terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Eike Batista: entre a riqueza e a humilhação. Uma reflexão!

Eu imagino acompanhar essa etapa da vida do empresário... Curioso como estou, sobre o que acontece com a mente do indivíduo numa circunstância como essa! Por mais discutível que seja o seu caráter.

Tom Simões, jornalista, tomsimoes@hotmail.com, Santos (São Paulo, Brasil), fevereiro 2017 




QUE ME PERDOEM os revoltados, eternos insatisfeitos. Eu apreciaria que esses ‘negativistas de plantão’ parassem de esbravejar! Há algo circulando na rede social que diz assim: “Se você quer chamar a atenção, faça algo para ser admirado. Com o excesso de queixas, inconformismos, você se torna apenas um chato”. Eu reforçaria: um ‘chato de galocha’. É claro que a mídia divulga comentários produtivos, reveladores, cujos autores são especialistas das áreas que abordam; há também pessoas esclarecidas que se manifestam. Em ambas as opiniões, mostra-se uma visão contundente dos acontecimentos, que se diferencia pelo saber e pela reflexão. Os chatos insuportáveis, de quem a gente não vê a hora de sair de perto, acham-se costumeiramente superiores em seus comentários vazios, movidos por um rancor desmedido.

Há na obra ‘Conhecimento da liberdade’, de autoria de Tarthang Tulku, uma passagem que diz: “Podemos nos colocar à parte da sociedade e criticar seu lado negativo, sem estarmos dispostos a contribuir com qualquer energia positiva para mudar a situação. Afinal de contas, não se pode mudar nada – as coisas sempre foram assim. Por que eu deveria perder o meu tempo com isto?”. 


“Autoconhecimento significa conhecer a nossa limitação de momento a momento. Assim, uma mente que não percebe a sua própria limitação nunca pode experimentar a verdade. O que é ignorância não pode unir-se com a sabedoria. Cessem a ignorância que a sabedoria surgirá. A sabedoria não é acumulação, que dá continuidade; a sabedoria é compreensão do problema, compreensão completa. A cada instante percebemos o falso e percebemos o verdadeiro. Mas perceber o falso como falso e o verdadeiro como verdadeiro é dificílimo; requer muita clareza de percebimento. E para ver o verdadeiro no falso é necessário agilidade da mente, uma mente que não esteja presa por nenhum vínculo, por limitação nenhuma”, relata Jiddu Krishnamurti, 1895-1986, filósofo, escritor e educador indiano, em sua obra ‘Da insatisfação à felicidade’ (http://pensarcompulsivo.blogspot.com.br/2013/10/como-transcender-mente-e-experimentar.html).

Há em ‘Flor do Dia’, escrito pelo filósofo paulista Sri Prem Baba, algo com o que me identifico: “Quando eu olho para uma pessoa, não vejo se é homem ou mulher, muito menos penso sobre qual é o seu partido político ou a sua religião. O que eu vejo são almas. E observo se estão abertas para receber as sementes de amor. Tenho tentado plantar sementes de amor em todos, inclusive nos políticos, não importa de qual partido. Eu não me preocupo com partidos, me preocupo em encontrar caminhos para melhorar a vida das pessoas. Meu intento é acordar os valores necessários em todos os seres humanos”, escreve o filósofo.

Para ele, “A injustiça cresce quando a compaixão se esvazia. Na sua origem, as crises que estamos vivendo no país e no mundo são espirituais. Elas são um reflexo do desvio do ‘dharma’, o propósito maior. Para um país se alinhar com o seu ‘dharma’ é inevitável que o sistema político se alinhe também. E para que o sistema político se alinhe, a população precisa se alinhar também, porque o sistema político é um reflexo da população. Portanto, para o país se alinhar, precisamos primeiro nos alinhar, pois o externo é um reflexo do interno.”

A prisão de Eike Batista, 60, sem nenhuma regalia, é, assim, um prato cheio para os maledicentes, com seus discursos repetidos e sua zombaria, alheios ao discurso sensato, capaz de gerar a informação produtiva. O empresário é natural de Governador Valadares, Minas Gerais.

“O ser humano tem a tendência a enxergar nos outros aquilo que existe em abundância em seu íntimo, por isso pessoas de bom coração não veem a maldade ou a fartura de defeitos e sordidez que os maledicentes sempre encontram. Infelizmente o mundo não é cor-de-rosa e precisamos ter a consciência de que nem todos falam apenas a verdade sobre os outros, pois, muitas vezes, distorcem os fatos ao seu bel-prazer” (algo aqui oportuno, citado em http://www.vidarealdasam.com.br/2012/07/a-maledicencia.html). Segundo ainda o link, temos o péssimo hábito de não questionar o que ouvimos ou lemos. A gente lida com pessoas que criam sua própria realidade e, por mais que tentemos lhes explicar que aquilo não existe ou está errado, não adianta, continuam cegas para qualquer argumento.

Em nenhuma das outras prisões de personalidades envolvidas com a corrupção no Brasil, inspirei-me a escrever sobre a possível ‘humilhação’ por que tenham passado os envolvidos, levados algemados por policiais e sendo manchete dos principais veículos de comunicação do país. Na verdade, a ideia desse tipo de ‘humilhação’ passou sim pela minha cabeça, mas parou por ali. 

“Sempre vejo um raio de luz na noite mais escura. E por mais escura que a noite possa estar, há sempre uma possibilidade de o amanhecer estar bem próximo”, observa Osho, filósofo indiano, em seu livro ‘Poder, Política e Mudança’.

Qual o significado da palavra ‘humilhação’? Segundo o dicionário, é literalmente o ato de ser tornado humilde, ou diminuído de posição ou prestígio. Tem muito em comum com a emoção da vergonha. A humilhação não é uma experiência agradável, visto que costuma diminuir a autoestima da pessoa que a sofre.

Creio eu, ser ‘humilhação’ a palavra mais forte para representar uma figura antes “ilustre” sendo algemada por um policial. Por mais sem caráter que seja o indivíduo, não há como ele não se sentir humilhado, como que sozinho no fim do mundo. Daí, a imagem deles, com a cabeça baixa, de vergonha.

O caso de Eike Batista leva-me a esta reflexão, a partir da entrevista que li, de Felipe Santana, correspondente em Nova York da TV Globo, no dia 31/01/2017, com o empresário no aeroporto e, a seu lado, no avião (http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/reporter-conta-como-foi-acompanhar-eike-batista-na-volta-ao-brasil.ghtml).

“O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito”, escreve Émile Zola, 1840-1902, escritor francês e um dos principais representantes do naturalismo literário. É dele também: “A verdade marcha e nada conseguirá detê-la”. Agora é a vez de Anatole France, 1844-1924, escritor, poeta e crítico francês, cujas obras apresentam um conteúdo cético: “Muito aprendeu quem bem conheceu o sofrimento”.


O jornalista voou com ele até o Rio de Janeiro


Dizem que “há mais a unir-nos do que pensamos”. “Num momento como este que estamos vivendo, no qual a mente coletiva está vibrando no medo e no ódio, no qual há muita confusão e conflito, é natural que essas vibrações também passem pelo seu corpo. E quando isso acontece, um link entre o processo coletivo e o seu processo pessoal ocorre sem que você possa compreender e elaborar. Então, tudo fica muito confuso, e você é tomado por sentimentos negativos. Por isso eu tenho insistido tanto na prática da auto-observação. Para transmutar o sofrimento, seja ele oriundo da esfera coletiva ou da esfera pessoal, há que se ter uma base sólida de estabilidade mental, que somente a auto-observação é capaz de construir”, ensina Sri Prem Baba.

Ao se aprofundar na prática da auto-observação, prossegue o filósofo, muitas vezes você percebe que a sua tensão é pelo fato de estar brigando internamente com alguém. “Você está sempre defendendo algum ponto de vista e criando estratégias para ser aceito por esse alguém. Você está obstinadamente tentando atingir algum objetivo. O seu corpo está aqui, mas a sua mente está nesse outro lugar, onde não existe paz nem descanso. Isso é o inferno.”

Eike Batista, que era considerado foragido, voltou dos EUA e se entregou à Polícia Federal. O empresário indicou que vai colaborar com a operação da Lava Jato. Ele é suspeito de ter pago US$ 16,5 milhões em propina ao ex-governador Sérgio Cabral. O recolhimento de Eike a um presídio mostra um quadro que merece ampla reflexão, como revela Uriel Villas Boas, um leitor da Folha de S. Paulo. Em 2012, Eike era o sétimo homem mais rico do mundo, com estimados US$ 30 bilhões.

Como revela outro leitor do citado veículo, José de Anchieta Nobre de Almeida, advogado, “Apesar de toda a gravidade de nossa grande crise, estamos dando um exemplo ao mundo de como combater e enfrentar a corrupção endêmica. As prisões de lideranças políticas e de empresários, até agora efetuadas dentro dos princípios legais, estão sendo vistas como uma salutar recuperação da moralidade pública no Brasil. A curto e médio prazos, certamente isso terá efeitos benéficos em nossa economia interna, bem como na externa, o que permitirá nossa inserção positiva na atual geopolítica mundial”.

“No sábado (28 de janeiro), veio a informação de que uma passagem Nova York - Rio de Janeiro havia sido comprada no nome do empresário. Parecia ser a oportunidade final de conversar com o homem que já foi o mais rico do Brasil e tinha sua prisão decretada por suspeita de estar envolvido no esquema de corrupção do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral”, conta o correspondente Felipe Santana.

Durante a conversa, ainda na área de desembarque, várias outras pessoas se aproximaram para demonstrar solidariedade, prossegue o correspondente. “O único comentário de desaprovação foi o que foi ao ar nos telejornais. Um garoto passou e disparou: ‘Vai tomar catuaba selvagem com teu colega Cabral?’, se referindo a Sérgio Cabral, preso desde novembro, e a quem Eike teria pago propina. Eike foi plácido e sempre muito respeitoso. Só se negou a comentar o que julgou poder complicar sua situação com a polícia. Mas não decepcionou ao lançar a frase que seria o título de várias matérias durante o dia: “Está na hora de ajudar a passar as coisas a limpo". Dependendo de quem a ouvisse, poderia soar como um recado, uma ameaça ou até uma declaração de impacto do mais midiático empresário brasileiro. Foi a hora de ele começar a se portar como um mártir. Como se desse sua liberdade em sacrifício – para a mudança de uma cultura do empreendedorismo no país. Insinuou que para fazer negócio no país é preciso pagar propina e elogiou a atuação do Ministério Público.

 “Na hora do embarque, uma situação cômica, que quase inspira piedade. O homem que já foi o sétimo mais rico do mundo disputa, em leves movimentos de cotovelo, o primeiro lugar na fila de embarque. E, quando entra, senta bem ao lado da porta. Desde a hora em que senta, mexe no celular freneticamente. Roda as conversas do WhatsApp e apaga alguns arquivos antigos. Mas não está conectado à internet depois que o avião decola. Negou bebida, jantar. Tomou um comprimido que parecia um calmante, mas que ele disse tratar-se de uma pastilha para o estômago. Tomou dois grandes copos de leite puro e dormiu pela última vez livre – ainda que confinado num avião. Estávamos nas alturas. Eike ainda poderia sonhar com a época em que o Brasil era a bola da vez dos investidores internacionais. Época em que o país foi capa da revista inglesa ‘The Economist’ com o Cristo decolando. Época em que Eike era o símbolo do Brasil que parecia ter finalmente encontrado o futuro. Quem queria investir no Brasil procurava pelas empresas X de Eike. Vendeu muito. E também muito gato por lebre. Construiu um patrimônio pueril, de sonho e megalomania”, alinhava Felipe.

Até que ele acordou muito mais abatido do que quando foi dormir. O jornalista perguntou-lhe o que se passava em sua cabeça, mas nunca quis compartilhar um sentimento. Sob nossos pés estava a Rio de Janeiro com sua Baía de Guanabara ainda imunda e favelas tomadas pela violência. “No auge de sua carreira, Eike se colocou como benfeitor da cidade, deu dinheiro para a instalação e manutenção das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e prometeu que ajudaria no saneamento da cidade”, menciona Felipe.

Foi então que o avião pousou, e um comissário, sem alarde, chegou perto de Eike. “Logo levantou. Na porta, um policial federal. E a porta do avião se fechou de novo. Lá dentro, todos em silêncio. Olhavam-se como se estivessem todos constrangidos. E o jornalista nem teve tempo de responder à pergunta que ele lhe fez: “Você tá nesse voo só por causa de mim?”.       
 

Poder, Política e Mudança


Na visão de Osho, os tempos de desastre o tornam consciente da realidade como ela é. “A vida é sempre frágil; todos estão sempre em perigo. Em tempos normais você ‘dorme’ profundamente e por isso não o percebe. Continua sonhando, imaginando belas coisas para os próximos dias, para o futuro. Mas, nos momentos em que o perigo é iminente, então de repente você toma consciência de que pode não haver futuro, não haver amanhã, e que este é o único momento que você tem. Então, os tempos de desastre são muito reveladores – eles não trazem nada de novo ao mundo; eles simplesmente o tornam consciente do mundo como ele é. Eles acordam você. Se você não entender isso, pode enlouquecer; se entender, pode despertar”.

Para esse filósofo indiano, as pessoas são totalmente inconscientes de que podem fazer qualquer coisa para manter o seu poder, a sua respeitabilidade – mesmo que isso signifique explodir o mundo todo. “Podem arriscar qualquer coisa para salvar o seu ego. E essas são as pessoas que naturalmente atingem as posições de poder, porque são os únicos buscadores do poder. Nenhuma pessoa criativa, inteligente, busca poder. Nenhuma pessoa inteligente está interessada em dominar os outros. Seu principal interesse é conhecer a si mesma. Por isso, as pessoas com a mais alta qualidade de inteligência buscam o misticismo e as mais medíocres buscam o poder. Esse poder pode ser material, político; pode vir do dinheiro, pode vir de manter dominação espiritual sobre milhões de pessoas, mas a compulsão básica é dominar cada vez um número maior de pessoas”.

Você diz que os políticos estão explorando e enganando as pessoas, reflete o filósofo. “Mas às vezes parece que você está falando sobre eles como se fossem uma raça diferente vinda do espaço sideral para nos dominar. Meu entendimento, por outro lado, é que esses políticos saem do meio de nós; nós somos totalmente responsáveis pelo que fazem, e nos queixarmos deles seria como nos queixarmos de nós mesmos. Não há um político oculto entre nós? Os políticos certamente não vêm do espaço sideral; eles se desenvolvem entre nós. Também temos a mesma cobiça de poder, a mesma ambição de ser mais santo que os outros. Eles são as pessoas mais bem-sucedidas no que se refere a ambições e desejos. Certamente nós somos responsáveis, mas é um círculo vicioso; não somos os únicos responsáveis. Como os sacerdotes, os políticos continuam condicionando as novas gerações às mesmas ambições; eles constroem a sociedade, cultivam a mente das pessoas e seu condicionamento. Eles são também responsáveis – e são mais responsáveis do que as pessoas comuns, porque as pessoas comuns são vítimas de todos os tipos de programas que estão sendo impostos a elas”.
Vá até qualquer sede do parlamento e observe os políticos, sugere Osho. “Todos os políticos que estão no poder, e todos os políticos que não estão no poder – eles são todos iguais. Aqueles que estão no poder parecem ser reacionários porque chegaram ao poder e agora querem protegê-lo. Agora querem mantê-lo em suas mãos; assim, parecem ser o ‘establishment’. Aqueles que não estão no poder falam em revolução porque querem derrubar aqueles que estão no poder. Quando chegarem ao poder vão se tornar reacionários, e as pessoas que estiveram no poder antes, mas que foram expulsas do poder, vão se tornar os revolucionários. Um revolucionário bem-sucedido é um revolucionário morto, e um governante expulso do seu poder torna-se um revolucionário. E eles continuam enganando as pessoas. Quer você escolha aqueles que estão o poder, quer escolha aqueles que não estão no poder, não estará escolhendo pessoas diferentes. Elas têm rótulos diferentes, mas não há a menor diferença entre elas.”
A pessoa realmente religiosa não pode se interessar por política, avalia Osho. “E o político, permanecendo um político, não pode ter nenhuma experiência religiosa, nenhuma amostra desse voo para o desconhecido. Mas eu nunca disse que não há esperança de um mundo melhor. É verdade que o político não pode se tornar religioso – pela simples razão de que a política, toda política, a política como tal, é política de poder. É o desejo de poder. A pessoa quer dominar, quer possuir, quer ser o fator decisivo na vida das pessoas. Essas são qualidades do ego. É óbvio que esse tipo de pessoa não pode ser religiosa, porque a verdadeira religião é basicamente a experiência de ausência de ego. O homem religioso não pode ser interessado em política pela simples razão de que ele não tem um lugar para alcançar – ele já alcançou. Ele já está onde o político está tentando alcançar e nunca alcança – ele não pode alcançar por causa da própria natureza das coisas.”
O filósofo então finaliza, refletindo: “O político não pode ser religioso porque a verdadeira religião significa entendimento, consciência, silêncio, harmonia e um profundo fluir com a existência, uma sensação de estar em paz com tudo o que existe. Não há o desejo de ser outra pessoa, não há o desejo de estar em nenhum outro lugar, não há o desejo do amanhã. Tudo é preenchido neste momento. O político não pode se permitir isso”.  
“E por que falar tanto em política e políticos? Porque no Brasil, assim como no mundo, o poder dos políticos está muito ligado ao poder dos empresários. É sempre um poder egóico, desviado do ideal de ser ferramenta para construir socialmente o Bem. Fartamente combinado à corrupção, não se mantém sem ser realimentado por mais desvios e desmandos, e cedo ou tarde não se sustenta e desmorona. Será mesmo chegada a hora de políticos e empresários desmoronarem?”, expressa Roberto da Graça Lopes, meu especial amigo.
Eike Batista
Como pode se sentir uma pessoa que abandona involuntariamente uma vida nababesca para viver numa penitenciária... Ela tem duas opções: deixar-se levar pelo sentimento da tragédia ou buscar um novo propósito para a sua vida. Poder-se-ia perguntar: terão esses homens a capacidade de refletir mais profundamente sobre o mal que causaram à sociedade, ou serão capazes de continuar maquinando ainda, iludidos, saídas para escapar da prisão? Haveria algum interessado em descrever a condição humana desses criminosos políticos em suas celas? Existe abertura na penitenciária para um estudo dessa natureza, realizado por um psicólogo, jornalista ou outro profissional? Daí eu imaginar-me descrevendo essa triste realidade.
“Mas esse cara é bandido. Ele tem mesmo é que se f...”, gritam os falsos moralistas. Eles pregam a moral e os bons costumes, porém no dia a dia não praticam a moral que defendem ou julgam correta. Quem não convive com pessoas que adoram essas pequenas facilidades, filhotinhas da corrupção? O famoso e imoral ‘jeitinho brasileiro’ para favorecer a si própria?
A questão sociológica que o ‘jeitinho’ apresenta, porém, é outra, explica em entrevista o antropólogo Roberto DaMatta, nascido em 1936 (https://maniadehistoria.wordpress.com/o-jeitinho-brasileiro/).  “Ela mostra uma relação ruim com a lei geral, com a norma desenhada para todos os cidadãos, com o pressuposto que essa regra universal produz legalidade e cidadania! Eu pago meus impostos integralmente e por isso posso exigir dos funcionários públicos do meu país. Tenho o direito — como cidadão — de tomar conta da Biblioteca Nacional, que também é minha. Agora, se eu dou um jeito nos meus impostos porque o delegado da Receita Federal é meu amigo ou parente e faz a tal ‘vista grossa’, aí temos o ‘jeitinho’ virando corrupção. A essas alturas, temos outra questão básica”.
“É possível que os brasileiros, pouco a pouco, como vem acontecendo nas manifestações, comecem a tomar consciência, cada vez com mais força, de que melhor do que o ‘jeitinho’ seria poder atuar como cidadãos com plenos direitos e deveres numa sociedade em que a lei funcione para todos”, enuncia Juan Arias, jornalista e escritor espanhol, nascido em 1932 (http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/30/opinion/1388424661_871576.html).
Analisando a detenção de Eike Batista, independentemente da questão da justiça, seria apropriado enxergar também o fato sob o ângulo do que o empresário passa a representar como um possível destino para a corrupção do país.

O que estará passando na mente de Eike Batista? A ideia da finitude da nobreza? Terá ele a capacidade de enveredar para um lado mais existencial, questionando os próprios fundamentos da sua vida, e buscar um novo sentido? Certamente, Eike experimentará o isolamento de um tempo indefinível, insatisfação com o próprio resultado da sua vida, privação de sono, sentimento de solidão e angústia, a precária condição da sua vida numa cela do espaço prisional, enfim, uma experiência extremamente dolorosa. E então fatalmente poderá perguntar: “Para que serve tanto dinheiro?”.  
“O melhor também é possível, mas só é possível se você tiver vivido em sintonia com a vida, com a existência, sem pedir favorecimentos. E estamos sempre pedindo favorecimentos. Se não estivéssemos não haveria frustração, não haveria raiva”, escreve Osho.
A propósito, ‘feliz’ do detento que aprecia a leitura, algo que deve ser raro no espaço prisional. Mas consegue-se ler num presídio?... Talvez nas condições em que estão os envolvidos na corrupção política, sim. O livro pode se tornar um companheiro desejável.
Veja o que diz Deepak Chopra, 1947, médico indiano radicado nos EUA, em “O Livro dos Segredos’: “No final de uma boa leitura, você emerge como uma pessoa modificada, com percepções completamente alteradas. Trata-se de um conhecimento com o qual você se transforma e não aquele que você aprende passivamente. O que realmente divide as pessoas é manter fechadas as portas da percepção, ou a falta de consciência”.   
É possível que, com a leitura, o sofrimento do detento possa ser amenizado de alguma forma. Para o médico indiano, “Em vez de se apoiar em uma consciência tão limitada, você pode se abrir a possibilidades mais amplas. Mudar do antigo sistema para o novo envolve um processo com o qual cada um de nós precisa se comprometer todos os dias. A boa notícia é que nenhum aspecto da vida é imune à transformação. Cada mudança que você fizer, por menor que seja, será transmitida através da experiência; o Universo inteiro estará literalmente bisbilhotando sua vida e oferecendo-lhe apoio. A partir do ponto de vista do Universo, a formação de uma galáxia não é mais importante do que a evolução de uma única pessoa”.
Outro ponto destacado por Deepak Chopra é: “Uma coisa sabemos com certeza: o anseio secreto que consome a alma das pessoas não tem nenhuma relação com coisas externas, como dinheiro, status e segurança. É a pessoa interior que deseja ardentemente encontrar significado na vida, o final do sofrimento e as respostas para os enigmas do amor, da morte, de Deus, da alma, do bem e do mal. Uma vida passada na superfície nunca responderá a essas perguntas nem satisfará as necessidades que nos levam a fazê-las”.

“Fortalecidos por nossos recursos internos, poderemos nos contrapor ao impulso crescente das negatividades, e escolher uma nova direção para o futuro", arremata Tarthang Tulku, em sua obra ‘Conhecimento da Liberdade’, que leio atualmente. E é neste sentido que a experiência do sofrimento deva buscar refúgio.

Restam então algumas palavras de Winston Churchill, 1874-1965, nascido em uma família da nobreza britânica, político conservador e estadista britânico: “Todas as grandes coisas são simples. E muitas podem ser expressas numa só palavra: liberdade; justiça; honra; dever; piedade; esperança”.

O poder de Eike era grande, mas não poderia ser descrito por uma dessas simples palavras. A antítese de seu poder talvez se aproxime mais de: vazio, solidão, humilhação. Não tripudiemos, apenas deixemos a justiça prevalecer.



                ·         Revisão do texto: Márcia Navarro Cipólli 

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