” aponta para aquilo que ultrapassa essa realidade e remete a uma dimensão que vai além do imediatamente material.

A premissa de qualquer organismo vivo é sobreviver. Quando a espécie humana, como organismo vivo, perceber o perigo que está representando para sua própria sobrevivência, a única escapatória será se reinventar como espécie.

Essa é uma transformação em nível moral. A tecnologia, já temos. O que falta é essa virada de cabeça, de mentalidade: entender visceralmente que somos parte de uma cadeia de vida muito maior do que nós e que precisamos dela para sobreviver.

 

O que aconteceu com a Era Axial e por que ela é importante?

 

O conceito de Era Axial, criado pelo filósofo alemão Karl Jaspers, descreve um período da história humana em que várias civilizações desenvolveram, quase simultaneamente e de forma independente, ideias filosóficas e religiosas que transformaram profundamente as maneiras de compreender a ética, a sociedade e o significado da existência.

A Era Axial situa-se aproximadamente entre 800 e 200 a.C., segundo Jaspers. Foi uma época em que, em diferentes regiões do mundo, surgiram grandes transformações no pensamento humano: Confúcio e Lao-Tsé na China, Buda na Índia, os profetas de Israel e os filósofos gregos, entre outros.

Jesus nasceu por volta de 4 a 6 a.C., portanto depois do período axial propriamente dito. Mas seu pensamento pode ser entendido como continuação e aprofundamento de algumas das transformações espirituais iniciadas naquela época, especialmente a valorização da consciência individual, da ética, da compaixão, da justiça e da responsabilidade moral.

A ideia de Jaspers é que esse período funcionou como um “eixo” da história, porque muitas das formas de pensar que ainda influenciam o mundo surgiram ou se consolidaram naquela época.

Segundo esse filósofo, foi nesse período que a humanidade passou a refletir de maneira mais sistemática sobre princípios universais de moralidade, a condição humana, o papel do indivíduo e a busca da verdade por meio da razão ou da espiritualidade.

Em diferentes regiões do mundo, surgiram pensadores e tradições que enfatizavam questões como o sentido da vida, a ética, a moral, a justiça, a natureza da realidade e a responsabilidade individual. Grande parte das religiões e filosofias que ainda moldam sociedades atuais tem raízes nesse período.

A Era Axial pode ser vista como um momento em que a humanidade começou a deslocar o centro da existência do poder exterior para a transformação interior. Jesus levou essa transformação a uma dimensão radical, colocando o amor, a compaixão e a consciência no centro da vida humana.

Essas transformações lançaram bases para diferentes concepções de uma sociedade orientada por valores éticos, consciência individual e responsabilidade coletiva.

Talvez possamos reconhecer, em nosso próprio tempo, sinais de uma nova transformação: não necessariamente uma nova Era Axial no sentido histórico proposto por Jaspers, mas um possível despertar da consciência humana em escala planetária.

 

Uma “nova sociedade” em formação

 

Imagem: Pixabay

 

Nossa capacidade de despertar precisa ser exercitada, provocada. Quando é estimulada, ela se manifesta. Não precisamos correr tanto atrás dela; precisamos, sobretudo, educá-la.

Começamos educando os pequenos. Como essa sensibilização de não arrancar a flor do galho, orienta a monja:

“Olha como ela está bonita ali no galho! Para que você vai cortá-la? Por que você vai matar o bichinho, se você pode brincar com ele, tê-lo como seu animal de estimação?”

É outra relação com a vida. Nós tivemos isso na infância. E, de certa forma, fomos podados: “Cuidado! É perigoso! Vai machucar, pode se ferir”. E ficamos um pouco assustados com a natureza e com a nossa própria vida.

A transformação da sociedade não acontece apenas por grandes acontecimentos políticos ou tecnológicos, mas também por mudanças silenciosas nos valores, nos hábitos e na educação das novas gerações.

Uma “nova sociedade” em formação já é perceptível em vários sinais do cotidiano.  

Na educação e na comunicação, a questão ambiental deixou de ser apenas assunto de especialistas e passou a fazer parte do cotidiano escolar e jornalístico, favorecida pela crescente popularização da ciência: reciclagem, preservação da água, biodiversidade, mudanças climáticas, consumo consciente e responsabilidade com o planeta.  

Nas relações raciais, embora o racismo ainda exista e esteja longe de ser superado, há uma mudança cultural visível. Pessoas negras ocupam cada vez mais espaços de protagonismo na televisão, no cinema, na publicidade, na política, na universidade e em profissões antes pouco acessíveis. A representação começa a refletir melhor a diversidade real da sociedade.

No comportamento das crianças, também aparecem sinais interessantes. Muitas são educadas desde cedo para respeitar diferenças, cuidar dos animais, preservar o ambiente, ouvir o outro e praticar pequenas formas de gentileza.

Uma criança que espontaneamente diz “muito obrigado”, pede licença, respeita uma pessoa idosa ou demonstra preocupação com alguém pode estar revelando algo maior: uma mudança cultural que começa nos pequenos gestos.

E há outros sinais dessa transformação: maior valorização da saúde mental e do bem-estar; questionamento de preconceitos; maior aceitação da diversidade sexual, hoje visível na presença cada vez mais natural de casais homossexuais que caminham de mãos dadas pelas ruas, algo que, em outras épocas, poderia provocar estranhamento ou até repressão; preocupação crescente com os animais; maior participação feminina em espaços antes predominantemente masculinos; atenção à sustentabilidade; e uma percepção cada vez mais clara de que progresso não pode significar apenas produzir e consumir mais.

A nova sociedade não chegará de repente. Ela já está nascendo diante de nossos olhos — nas escolas, nas famílias, na linguagem, na publicidade, nas relações humanas e, sobretudo, na formação das novas gerações.

Talvez aí esteja a ligação mais profunda com a Era Axial: assim como aquele período representou uma grande mudança nas formas de compreender a existência, nosso tempo pode estar inaugurando uma nova virada civilizatória, agora em escala planetária.

Não necessariamente uma nova Era Axial no sentido histórico proposto por Jaspers, mas um possível despertar da consciência humana para a interdependência entre pessoas, culturas, outras espécies e o próprio planeta.

Assim como a chamada Era Axial correspondeu a uma profunda transformação nas formas de pensar a existência humana, nosso tempo parece anunciar um novo salto civilizatório: uma mudança na maneira de compreender a nós mesmos, aos outros e ao mundo que habitamos.

Por uma humanidade mais consciente...

 

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