O self digital e o vazio existencial
Tom Simões, jornalista especializado
em divulgação científica, Santos (Brasil), 15 de abril de 2026
O termo “self” refere-se ao núcleo da identidade de uma pessoa – aquilo que ela é em essência, incluindo sua consciência, percepções, sentimentos e sentido de “eu”. De forma resumida, “self” é a experiência interna de ser quem se é. Na psicologia, especialmente em Carl Gustav Jung, o “self” é a totalidade da psique, integrando consciente e inconsciente. No uso comum, pode significar simplesmente o “eu” individual, a identidade pessoal percebida.
Em outras palavras: self
é o centro silencioso de quem somos. Ou então: self é a essência que se
revela quando nos tornamos conscientes de nós mesmos. Mas também pode ser: o
que observa, sente e dá sentido à própria existência.
O Café Filosófico da
TV Cultura de São Paulo é um programa que apresenta reflexões de pensadores
contemporâneos, exibido aos domingos, às 20 horas, mas também disponível no
YouTube, como parte do compromisso do Instituto CPFL (Companhia Paulista de
Força e Luz) em impactar a sociedade sobre conteúdos educativos
produtivos.
O renomado cientista Sílvio
Meira foi um desses convidados para discutir como a busca constante pela
validação nas redes digitais molda identidades frágeis. Trata-se de um dos
principais arquitetos da inovação digital no Brasil. Essa busca desloca o eixo
da identidade para fora de si. Quando o valor pessoal passa a depender do
olhar do outro – medido em curtidas, comentários e engajamento – forma-se uma
identidade instável, sempre em negociação.
Nesse processo, quanto
mais se busca aceitação, mais se amplia a sensação de inadequação, pois o
referencial nunca é interno, mas comparativo e, portanto, inalcançável. No
fundo, não é apenas uma questão de exposição, mas de dependência simbólica:
existir passa a ser, silenciosamente, “ser reconhecido”.
Sílvio Romero de Lemos
Meira
(nascido em 1955, em Taperoá, Paraíba) é uma das principais referências da
tecnologia e inovação no Brasil. Cientista da computação, professor e
empreendedor, sua trajetória combina produção acadêmica, atuação empresarial e
reflexão sobre o impacto da tecnologia na sociedade.
Ele é um dos fundadores do
Porto Digital, em Recife — um dos maiores parques tecnológicos do Brasil
— onde preside o conselho de administração. Também cofundou o CESAR (Centro de
Estudos e Sistemas Avançados do Recife), sendo seu cientista-chefe por muitos
anos, além de participar de conselhos de grandes empresas e iniciativas de
inovação.
Ao longo de sua carreira,
recebeu diversas distinções, como: Ordem Nacional do Mérito Científico, Ordem
de Rio Branco, Medalha do Conhecimento e título de um dos brasileiros mais
influentes (Revista Época).
É autor de livros como Novos Negócios Inovadores de Crescimento e
escreve regularmente sobre transformação digital, estratégia e cultura.
Mais do que um engenheiro,
Sílvio Meira é um pensador do presente: sua obra e atuação mostram que
tecnologia não é apenas ferramenta — é força que redefine mercados,
comportamentos e a própria forma de viver.
Como viver a personalidade
sem o vício digital
Viver a própria
personalidade sem o vício digital não significa rejeitar a tecnologia — mas
recolocá-la no seu devido lugar: como ferramenta, não como espelho da sua
identidade. Há um ponto central aqui: quando a validação vem de fora (curtidas,
comentários, visibilidade), a personalidade tende a se moldar ao olhar do
outro. Quando essa validação é reduzida, algo mais autêntico começa a emergir.
Aqui vão alguns caminhos
práticos e, sobretudo, reflexivos: (1) A sua personalidade não pode depender da
reação imediata de uma audiência; (2) A personalidade amadurece no silêncio
tanto quanto na exposição; (3) Hoje, muita gente não se expressa – se
apresenta. A expressão nasce de dentro, a performance nasce da expectativa
externa. Antes de publicar algo, pergunte: “Isso me expressa ou me promove?”;
(4) O vício digital sequestra algo precioso: sua capacidade de sustentar
pensamento. Reduza estímulos fragmentados. Cultive atenção longa (leitura,
escrita, contemplação). Sem atenção profunda, não há identidade consistente –
só reação; (5) Aceite o desconforto de não ser visto. Parte do vício é o medo
de desaparecer. Ficar off-line pode gerar ansiedade – isso é sintoma,
não problema. Aprenda a sustentar esse vazio sem preenchê-lo imediatamente. É
NESSE ESPAÇO QUE O “SELF” SE REORGANIZA. (6) Construa identidade pela
coerência, não pela visibilidade. Quem você é se revela mais na repetição
silenciosa do que na exibição pontual. Pequenos hábitos consistentes moldam
mais do que grandes aparições. A personalidade sólida não precisa de plateia
constante.
Em síntese, viver a
personalidade sem vício digital é deslocar-se de uma lógica de exposição para
uma lógica de presença. NÃO SE TRATA DE SAIR DO MUNDO DIGITAL, MAS DE NÃO
DEPENDER DELE PARA EXISTIR.
“Alimentação instrutiva”
Desenvolver-se mútua e
positivamente nas redes sociais — a partir da ideia de “alimentação
instrutiva” — é transformar o ambiente digital de consumo passivo em um
espaço de troca consciente, crescimento e lapidação do self.
Aqui vai uma síntese
prática, mas com profundidade: (1) Curadoria intencional – O QUE SE CONSOME NOS
MOLDA. A “alimentação instrutiva” começa na escolha. Siga perfis que expandam
sua consciência, não apenas o que entretêm. A “alimentação instrutiva” começa
na escolha. Pergunte-se: “Isso me transforma ou apenas me distrai?” Você não
está apenas vendo conteúdo – está internalizando padrões de pensamento. (2) Compartilhamento
com propósito (o que você oferece também educa). Não basta consumir bem – é
preciso publicar ideias que provoquem reflexão. Compartilhe aprendizados reais,
não apenas ‘performances de vida’. Toda postagem é uma forma de influência
silenciosa. (3) Interação que eleva – a evolução mútua acontece no
encontro. Comente para ‘construir’ e não para reagir. Valorize conversas
profundas, mesmo que com poucas pessoas. REDES SOCIAIS PODEM SER ESPAÇOS DE
‘DIÁLOGO TRANSFORMADOR’, NÃO SÓ DE EXPOSIÇÃO. (4) Consciência da validação (o
perigo invisível). Não condicione seu valor a curtidas ou engajamento. Observe
quando você posta para ser visto, e não para expressar. Reforce sua identidade
fora do digital. Sem isso, a rede deixa de nutrir e passa a fragilizar o
self. (5) Ritmo e silêncio (digestão da ‘alimentação’). Assim como na
alimentação física, é preciso assimilar: faça pausas intencionais, reflita
sobre o que consumiu e dê tempo para o conteúdo gerar TRANSFORMAÇÃO INTERNA.
Sem pausa, não há aprendizado – apenas acúmulo.
Síntese essencial
“Alimentação instrutiva”
nas redes é consumir com critério, compartilhar com propósito e interagir com
consciência — criando um sistema onde todos crescem juntos.
Se cada era da humanidade
teve suas tecnologias, com usos benéficos e perniciosos, na nossa era as
ferramentas digitais têm alargado horizontes e possibilidades de realização da
nossa identidade, mas a vida excessivamente on-line também tem causado
um vazio de sentido.
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