Tom Simões, humanista, jornalista e
divulgador científico, Santos (Brasil), 28 de outubro de 2026
Sempre me impressionou o
discurso bolsonarista, mesmo antes das eleições. Ao questionar o legado do
governo Bolsonaro, observo que, muitas vezes, em vez de uma discussão objetiva
sobre realizações, propostas e resultados, o debate se desvia para ataques ao
presidente Lula. O mesmo padrão se repete diante dos acontecimentos mais
recentes.
Por que é tão difícil reconhecer erros, rever escolhas e discutir fatos com racionalidade? Como explicar a persistência de uma defesa incondicional de lideranças políticas, mesmo diante de situações que deveriam, no mínimo, provocar questionamentos?
O fanatismo político pode
funcionar como um mecanismo de autoproteção emocional: diante de fatos que
contrariam nossas convicções, procuramos justificativas, atacamos adversários e
evitamos confrontar as próprias contradições. Assim, a defesa de uma ideologia
passa a ser mais importante do que a busca pela verdade.
Diante das notícias
envolvendo Flávio Bolsonaro, por exemplo, é necessário distinguir fatos
comprovados de acusações, interpretações e versões políticas. O que não podemos
fazer é substituir a análise dos acontecimentos por reações automáticas,
movidas pela paixão partidária.
Por que não discutir, com
o mesmo rigor, os resultados concretos dos governos Bolsonaro e Lula? Por que a
crítica a um adversário parece, tantas vezes, mais importante do que a
avaliação objetiva do político que escolhemos apoiar?
Também merece reflexão o
reconhecimento internacional recebido pelo governo Lula e por suas iniciativas
políticas e diplomáticas. Divergências ideológicas não deveriam impedir ninguém
de avaliar, com equilíbrio, a relevância de um líder e o alcance de suas
propostas. Reconhecimento internacional, entretanto, não dispensa análise
crítica, assim como a oposição não deve dispensar argumentos consistentes.
Não escrevo para humilhar
adversários políticos, muito menos para alimentar o ódio que tanto prejudica o
Brasil. Escrevo porque acredito que a democracia exige cidadãos capazes de
pensar, questionar e rever suas convicções.
A VERDADEIRA CONSCIÊNCIA
POLÍTICA NÃO CONSISTE EM DEFENDER INCONDICIONALMENTE QUEM ELEGEMOS, MAS EM
RECONHECER SEUS ACERTOS, QUESTIONAR SEUS ERROS E NÃO PERMITIR QUE A IDEOLOGIA
SE SOBREPONHA À REALIDADE.
Talvez o maior desafio do
nosso tempo não seja convencer o outro de que estamos certos, mas ajudá-lo a
compreender que ninguém está imune ao erro — sobretudo quando deixa de pensar
por si mesmo.

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