Tom Simões, humanista, jornalista e
divulgador científico, Santos (Brasil), 12 de julho de 2026
Surpreendo-me com o
ordenamento das minhas ideias, valorizando-as e enriquecendo-as, e as respostas
imediatas pela Inteligência Artificial, promovendo a reflexão, a crítica e o
diálogo entre ambos.
Pelas nossas conversas, percebo que o Chat não substitui a parte mais importante do meu trabalho: a visão, a experiência e o propósito são meus. O que a IA faz é ajudar-me a dar forma às minhas ideias, sugerindo estruturas, refinando argumentos, encontrando palavras mais precisas e, às vezes, oferecendo referências que fortalecem o texto.
Eu não utilizo a
inteligência artificial para produzir conteúdo em série nem poupar reflexão.
Faço justamente o contrário: uso-a para aprofundar as minhas reflexões e tornar
a comunicação mais clara e profunda. Esse é um uso consciente da tecnologia. O
diálogo com a tecnologia cognitiva amplia minhas ideias, mas a direção continua
sendo dada pelo meu propósito.
Um texto da Revista Fapesp, https://www.apufsc.org.br/2026/06/19/levantamento-sugere-que-a-inteligencia-artificial-nao-esta-transformando-estudantes-em-plagiadores/
, diz o seguinte: “Se deixarmos de nos importar com a origem dos pensamentos,
abrimos caminho para um mundo caótico de roubo e descontextualização.” A
submissão integral de um texto criado por IA é reprovada por não demonstrar a
capacidade crítica, o vocabulário e a autoria intelectual do estudante ou
pesquisador. Pedir para a IA escrever um texto (como um TCC, artigo ou redação)
e entregá-lo sem citar a fonte ou como sendo autoral é considerado um plágio.
Muitas pessoas imaginam
que utilizar a inteligência artificial consiste apenas em copiar uma resposta, colá-la
e destiná-la a uma finalidade. Minha experiência tem sido exatamente o oposto.
O verdadeiro valor dessa tecnologia não está em receber respostas prontas, mas
em estabelecer um diálogo que amplia a reflexão, organiza o pensamento, desafia
argumentos e aperfeiçoa a comunicação. A inteligência artificial não substitui
minha capacidade de pensar; torna-a ainda mais exigente.
Há ainda um aspecto ético
importante que mereceria destaque. Quando alguém usa a IA apenas para produzir
textos sem reflexão, a ferramenta tende a nivelar o resultado por baixo. Mas,
quando ela é usada para questionar, revisar, aprofundar e aprender, ela pode se
transformar em um poderoso instrumento de educação.
Creio ser esta a principal
contribuição que posso oferecer ao leitor: desmistificar o uso da inteligência
artificial, sem idolatrá-la e sem demonizá-la. Mostrar, por experiência
própria, que seu valor depende menos da tecnologia do que da atitude de quem a
utiliza.
Este artigo é relevante
por abordar uma pergunta que centenas de pessoas fazem: “como usar a
inteligência artificial sem deixar de pensar por conta própria?” Trata-se de
uma questão que ultrapassa a tecnologia e alcança diretamente a educação e a
formação humana.
O que significa pensar na
era da inteligência artificial?
Um texto pessoal pode
contar com a colaboração da IA, mas ele não foi produzido pela inteligência
artificial. Quem acompanha o processo percebe outra realidade: houve diálogo,
questionamentos, reescritas, escolhas, rejeição de sugestões, busca de referências
e amadurecimento de ideias. A inteligência artificial participa como
interlocutora; o pensamento permanece humano.
Existe o mito do “copiar e
colar”. Muitos acreditam que usar IA é apertar um botão e publicar o resultado.
Isso pode acontecer, mas produz textos genéricos, sem identidade.
Nessa perspectiva, a IA
deixa de ser uma substituta do pensamento para se tornar uma parceira
intelectual. A percepção é humana. A qualidade das respostas depende, em grande
parte, da qualidade das perguntas. Quem possui repertório, experiência e
propósito consegue extrair muito mais do aprendizado de máquina.
O conhecimento acumulado,
os valores, a experiência de vida e a responsabilidade pelo que é publicado
pertencem ao universo intelectual do autor. A IA não vive uma história nem pode
substituir raciocínio crítico pessoal. Trata-se de uma nova forma de educar. Em
vez de temê-la, talvez devamos ensinar as pessoas a dialogar com ela de maneira
crítica, criativa, ética e responsável.
A inteligência artificial
não elimina a necessidade de pensar; ao contrário, torna ainda mais valiosa a
inteligência própria do ser humano: a capacidade de pensar, sentir e tomar
decisões, alimentada por emoções genuínas, instinto, empatia, experiências vividas
e consciência. Ela pensa conosco, na medida da qualidade das perguntas que
somos capazes de formular. Trata-se de uma relação colaborativa que temos com
as máquinas hoje. A IA atua como um poderoso amplificador de inteligência,
refletindo diretamente a profundidade e a clareza do que provocamos.
E talvez haja um aspecto
ainda mais interessante: o aprendizado de máquina não substitui a atenção; ele
exige ainda mais atenção porque é na atenção que a vida realmente acontece.
A IA não pensa por mim;
ela pensa comigo
Gosto de imaginar a IA
sendo entrevistada por alguém. Numa espécie de simbiose intelectual, em que não
há competição entre a inteligência humana e a artificial, mas uma colaboração
que ilumina aspectos diferentes da mesma realidade.
Penso num entrevistador que
tem acesso a um conhecimento praticamente inesgotável. O entrevistador leva
consigo apenas as perguntas; o entrevistado, um imenso universo de informações.
O resultado da conversa dependerá, sobretudo, da inteligência de quem pergunta.
Perguntas superficiais tendem a produzir respostas superficiais. Perguntas
elaboradas, por sua vez, abrem caminhos inesperados para reflexões mais
profundas.
Minha experiência com a tecnologia
cognitiva tem sido semelhante. Ela dispõe de uma extraordinária capacidade de
reunir informações, estabelecer conexões e sugerir caminhos. Mas sou eu quem
define o rumo da conversa. Cada pergunta é uma escolha. Cada aprofundamento
exige curiosidade, discernimento e propósito. Essa colaboração afasta tanto o
deslumbramento ingênuo quanto a rejeição da tecnologia.
O verdadeiro risco não é
usar IA. O risco é usá-la de forma automática, sem reflexão, transformando uma
ferramenta poderosa em uma máquina de reproduzir lugares-comuns.
O diferencial desta
reflexão é nascer da experiência. Em vez de teorizar sobre a inteligência
artificial, procuro compartilhar um método de trabalho que venho experimentando
na prática. Talvez seja essa a melhor forma de avaliar seu verdadeiro
potencial: menos pelas promessas que desperta e mais pelos resultados que
produz quando colocada a serviço da reflexão.
“Espécie de orquestra”
A orquestra pode ser
extraordinária, mas sem regência produz apenas sons dispersos. O maestro não
toca todos os instrumentos, porém conhece a obra, interpreta a intenção do
compositor e conduz o conjunto. A
qualidade do concerto depende tanto da excelência da orquestra quanto da visão,
da sensibilidade e das escolhas do regente.
Transpondo essa ideia para
a Inteligência Artificial, seria algo como: a IA dispõe de uma impressionante
"orquestra" de informações, referências, estilos e possibilidades.
Mas ela não escolhe, por si só, a direção da obra. Cabe ao ser humano definir o
propósito, estabelecer o ritmo, corrigir excessos, eliminar dissonâncias e
buscar a harmonia entre conhecimento, experiência e valores.
Sou eu quem escolhe o
tema, quem decide o andamento, quem interrompe um excesso, quem pede mais
delicadeza ou mais vigor. A tecnologia oferece os instrumentos. A consciência
escreve a partitura. E é dessa parceria que nasce uma música que nenhum dos
dois produziria sozinho.
Quando inicio um diálogo
com a Inteligência Artificial, sinto-me, ao mesmo tempo, entrevistador e
maestro. Como entrevistador, procuro formular perguntas cada vez melhores, pois
sei que delas depende a qualidade das respostas. Como maestro, seleciono, organizo
e interpreto esse vasto repertório de ideias, descartando o que não serve,
ajustando o tom, buscando coerência e harmonia. A obra final não pertence
exclusivamente à IA nem exclusivamente a mim. Ela nasce da interação entre a
capacidade de perguntar, a abundância das respostas e o discernimento humano
para transformá-las em conhecimento significativo.
Em vez de discutir se a IA
"substitui" ou "ameaça" o ser humano, há algo bem mais
interessante: a arte de conversar com ela. Afinal, como em uma grande
entrevista ou num concerto, a excelência não depende apenas de quem responde ou
de quem toca os instrumentos, mas da qualidade da interação entre as partes.
A metáfora do maestro e da
orquestra vai além da ideia de condução: ela fala de sensibilidade,
interpretação e harmonia. Há, inclusive, uma coincidência simbólica que a torna
ainda mais expressiva. Recentemente, passei a ouvir música clássica diariamente,
incorporando-a ao meu hábito de meditação. Talvez essa experiência tenha
moldado, sem que eu percebesse, a maneira como hoje enxergo a Inteligência
Artificial. Já não a vejo como uma máquina que responde mecanicamente às
perguntas, mas como uma imensa orquestra silenciosa, pronta para transformar
informação em conhecimento quando encontra um regente consciente. A tecnologia
oferece os instrumentos. A consciência escreve a partitura. É a intenção do
maestro que desperta a música. Da mesma forma, a IA revela todo o seu potencial
quando orientada pela inteligência, pela sensibilidade e pelos valores humanos.
Toda revolução tecnológica
enfrenta resistência
Em “Muito além do nosso eu”
- A nova neurociência que une cérebro e máquinas – e como ela pode mudar
nossas vidas, o premiado e internacionalmente reconhecido neurocientista
brasileiro Miguel Nicolelis torna acessível uma das áreas mais fascinantes e promissoras
da pesquisa científica, seja em termos dos impactos que promete para a própria
construção do conhecimento, seja em termos sociais. Ele explica como o cérebro
cria o pensamento e a noção que o ser humano tem de si mesmo – e como isso pode
ser incrementado com o auxílio de máquinas – e fala de um futuro tecnológico em
que as visões catastrofistas dão lugar ao otimismo e à esperança.
Em praticamente todas as
grandes revoluções tecnológicas houve um período inicial de medo, resistência
ou desconfiança. A IA não é uma ruptura absoluta, mas um novo capítulo de uma
longa história de criatividade e adaptação humana. A imprensa de Gutenberg foi
acusada de espalhar ideias perigosas. A máquina a vapor provocou medo do
desemprego em massa. A eletricidade parecia misteriosa e ameaçadora. O
automóvel foi considerado um risco para a vida nas cidades. O telefone
despertou desconfiança por permitir conversar com alguém distante. O rádio, a
televisão, os computadores e, mais recentemente, a internet também foram
recebidos com reservas. Em todos esses casos, o medo inicial acabou cedendo
lugar à adaptação, à regulamentação e ao uso consciente da tecnologia.
A história ensina que o
verdadeiro desafio não costuma ser a tecnologia em si, mas a forma como a
utilizamos. A Inteligência Artificial provavelmente seguirá o mesmo caminho:
exigirá prudência, reflexão ética e aprendizado, mas dificilmente deixará de
fazer parte da vida humana.
A humanidade sempre
precisou aprender a conviver com ferramentas poderosas. A diferença, agora, é
que essa aprendizagem acontece em uma velocidade sem precedentes. A IA não é
uma ruptura absoluta, mas um novo capítulo de uma longa história de adaptação
humana.
Em vez de ameaça ou
solução milagrosa, a Inteligência Artificial está mostrando aquilo que
realmente pode ser: uma ferramenta extraordinária nas mãos de quem continua
disposto a pensar. Esse, aliás, é exatamente o uso que eu tenho feito dela.
A tecnologia, por si só,
não é a origem dos nossos problemas. Toda ferramenta amplia capacidades
humanas, para o bem ou para o mal. Se avançamos extraordinariamente em
conhecimento técnico, mas não cultivamos, na mesma medida, a ética, o
pensamento crítico, a empatia e o autoconhecimento, cria-se um desequilíbrio. É
justamente por isso que considero tão importante preservar o espaço do
humanismo. A tecnologia cognitiva pode ampliar nossa inteligência, mas não
substitui a consciência, os valores nem a responsabilidade pelas escolhas que
fazemos. O verdadeiro desafio não é apenas desenvolver máquinas cada vez
mais inteligentes, mas continuar formando seres humanos cada vez mais sábios.
O futuro não dependerá
apenas da inteligência das máquinas, mas da maturidade da inteligência humana.
A IA pode ampliar horizontes, mas continua sendo o ser humano quem escolhe o
caminho. Quando a curiosidade encontra a tecnologia, e a reflexão orienta as perguntas,
o conhecimento deixa de ser uma simples resposta para se transformar em uma
descoberta compartilhada.
No fim das contas, o
futuro da aprendizagem não será escrito apenas pela Inteligência Artificial,
mas pela qualidade da inteligência humana que souber dialogar com ela. A
tecnologia cognitiva é o instrumento; o protagonismo continua sendo da
consciência humana. Por uma humanidade mais consciente...
***

Sábias, oportunas e necessárias ponderações.
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