terça-feira, 9 de junho de 2026

A CRISE CLIMÁTICA NÃO ESPERA

 

Ondas de calor, secas e enchentes revelam que a crise climática já faz parte do presente

 

Clique aqui para assistir à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=HkKhpENdQYk

 

Tom Simões, jornalista e divulgador científico, Santos (Brasil), 9 de junho de 2026

 

Com linguagem clara e acessível, Paulo Artaxo traduz o conhecimento científico para o público sem perder o rigor científico. As mudanças climáticas correspondem a transformações de longo prazo nos padrões de temperatura e clima da Terra. Embora possam ocorrer por causas naturais, como variações no ciclo solar, desde o século XIX as atividades humanas passaram a ser o principal fator responsável por essas alterações, especialmente devido à queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural. A combustão desses recursos libera gases de efeito estufa que se acumulam na atmosfera e retêm parte do calor irradiado pela superfície terrestre, intensificando o aquecimento global.

O programa Roda Viva, da TV Cultura, apresentado pelo jornalista Ernesto Paglia, recebeu, em 1º de junho, o físico e professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), para uma entrevista sobre a crise climática e seus impactos. Diretor do Centro de Estudos da Amazônia Sustentável da USP, Artaxo é um dos mais reconhecidos especialistas brasileiros em mudanças climáticas. Sua produção acadêmica reúne mais de 400 artigos científicos e contribuições relevantes para os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU).

Entre os temas abordados estiveram os impactos das mudanças climáticas, as vulnerabilidades e oportunidades estratégicas do Brasil, o próximo episódio de El Niño, o ponto de não retorno da Amazônia e a resiliência das cidades diante dos eventos extremos. El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera os padrões de circulação atmosférica e influencia o clima em diversas regiões do planeta. Entre seus efeitos mais comuns estão o aumento das temperaturas globais, secas em determinadas áreas, chuvas intensas e enchentes em outras, além de impactos sobre a agricultura, os recursos hídricos e os ecossistemas. Trata-se de um fenômeno natural que ocorre de forma irregular, geralmente a cada dois a sete anos, podendo durar de alguns meses a mais de um ano.

Para onde estamos levando o clima do planeta? O alerta da ciência já chegou. A natureza cobra a conta por meio da multiplicação dos eventos extremos, evidenciando a necessidade de ações ambientais efetivas. Da elevação do nível dos oceanos às secas prolongadas, os impactos do aquecimento global tornam-se cada vez mais visíveis. Ignorar as evidências científicas já não é uma opção.

Nascido em São Paulo, Paulo Artaxo graduou-se, fez mestrado e doutorado em Física pela USP. Em sua trajetória acadêmica, realizou pesquisas de pós-doutorado na NASA, na Universidade de Harvard, na Universidade de Antuérpia, na Bélgica, e nos Institutos Max Planck, na Alemanha, entre outras instituições de prestígio internacional. Filho de um escrivão e de uma dona de casa, demonstrou interesse pela ciência desde a infância. Trabalhou inicialmente como office-boy no cartório onde seu pai atuava e, posteriormente, como observador meteorológico no Mirante de Santana, na capital paulista, coletando e registrando dados utilizados pelos centros de previsão do tempo.   

Em síntese, Paulo Artaxo tornou-se uma das vozes científicas mais influentes do Brasil na compreensão das mudanças climáticas e na defesa do papel estratégico da Amazônia para o equilíbrio ambiental do planeta. Seus estudos e análises vêm ganhando crescente destaque no debate público.

 

ALERTA GLOBAL

 

O aquecimento global está diretamente relacionado às atividades humanas, como demonstram décadas de pesquisas científicas. Mais recentemente, o planeta ingressou no que muitos cientistas denominam ‘Antropoceno’, termo proposto por cientistas para descrever uma nova época geológica não oficial, na qual a humanidade se tornou a principal força capaz de alterar o clima, o solo, os oceanos e a biodiversidade do planeta. A atividade humana transformou o próprio sistema global.

 “A grande questão é para onde estamos levando o clima do nosso planeta”, observa Artaxo. Segundo o pesquisador, o aumento médio global da temperatura já alcança cerca de 1,15°C. Nas áreas continentais, esse valor pode ser ainda maior, contribuindo para processos de desertificação em regiões do sul de Portugal e da Espanha, para o derretimento das calotas polares e para a elevação e o aquecimento das águas oceânicas, com consequências severas para a biodiversidade terrestre e marinha.

Para Artaxo, a ciência tem cumprido seu papel ao alertar sobre os riscos climáticos, mas as respostas políticas ainda avançam em ritmo insuficiente diante da gravidade do problema. O resultado é a intensificação dos eventos extremos e o aumento da vulnerabilidade das populações. “A ciência está fazendo seu papel de alertar, mas somos só cientistas; podemos aconselhar os governos, mas não podemos fazer políticas públicas”, afirma.

A ciência não impede a ocorrência de fenômenos naturais nem elimina os impactos das ações humanas sobre o meio ambiente. Contudo, oferece conhecimento e evidências que permitem antecipar riscos, reduzir danos e orientar decisões mais responsáveis. No caso das mudanças climáticas, décadas de pesquisas possibilitam planejar adaptações e desenvolver estratégias capazes de minimizar seus efeitos. Ignorar a ciência significa agir sem considerar informações essenciais para enfrentar desafios já conhecidos. Por isso, os estudos científicos constituem instrumentos indispensáveis para a formulação de políticas públicas eficazes.

Uma das ideias centrais defendidas por Paulo Artaxo é que a crise climática deixou de ser uma ameaça futura. Seus efeitos já estão presentes no cotidiano e exigem ações urgentes de governos, empresas e da sociedade para reduzir emissões de gases de efeito estufa e proteger ecossistemas fundamentais, como a Amazônia.

 

POLÍTICAS PÚBLICAS: A IMPORTÂNCIA DO VOTO

 

Para Artaxo, é necessário restabelecer a conexão entre a sociedade, o sistema socioeconômico e os recursos naturais que sustentam a vida. Somente por meio de ações coordenadas entre governos, empresas e cidadãos será possível construir um modelo de desenvolvimento sustentável.

Em 5 de junho celebra-se o Dia Mundial do Meio Ambiente. Instituída pela ONU em 1972, a data busca estimular a reflexão sobre a preservação ambiental e os desafios enfrentados pelo planeta. Mais de cinco décadas depois, os avanços ainda estão aquém do necessário. Artaxo lamenta que a preservação ambiental continue sem ocupar posição prioritária em muitos governos e alerta que o Brasil ainda não está adequadamente preparado para enfrentar o aumento da intensidade e da frequência dos eventos climáticos extremos.

“Com as atuais taxas de emissões de gases de efeito estufa, observamos uma trajetória que pode levar o planeta a um aquecimento médio global de 2,8°C. No caso do Brasil, devido à sua localização tropical e às suas dimensões continentais, esse aumento poderá chegar a algo entre 3,5°C e 4°C. Isso poderá afetar significativamente cidades como Teresina, Palmas, Cuiabá, Manaus e Belém, além de grande parte do Nordeste brasileiro”, comenta o cientista. Para ele, os impactos não serão apenas ambientais. O aquecimento também poderá comprometer a produtividade do agronegócio, afetar setores econômicos estratégicos e exigir uma profunda revisão das políticas de desenvolvimento do país nas próximas décadas.

Apesar do reconhecimento internacional alcançado por suas pesquisas, Artaxo gostaria de ver o conhecimento científico transformado em ações concretas. No caso do Brasil, defende duas medidas prioritárias: eliminar o desmatamento da Amazônia e acelerar a transição para uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis. A proteção ambiental não se constrói apenas por meio de discursos. Leis, fiscalização, planejamento e investimentos dependem de decisões tomadas pelos representantes eleitos.

Nesse contexto, o voto assume papel fundamental. As escolhas feitas nas urnas influenciam diretamente a capacidade de um país formular políticas públicas capazes de conciliar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e qualidade de vida para a população. Mais do que escolher governantes, votar significa definir prioridades coletivas. Em uma democracia, cabe aos eleitores avaliar quais propostas oferecem respostas consistentes aos desafios ambientais e sociais do presente e do futuro.

A mensagem central de Paulo Artaxo é clara: a crise climática já está em curso e seus efeitos são visíveis em todas as regiões do planeta. A ciência fornece os instrumentos para compreender os riscos e apontar caminhos. Transformar esse conhecimento em ação, porém, depende das escolhas da sociedade e da vontade política de seus representantes. Preservar o meio ambiente deixou de ser apenas uma questão ecológica; tornou-se uma decisão sobre o futuro comum da humanidade.

 

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           ·         Outras referências:


https://www.jornaldaciencia.org.br/emergencia-climatica-exige-mudanca-do-modelo-socioeconomico-diz-paulo-artaxo/

 

https://brasil.un.org/pt-br/175180-o-que-s%C3%A3o-mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas

 

https://habitability.com.br/aquecimento-global-nao-estamos-em-ebulicao-diz-cientista-paulo-artaxo/?fbclid=IwY2xjawSVXshleHRuA2FlbQIxMABicmlkETF3ZXU2QmRyMUJsc1lza3VLc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHhgLJpQZL6Y9K8Vv7dee8Pxg9tx_o9n_CiTE_TZXIUYyUTgcoBfGs3pzgVVf_aem_6wB99DydGlaFeJUunGm99A

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