Documentário emocionante
revela inclusão social, superação e impacto humano
Tom Simões, humanista, jornalista e
divulgador científico
Santos (Brasil), 8 de setembro de 2026
“O que eu faço é a
manifestação do Universo. Posso, sim, facilitar o interesse de outras pessoas
nesta maravilha que é a existência, que a gente chama de ‘despertar’. É bonito
isto!”, escreve a monja Coen.
Para ela, precisamos ser professores, orientadores. Somos como pontes. Estamos em uma margem, digamos, da ignorância, do não saber, e podemos ajudar as pessoas a chegar ao outro lado. Passamos a ser a ponte. E as pessoas passam pela ponte. Algumas agradecem, outras insultam, outras urinam na ponte, mas a ponte não deixa de ser ponte. Permanece lá e não pede nada de volta: apenas facilita a travessia.
Essa ideia vai ao encontro
do pensamento de Clóvis de Carvalho: “Sou conhecido como um filósofo. Mas eu me
considero mesmo um explicador. Gosto mesmo é de explicar. É como se aquele
momento tivesse valido a pena”.
Por minha vez, tenho o
desejo de fazer algo, de mudar algo. É uma forma que encontro para celebrar a
minha existência. Sinto necessidade de fazer o que posso; se não tentar, não
posso ser feliz.
Há filmes que assistimos.
E há filmes que, de alguma maneira, nos olham de volta. Lixo Extraordinário,
documentário que acompanha o trabalho do artista plástico Vik Muniz com
catadores de materiais recicláveis no Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no
Rio de Janeiro — na época, um dos maiores lixões a céu aberto do mundo — é um
desses testemunhos que podem permanecer muito tempo dentro de nós.
O documentário vai
muito além da arte de Vik. Ele foi indicado ao Oscar de 2011 na
categoria de Melhor Documentário. Ao longo das filmagens, realizadas entre 2007
e 2008, transformações profundas acontecem na vida e na visão de mundo dos sete
catadores participantes do projeto — entre eles, Tião Santos, então presidente
da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho.
Em meio ao lixo,
encontramos algo que talvez seja ainda mais precioso do que a própria arte: pessoas.
Pessoas com princípios, batalhadoras, dotadas de espírito comunitário, capazes
de organizar uma comunidade e de encontrar sentido onde muitos de nós
enxergaríamos apenas abandono e degradação. Pessoas que encontram força para
transformar a própria realidade.
E há uma inversão muito
poderosa: aquilo que a sociedade chama de “lixo” acaba revelando algo que não é
lixo — a vida, a dignidade e a humanidade de quem trabalha ali. A
própria arte nasce dessa transformação do material descartado em representação
e significado.
“O mundo tem muitas coisas
boas a oferecer para quem tem a ousadia de buscar”, revela Vik.
Nascido em São Paulo, em
1961, o artista formou-se em Publicidade pela Fundação Armando Alvares Penteado
(FAAP).
Já consagrado e morando em
Nova York, decide realizar um projeto voltado à transformação social,
utilizando materiais recicláveis. Ao fazê-lo, parece promover uma transformação
ainda maior: ajuda a tornar visíveis pessoas que a sociedade frequentemente
prefere não enxergar.
É impossível assistir ao
documentário sem refletir sobre nossos próprios conceitos de riqueza, pobreza,
trabalho, dignidade, desperdício e humanidade.
Talvez esta seja a grande
lição de Lixo Extraordinário: às vezes, precisamos olhar para aquilo
que descartamos para descobrir aquilo que estamos deixando de valorizar.
Trata-se de um testemunho
profundamente humano; para mim, inesquecível. O documentário ultrapassa a
questão ambiental e social e chega àquilo que me parece ser o centro de sua
intenção: a reflexão sobre o ser humano.
O plano inicial de Vik
era fotografar os catadores utilizando o próprio material recolhido. Com a
participação ativa dos trabalhadores, foram criados imensos retratos no chão do
galpão, utilizando resíduos encontrados no lixão. As obras foram posteriormente
leiloadas em Londres, e parte da renda foi revertida para a associação dos
catadores.
“Eu tenho tudo e não quero
nada. Sou eu que sou ajudado.”
A frase de Vik Muniz
ganha uma força extraordinária justamente porque inverte a lógica habitual de
quem ajuda e de quem é ajudado.
A meu ver, o artista
reconhece que o encontro com os catadores não foi apenas uma experiência em que
ele levou algo — arte, oportunidade e visibilidade — para aquelas pessoas. Ele
próprio saiu transformado pela convivência com elas.
Essa talvez seja a
mensagem principal de Lixo Extraordinário: a dignidade humana e o poder
transformador da arte, mostrando que tanto os materiais descartados quanto as
pessoas marginalizadas podem ser ressignificados e valorizados.
O filme revela histórias
de vida, sonhos, inteligência e resistência de pessoas frequentemente
invisibilizadas pela sociedade. Mostra como a arte pode transformar a
autoestima e, em alguma medida, a realidade dos indivíduos envolvidos. E,
sobretudo, articula as dimensões ambiental e social ao expor os impactos do
consumo desenfreado e as condições difíceis enfrentadas por quem trabalha
diretamente com os resíduos produzidos pela sociedade.
“Eu tenho tudo e não quero
nada” pode ser entendido como uma crítica à ideia de que possuir bens,
reconhecimento ou conforto significa necessariamente possuir o essencial. Já
“Sou eu que sou ajudado” revela uma descoberta ainda mais profunda: quem
julgamos estar ajudando pode, na verdade, nos oferecer algo que dinheiro nenhum
compra — humanidade, sabedoria e generosidade.
A frase de Vik Muniz
talvez sintetize uma das maiores lições de Lixo Extraordinário: ao
acreditar que estava levando algo àquelas pessoas, o artista descobriu que era
ele quem também estava recebendo.
Porque há riquezas que
nenhuma conta bancária consegue medir — e há pessoas que, mesmo possuindo tão
pouco, nos ensinam que a verdadeira riqueza talvez não esteja no que temos, mas
no que somos e no que somos capazes de oferecer.
Por uma humanidade mais
consciente...
·
Outras
referências sobre o projeto:
https://cadernodia.wordpress.com/2013/01/05/lixo-extraordinario/



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