O maior desafio talvez não
seja a tecnologia em si, mas nossa dificuldade de compreendê-la
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Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=Axexavx9OL4
Tom Simões, jornalista especializado
em divulgação científica, Santos (Brasil), 14 de maio de 2026
Vivemos numa era em que
quase tudo precisa ser curto, imediato e rapidamente substituído por outro
estímulo. Reflexões profundas muitas vezes são ignoradas pela pressa.
Talvez as redes sociais já não tenham paciência para textos e vídeos demorados. Mas sigo convencido de que certas ideias merecem tempo, silêncio e assimilação. Nem todo conteúdo precisa apenas informar; alguns precisam transformar – como entrevistas que carregam experiências, lucidez e humanidade demais para desaparecer no fluxo acelerado do algoritmo.
Sempre enxerguei a
comunicação também como um exercício de formação humana. Continuo acreditando
no valor das grandes conversas. Algumas entrevistas servem para expandir
consciência, reorganizar pensamentos, reduzir preconceitos diante das mudanças
e nos tornar humanos melhores. Quando compartilho determinados conteúdos, faço
isso porque eles também me transformaram.
Considero o jornalista
como “ponte”. Não apenas alguém que noticia fatos, mas alguém que seleciona
conteúdos capazes de elevar culturalmente o leitor. Sempre enxerguei o
jornalismo não apenas como transmissão de notícias, mas como partilha de
aprendizado. Quando encontro entrevistas raras, profundas ou humanamente
enriquecedoras, sinto quase um dever moral de levá-las adiante.
Trata-se de uma ideia
editorial consciente e assumida perante o leitor. Em vez de parecer apenas
alguém repostando entrevistas longas num ambiente acelerado, isto faz parte da
minha missão pessoal. Há em mim uma responsabilidade quase pedagógica diante do
que aprendo. Isso aproxima muito mais o meu trabalho da figura de um mediador
cultural – ou até mesmo da figura de um “educador humanista”, como prefiro - do
que apenas um produtor de posts.
Walter Longo
Recentemente assisti a uma
palestra de Walter Longo sobre inteligência artificial — uma das
exposições mais lúcidas, didáticas e equilibradas que vi até agora sobre o
tema. Em tempos de excesso de alarmismo, superficialidade e desinformação, Longo
consegue desmistificar racionalmente a IA, ao explicar seus impactos reais
na sociedade, no trabalho, na educação e na vida cotidiana. Daí o meu interesse
de compartilhá-la.
Estamos diante de uma
ruptura histórica comparável às grandes revoluções da humanidade. E talvez o
verdadeiro perigo não esteja na inteligência artificial, mas na
superficialidade com que muitos ainda a observam. Compreender a IA demanda repertório,
extensão vocabular, reflexão crítica e nova compreensão da realidade capazes de
acompanhar a velocidade das mudanças que ela impõe ao mundo.
Especialista em inovação,
tecnologia e transformação digital, o entrevistado desmistifica a inteligência
artificial e explica seus impactos. Publicitário e Administrador de Empresas,
com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Longo é empreendedor
digital e palestrante internacional.
Foi presidente do Grupo
Abril, fundado em 1950, um dos maiores conglomerados de comunicação e logística
do Brasil. Também atuou como mentor de estratégia e inovação do Grupo Newcomm,
comandado por Roberto Justus. Ao longo da carreira, tornou-se referência
nacional em temas como inovação, comunicação, transformação digital, impacto e
adaptação às mudanças tecnológicas nos negócios e na sociedade, inteligência
artificial, mentalidade empreendedora e centralidade da atenção na era digital.
Quando o tema é
inteligência artificial, existe ainda muito medo, exagero, desinformação e
resistência emocional. Então, ao pensar que a palestra de Walter Longo
“desmistifica racional e didaticamente” a IA, assumo quase um papel de tradutor
cultural dessa transformação histórica já em curso.
Ideias
que não podem se perder na velocidade das redes
Isso ajuda o leitor a
compreender que, quando eu compartilho algo longo, existe um critério humano e
intelectual por trás – não apenas volume de conteúdo. Há ainda um aspecto
importante que talvez valha explorar: a resistência cultural à superficialidade.
E sei que me repito: a velocidade das redes favorece frases curtas, indignação
instantânea e consumo rápido. Mas o amadurecimento intelectual raramente nasce
da pressa. Grandes entrevistas ainda são uma das formas mais ricas de
aprendizado.
Há público para isso, sim
– talvez menor que o público da superficialidade instantânea, mas
frequentemente mais fiel, mais reflexivo e mais grato.
Compartilhar conhecimento
também é uma forma de ‘cuidado coletivo’. Se uma entrevista mudou algo em mim,
talvez possa despertar algo em outras pessoas. Isso é muito poderoso porque
desloca o ato de publicar uma simples postagem para uma missão de circulação de
consciência. E isso tem enorme coerência com o tipo de trabalho que já realizo,
também na página do Facebook, ao divulgar pensamentos, biografias e reflexões
humanistas.
Em tempos de excesso de
opinião e escassez de reflexão, certas conversas merecem permanência. Compartilho-as
porque acredito que compreender o próprio tempo também é uma forma de evolução
pessoal. O maior risco talvez não seja a inteligência artificial — mas
permanecer ignorando a realidade de um mundo que já mudou.
Nem tudo o que transforma
o mundo chega de forma ameaçadora. Às vezes, chega primeiro como conhecimento. Foi
assim com a imprensa, que democratizou o acesso às ideias; com a internet, que
encurtou distâncias e ampliou vozes; e até com as vacinas, inicialmente
recebidas com desconfiança, mas responsáveis por salvar milhões de vidas. A
inteligência artificial talvez siga caminho semelhante: uma revolução que desperta
receios, mas que também pode ampliar capacidades humanas, acelerar descobertas
e transformar profundamente a maneira como aprendemos, trabalhamos e nos
relacionamos.
Portanto, o natural
advento da IA transmite a ideia de que ela não surgiu como acidente ou ameaça
isolada, mas como consequência natural da evolução tecnológica da humanidade. Isso
confere mais solidez ao raciocínio.
A diferença essencial
entre a máquina e a condição humana
A inteligência artificial
processa dados, reconhece padrões e entrega respostas em segundos. O pensamento
humano, porém, nasce da consciência, da experiência, da dúvida, da memória
afetiva e da sensibilidade. A IA pode organizar informações; o ser humano
atribui significado a elas.
Embora impressione pela
velocidade e eficiência, a inteligência artificial não sente, não ama, não
sofre, não tem intuição moral nem vivência existencial. Ela simula linguagem; o
ser humano constrói sentido. Por isso, talvez o maior risco não seja a IA substituir
o pensamento humano, mas o próprio ser humano abdicar da reflexão, da
curiosidade e da capacidade de interpretar o mundo por conta própria.
Essa automação inteligente
pode acelerar respostas, mas não substitui consciência, sensibilidade e
experiência humana. Máquinas processam informações; seres humanos transformam
informação em significado, empatia e sabedoria.
A IA aprende com dados. O
ser humano aprende também com silêncio, perdas, afeto, fé, memória e
convivência. É nessa dimensão invisível — emocional e existencial — que
permanece a diferença essencial entre tecnologia e humanidade.
A tecnologia algorítmica pode
processar dados, reconhecer padrões e simular linguagem e raciocínio. Mas não pode
despertar para a consciência transcendental. O ser humano, ao contrário,
carrega a capacidade de refletir sobre a própria existência, buscar sentido,
desenvolver espiritualidade, contemplar o invisível e experimentar sentimentos
que ultrapassam a lógica. É justamente nessa dimensão interior — ética,
sensível e transcendente — que reside uma das diferenças essenciais entre a
máquina e a condição humana.
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