Quando o conhecimento nos transforma, ele deixa de ser acúmulo e passa a ser transbordamento
Tom Simões, jornalista especializado
em divulgação científica, Santos (Brasil), 26 de fevereiro de 2026
“O analfabetismo funcional
afeta 30% da população brasileira. E ninguém tira real proveito das tecnologias
emergentes sem dominar o básico”, escreve Conrado Schlochauer, doutor em
Psicologia da Aprendizagem pela USP, autor do artigo ‘Ler e escrever: as
competências do presente’ (leia também o link acima - excelente).
Vivemos em tempos em que a informação é abundante – mas a sabedoria continua rara. Apenas pessoas incomuns se interessam por conteúdos transformadores - aqueles que não apenas informam, mas provocam consciência, deslocamento interior e mudança de postura diante da vida. Quem acredita que encontrou respostas definitivas costuma parar. Quem mantém viva a busca continua crescendo – e inspira crescimento.
É no diálogo silencioso
com os livros e com as palavras que me construo. E me transformo. Sinto que
meus achados não me pertencem; passam por mim para alcançar outros. Não me movo
pela pretensão de ensinar o sentido da vida, mas pela necessidade de preservar
o exercício da consciência. Meu gesto não é pedagógico; é existencial.
Compartilhar meus achados
não decorre de um impulso narcísico, mas de uma exigência da consciência.
Trata-se menos de buscar reconhecimento e mais de responder a um dever interior
de partilha do que me transforma.
Isso aproxima minha
atitude da figura do mestre-aprendiz – aquele que ensina enquanto continua
aprendendo. Compartilhar o que descobrimos pode ser menos um gesto de vaidade e
mais uma necessidade da própria alma de se expandir e servir. Quando o
conhecimento nos transforma, ele deixa de ser acúmulo e passa a ser
transbordamento.
A expressão beneficiar ‘os
buscadores do sentido da vida’ é profunda. Ela pressupõe que reconheço não
estar sozinho nas minhas inquietações. Há outros caminhantes. E eu desejo
iluminar trechos do caminho.
Mas há algo ainda mais
interessante nisso tudo. Esta necessidade enorme pode ser entendida não somente
como um chamado, mas também como um teste. Porque compartilhar sabedoria exige alguns
cuidados, como estes: (1) Não impor, mas oferecer. (2) Não se colocar acima,
mas ao lado. (3) Não falar para convencer, mas para despertar.
Em outras palavras,
aprendo para me transformar e beneficiar minhas circunstâncias. Isso lembra a
tradição filosófica antiga, especialmente o espírito de Epicteto, filósofo
grego estoico, para quem o conhecimento só tinha valor se fosse vivido e
transmitido como exemplo. Também ecoa a ideia de Carlos Bernardo González
Pecotche, humanista e pensador argentino, conhecido principalmente como o
fundador da Logosofia. que via o conhecimento como algo que deve produzir
evolução consciente e ser compartilhado para o bem comum.
Eu não quero apenas
acumular informação – desejo ser modificado por ela. A maioria consome
conteúdo; poucos permitem que o conteúdo os transforme.
Reconheço não estar
sozinho nas minhas inquietações
Isso já é, por si só, um
movimento de consciência e amadurecimento. Essa percepção marca uma passagem
importante: da solidão subjetiva para a comunhão humana. As inquietações –
sobre sentido, tempo, consciência, morte, transformação – sempre acompanharam o
ser humano. Não me sinto à margem da experiência humana; estou no coração dela.
Carl Jung, psiquiatra e
psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica, dizia que aquilo que
não trazemos à consciência retorna como destino. Quando reconhecemos nossas
inquietações, começamos a dialogar com elas – e isso nos aproxima de todos os
que também buscam compreender a própria interioridade.
Søren Kierkegaard, filósofo, teólogo, poeta
e crítico social dinamarquês, tido como o primeiro filósofo existencialista, via
a angústia não como fraqueza, mas como sinal de liberdade e possibilidade.
Sentir inquietação é sentir que há algo em nós que ainda quer nascer.
Para Maurice
Merleau-Ponty, filósofo francês central na tradição fenomenológica do
século XX, o homem não é de antemão concebido como dotado de uma consciência
que permite a ele clareza absoluta de seus pensamentos, mas é antes uma vida
entregue a si mesma que busca constantemente se compreender. Merleau-Ponty
lembrava que somos seres-no-mundo, entrelaçados numa mesma trama de existência.
O que a gente sente ecoa, de formas diferentes, em muitos outros.
Talvez o ponto não seja
eliminar a inquietação, mas aprender a habitá-la com lucidez. Quando ela é
compartilhada, torna-se ponte – não peso.
Conhecimento e
transformação
Conteúdos transformadores
tocam algo mais profundo do que o intelecto – alcançam a forma como a pessoa se
percebe, percebe o outro e compreende o mundo.
O que caracteriza um
conteúdo transformador? (1) Desinstala certezas – questiona ideias
cristalizadas e amplia perspectivas; (2) Provoca autorreflexão – leva a pessoa
a olhar para si com mais honestidade; (3) Integra razão e sensibilidade – não é
apenas informativo, é experiencial; (4) Gera movimento interior – inspira
mudança concreta de atitude; (5) Conecta com sentido – dialoga com propósito,
valores e transcendência.
Resumindo, busco então
conteúdos que elevem a consciência e beneficiem os leitores. Nesse caso, talvez
a pergunta mais importante não seja apenas: mas o que estou fazendo,
concretamente, com aquilo que aprendo? Porque conteúdos produtivos só se tornam
verdadeiramente transformadores quando atravessam o pensamento e se convertem
em prática consciente.
A informação pode
iluminar. A reflexão pode ampliar. Mas é a ação que modifica. Vivemos em uma
era de abundância de conteúdos – ideias de grandes pensadores, livros,
palestras, vídeos, cursos... Contudo, não basta conhecer os princípios, é
preciso vivê-los. A filosofia estoica, por exemplo, não era um exercício
intelectual, mas uma disciplina diária de conduta. Da mesma forma, Carl Jung
enfatizava que o verdadeiro processo de individuação exige confronto interior e
transformação prática – não apenas compreensão teórica.
O estoicismo é uma escola
filosófica prática, voltada à vida cotidiana, cujo objetivo central é alcançar
a tranquilidade e liberdade emocional por meio da razão e da virtude.
Marco Aurélio, imperador-filósofo do
Império Romano é lembrado como um dos grandes representantes do estoicismo. O
estoicismo é cheio de sabedoria. É desse filósofo a frase: “Se alguém puder
me mostrar que estou errado, mudarei com prazer. Pois busco a verdade, e jamais
alguém foi prejudicado pela verdade.”
Como minhas reflexões
gravitam em torno da consciência, do sentido e da responsabilidade interior, o
estoicismo surge não como adesão teórica, mas como exigência prática de
coerência entre pensamento e ação.
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