segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Jornalismo Utilitário (e Voluntário, neste caso)

Costumam dizer que trabalho voluntário não é trabalho, só porque não é remunerado

Tom Simões, jornalista, tomsimoes@hotmail.com, janeiro 2016

Muitas pessoas dedicam parte de sua vida a trabalhos voluntários das mais diferentes naturezas. Algumas nem costumam comentar sua dedicação à causa que escolheram. São força anônima. De maneira geral, o voluntariado é pouco ou nada valorizado pela sociedade, que não o considera como um ‘serviço’. Há até quem o menospreze: “Eu não tenho tempo pra isso”, “Esse trabalho é coisa para o governo, pra isso pago impostos”. Então, numa instituição comum, o voluntário, não sendo enquadrado como funcionário, ainda que trabalhe muito, pode viver ali numa condição subvalorizada, apesar da importância do seu trabalho.
Mas essa realidade, não apenas brasileira (afinal gente é gente, aqui ou no deserto de Gobi), não desestimula inúmeras pessoas que investem seu tempo e talento trabalhando de maneira espontânea e não remunerada, em causas de interesse comunitário. Pessoas que se diferenciam por terem ações de fato transformadoras.
Segundo definição das Nações Unidas, “o voluntário é o jovem ou adulto que, devido a seu interesse pessoal e espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividade, organizadas ou não, de bem-estar social, ou outros campos”.  Assim, ele realiza o trabalho gerado pelo impulso solidário, atendendo tanto às necessidades do próximo quanto às suas próprias motivações pessoais.

Mais do que um simples interesse em prestar auxílio a comunidades (ou a pessoas no singular) de alguma forma carentes, há no voluntário (ou na maioria deles) o desejo de compartilhar as suas conquistas pessoais e espirituais, dizer que essa dedicação lhe traz um sentido mais amplo para a sua existência. E ele age por imperativo próprio. Voluntários são pessoas generosas que têm uma preciosa capacidade: a ‘empatia’. 

Eu criei um blog em 2008 abordando o autoconhecimento, que tem trazido um retorno inesperado: a credibilidade para auxiliar leitores a solucionar problemas pessoais. Com o advento do Facebook, então, vem aumentando o número de pessoas que me escrevem para pedir orientação em problemas particulares. Tal demanda inspira-me a dedicar-me mais e mais a esse trabalho, que desenvolvo em horas de folga, sobretudo em finais de semana, quando não tenho outros compromissos.

“Amigo, na verdade, estou precisando de ajuda. Tenho uma amiga que está passando por um problema. Conhecendo suas postagens, creio que uma conversa com ela a ajudaria”, um dos exemplos. Outro exemplo: “Faço terapia há quinze anos e a manutenção agora é o meu desenvolvimento espiritual. Você e minha terapeuta são meus mestres. Sou sortuda! Eu procuro a paz. Tenho muita energia e desejo canalizá-la para algum lugar. Não me sinto mais à vontade com as pessoas com as quais convivo, elas são superficiais. Está na hora de achar outra tribo”. Há inúmeros outros! Mas exemplos são para os poucos que os podem compreender; os outros não se sentirão atraídos por eles. Foi para auxiliar nessa demanda que cheguei a participar de um ‘Curso Livre de Formação em Psicanálise (Metodologia Holística)”, entre 2013 e 2014, com a duração de um ano e meio, em Santos (SP), ministrado pelo psicanalista Domingos Almeida.

No artigo ‘Filosofia também tem uso terapêutico’ (Folha de S.Paulo, 19/2/2013), escreve Giuliana de Toledo: “O uso do pensamento como terapia foi popularizado nos best-sellers ‘Mais Platão, Menos Prozac’ (1999), do canadense Lou Marinoff, e ‘As Consolações da Filosofia’ (2000), do suíço pop Alain de Botton. Na terapia filosófica ou filosofia clínica, filósofos atendem e dão aconselhamento com base nas ideias de grandes pensadores. Para ter efeito positivo em autoajuda, a indicação de livros que prometam soluções milagrosas deve ser evitada, diz o psiquiatra Elko Perissinotti, do Hospital das Clínicas de SP. Para ele, autoajuda boa é a que faz o paciente pensar sobre sua condição. Aquela coisa robotizada de olhar no espelho e falar ‘bom dia, dia’ tem duração fugaz”.     

É neste sentido que, paralelamente à atividade profissional, na área da divulgação científica, desenvolvo também essa espécie de ‘jornalismo de serviço ou utilitário’, em caráter voluntário, cujo alicerce é a informação que o leitor necessita ou que poderá se tornar necessária a ele em alguma oportunidade. Mas nem discuto sobre isso com ninguém, pois, pelo fato de não ser remunerado, não tenho patrões e nem reconhecimento devo esperar, a não ser dos leitores que se beneficiam desse meu trabalho.


Jornalismo interativo


De acordo com http://www.professores.unirg.edu.br/carolina/aula.pdf, “a notícia on-line possui a capacidade de fazer com o que o leitor/usuário sinta-se parte do processo. Essa interatividade acontece de diversas maneiras: pela troca de e-mails entre leitores e jornalistas; por meio da disponibilização da opinião dos leitores (fóruns de discussão); via bate-papo com jornalistas, entre outras”. Nesses casos, a atitude do internauta é mais ativa, cita o documento; ele aponta erros dos jornais e manifesta opinião, desejando respostas a suas sugestões/críticas. Jornalistas e leitores podem trocar experiências e, dependendo do veículo, o leitor pode pedir orientação sobre algo de seu interesse.

“Um dos fenômenos observados na interatividade digital é o progressivo desaparecimento da separação entre produtor e consumidor da informação. Em Internet, todos são potencial e simultaneamente escritores e editores, jornalistas e leitores e compradores e vendedores”, analisa o referido estudo.

Jailma Simone Gonçalves Leite, em ‘Jornalismo Interativo na TV Digital’, http://www.insite.pro.br/2009/maio/jornalismo_interatividade_jailma.pdf, busca entender as diversas ferramentas que o jornalista dispõe nessa era da informação on-line, bem como contribui para a reflexão e o aprimoramento da prática jornalística.

“Atualmente, se todos podem emitir e receber informações, ser distribuidores de notícias, então, qual será o papel dos jornalistas, do profissional encarregado de produzir, processar e emitir o discurso? Para isso, antes de entrar na questão tecnológica e abordar temas como interatividade e convergência de mídias, é preciso analisar a mediação jornalística enquanto atividade que informa e educa”, escreve Jailma Leite. Para ela, ainda que os meios à disposição e o modo de apresentação dos conteúdos tenham definitivamente mudado, como ainda os tradicionais gêneros jornalísticos estejam eles próprios em mutação, a atividade do jornalista, em sua essência, permanece inalterada: selecionar, verificar e transmitir informação com imparcialidade e veracidade. A sua pesquisa constatou que o futuro do jornalismo na era das novas tecnologias, neste caso, em especial na TV Digital, terá como base o domínio das ferramentas tecnológicas em conjunto com a capacidade de elaboração de um pensamento crítico de consistência, que fará a diferença entre o jornalista e as pessoas comuns que estarão distribuindo informação. “Nesta nova era digital, o modo de produção do fato noticioso não é o mesmo. As pessoas comuns podem, hoje, fazer o que só profissionais faziam. Com isso, o jornalista tem de oferecer algo mais”, revela Jailma.

Jailma mostra também que as tecnologias levam o jornalismo a praticar novos tipos de abordagem e gerar cada vez mais uma interação entre o público e o meio. Isso não implica dizer que a essência do jornalismo mudou e que se transforma a ponto de perder sua função de informar e construir a opinião pública.

“A mídia tradicional (jornal, revista, rádio, televisão) faz uma pré-escolha das informações que serão transmitidas, impondo ao público uma certa passividade; já as tecnologias digitais trazem novas formas de circulação de informações. A internet, sem dúvida, é responsável por todas essas modificações nos meios de comunicação. Ela transformou o modo de produção de notícias. Os principais veículos convergiram na internet, onde TV, rádio e textos convivem. É dessa convergência midiática que o público é convidado a participar e até mesmo modificar os conteúdos veiculados na mídia”, argumenta a jornalista.

Em seu estudo, Jailma trata da democratização da informação, assim como tem acontecido com a Internet, onde o jornalista já não tem isoladamente o privilégio de chegar primeiro aos acontecimentos, sendo muitas vezes surpreendido pelo próprio agente receptor que flagrou a notícia e repassou o material jornalístico para os veículos de comunicação.

Fica claro então que as mídias interativas são instrumento e espaço adequados para a prática do “jornalismo utilitário, e voluntário”.  O que se põe num blog passa a serpentear no Facebook, e o mote passa a ser posse do coletivo e a receber contribuições que lhe dão novos rumos.


“A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento.” (Platão)


Sou alguém que acredita que cada um tem o poder de transformar o mundo ao seu redor, pois isso começa no transformar seu próprio mundo. Escrevo com o propósito (nada modesto, confesso) de levar o leitor a um estágio melhor do que o anterior. A leitura útil é a que pode despertar o leitor e libertá-lo de velhas formas, repetitivas e condicionadas, de pensar; é algo que possa explodir mitos incômodos e provocar um pensamento novo. Penso em temas passíveis de agregar conteúdo, e estou aberto a sugestões (o primeiro passo para o diálogo desejável, afinal agora mesmo falei sobre mídia interativa).
Penso em me dedicar o máximo que puder ao bem-estar dos outros, mas, ao mesmo tempo, tentar beneficiar-me também. Quem não tem necessidade de encontrar sentido e significado para a sua vida? Resumindo em algo que li recentemente: “Penso então em viver para os outros, estreitando e mantendo os vínculos inter-humanos, a fim de compartilhar a responsabilidade pela sorte e o bem-estar de todos”.  
Há alguns anos, ao se pensar em ações voluntárias, automaticamente pensava-se em movimentos religiosos ou trabalhos na área da saúde. Sem dúvida, essas contribuições eram e continuam sendo importantes, mas foi a partir da década de 1990, quando surgiu o movimento ‘Ação da Cidadania Contra a Miséria e pela Vida’, liderado por Herbert de Souza, o Betinho, que a consciência solidária da sociedade passou a ter visibilidade, traduzindo um esforço voluntário de amplos setores nacionais e, sobretudo, de anônimos.

Não se pensa mais no voluntariado apenas como assistencial (doação de roupas, alimentos e agasalhos, por exemplo), mas também como uma força para mudança social por meio de medidas inclusivas e de impacto. É o ato do voluntário de doar tempo e conhecimento para estimular a sociedade em que vive, por meio de ações que não são remuneradas, mas que têm um valor fundamental para a comunidade e para o próximo, sobretudo num país, como o Brasil, tão carente em inúmeras áreas, como o Brasil.


Moradores em situação de rua visitam o Museu de Pesca de Santos, no dia 4/9/2014,
por meio da Associação Prato de Sopa 

Empatia significa a capacidade de se colocar no lugar do outro, imaginando-se nas mesmas circunstâncias. Quem é capaz? Pessoas depressivas, intolerantes, egocêntricas, de coração carente: “Ah, se elas pudessem experimentar a felicidade, indescritível, que sentem pessoas ‘incomuns’ dedicadas a uma boa causa!” Sensibilizar-se com o sofrimento de outras pessoas e ajudá-las de alguma maneira, não há remédio melhor para curar as nossas próprias carências. Ao presenciar o sofrimento de outras pessoas, passamos necessariamente a dar mais valor ao que a vida nos traz, ainda que, às vezes, não estejamos nos melhores dias de nossa vida. Por isso, espero que todos compreendam, é necessário, essencial mesmo, aprendam a lidar com a vida de maneira inteligente, ou seja, de maneira mais solidária, mais generosa. Dediquemo-nos a uma boa causa (que cada um escolha a sua, mas que a tenha) para que possamos sentir a força do Poder Universal. Trabalhemos nesse sentido para ter uma experiência do que significa paz interior! Quem já experimentou o trabalho voluntário, certamente identificar-se-á com esta descrição.

Há algo, de um autor desconhecido, que diz: “Que suas contribuições para o bem do mundo sejam muitas e generosas. Seja sempre grato por tudo o que você é, pois assim, se quiser fazer evoluir a Humanidade, ideias e caminhos lhe serão oferecidos”. Também tem isto: “Se você discorda de muita coisa, o que tem feito para ajudar a mudá-las?”.

·        Revisores do texto: Roberto da Graça Lopes e Márcia Navarro Cipólli, navarro98@gmail.com 

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