quarta-feira, 15 de abril de 2026

TECNOLOGIAS DE IDENTIDADE

 

O self digital e o vazio existencial

 


            Assista: https://www.youtube.com/watch?v=umnep7OJrP0

 

 Tom Simões, jornalista especializado em divulgação científica, Santos (Brasil), 15 de abril de 2026

 

O termo “self” refere-se ao núcleo da identidade de uma pessoa – aquilo que ela é em essência, incluindo sua consciência, percepções, sentimentos e sentido de “eu”. De forma resumida, “self” é a experiência interna de ser quem se é. Na psicologia, especialmente em Carl Gustav Jung, o “self” é a totalidade da psique, integrando consciente e inconsciente. No uso comum, pode significar simplesmente o “eu” individual, a identidade pessoal percebida.

Em outras palavras: self é o centro silencioso de quem somos. Ou então: self é a essência que se revela quando nos tornamos conscientes de nós mesmos. Mas também pode ser: o que observa, sente e dá sentido à própria existência.

O Café Filosófico da TV Cultura de São Paulo é um programa que apresenta reflexões de pensadores contemporâneos, exibido aos domingos, às 20 horas, mas também disponível no YouTube, como parte do compromisso do Instituto CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz) em impactar a sociedade sobre conteúdos educativos produtivos.   

O renomado cientista Sílvio Meira foi um desses convidados para discutir como a busca constante pela validação nas redes digitais molda identidades frágeis. Trata-se de um dos principais arquitetos da inovação digital no Brasil. Essa busca desloca o eixo da identidade para fora de si. Quando o valor pessoal passa a depender do olhar do outro – medido em curtidas, comentários e engajamento – forma-se uma identidade instável, sempre em negociação.

Nesse processo, quanto mais se busca aceitação, mais se amplia a sensação de inadequação, pois o referencial nunca é interno, mas comparativo e, portanto, inalcançável. No fundo, não é apenas uma questão de exposição, mas de dependência simbólica: existir passa a ser, silenciosamente, “ser reconhecido”.

Sílvio Romero de Lemos Meira (nascido em 1955, em Taperoá, Paraíba) é uma das principais referências da tecnologia e inovação no Brasil. Cientista da computação, professor e empreendedor, sua trajetória combina produção acadêmica, atuação empresarial e reflexão sobre o impacto da tecnologia na sociedade.

Ele é um dos fundadores do Porto Digital, em Recife — um dos maiores parques tecnológicos do Brasil — onde preside o conselho de administração. Também cofundou o CESAR (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), sendo seu cientista-chefe por muitos anos, além de participar de conselhos de grandes empresas e iniciativas de inovação.

Ao longo de sua carreira, recebeu diversas distinções, como: Ordem Nacional do Mérito Científico, Ordem de Rio Branco, Medalha do Conhecimento e título de um dos brasileiros mais influentes (Revista Época).
É autor de livros como Novos Negócios Inovadores de Crescimento e escreve regularmente sobre transformação digital, estratégia e cultura.

Mais do que um engenheiro, Sílvio Meira é um pensador do presente: sua obra e atuação mostram que tecnologia não é apenas ferramenta — é força que redefine mercados, comportamentos e a própria forma de viver.

 

Como viver a personalidade sem o vício digital

 

Viver a própria personalidade sem o vício digital não significa rejeitar a tecnologia — mas recolocá-la no seu devido lugar: como ferramenta, não como espelho da sua identidade. Há um ponto central aqui: quando a validação vem de fora (curtidas, comentários, visibilidade), a personalidade tende a se moldar ao olhar do outro. Quando essa validação é reduzida, algo mais autêntico começa a emergir.

Aqui vão alguns caminhos práticos e, sobretudo, reflexivos: (1) A sua personalidade não pode depender da reação imediata de uma audiência; (2) A personalidade amadurece no silêncio tanto quanto na exposição; (3) Hoje, muita gente não se expressa – se apresenta. A expressão nasce de dentro, a performance nasce da expectativa externa. Antes de publicar algo, pergunte: “Isso me expressa ou me promove?”; (4) O vício digital sequestra algo precioso: sua capacidade de sustentar pensamento. Reduza estímulos fragmentados. Cultive atenção longa (leitura, escrita, contemplação). Sem atenção profunda, não há identidade consistente – só reação; (5) Aceite o desconforto de não ser visto. Parte do vício é o medo de desaparecer. Ficar off-line pode gerar ansiedade – isso é sintoma, não problema. Aprenda a sustentar esse vazio sem preenchê-lo imediatamente. É NESSE ESPAÇO QUE O “SELF” SE REORGANIZA. (6) Construa identidade pela coerência, não pela visibilidade. Quem você é se revela mais na repetição silenciosa do que na exibição pontual. Pequenos hábitos consistentes moldam mais do que grandes aparições. A personalidade sólida não precisa de plateia constante.

Em síntese, viver a personalidade sem vício digital é deslocar-se de uma lógica de exposição para uma lógica de presença. NÃO SE TRATA DE SAIR DO MUNDO DIGITAL, MAS DE NÃO DEPENDER DELE PARA EXISTIR.    

 

“Alimentação instrutiva”

 

Desenvolver-se mútua e positivamente nas redes sociais — a partir da ideia de “alimentação instrutiva” — é transformar o ambiente digital de consumo passivo em um espaço de troca consciente, crescimento e lapidação do self.

Aqui vai uma síntese prática, mas com profundidade: (1) Curadoria intencional – O QUE SE CONSOME NOS MOLDA. A “alimentação instrutiva” começa na escolha. Siga perfis que expandam sua consciência, não apenas o que entretêm. A “alimentação instrutiva” começa na escolha. Pergunte-se: “Isso me transforma ou apenas me distrai?” Você não está apenas vendo conteúdo – está internalizando padrões de pensamento. (2) Compartilhamento com propósito (o que você oferece também educa). Não basta consumir bem – é preciso publicar ideias que provoquem reflexão. Compartilhe aprendizados reais, não apenas ‘performances de vida’. Toda postagem é uma forma de influência silenciosa. (3) Interação que eleva – a evolução mútua acontece no encontro. Comente para ‘construir’ e não para reagir. Valorize conversas profundas, mesmo que com poucas pessoas. REDES SOCIAIS PODEM SER ESPAÇOS DE ‘DIÁLOGO TRANSFORMADOR’, NÃO SÓ DE EXPOSIÇÃO. (4) Consciência da validação (o perigo invisível). Não condicione seu valor a curtidas ou engajamento. Observe quando você posta para ser visto, e não para expressar. Reforce sua identidade fora do digital. Sem isso, a rede deixa de nutrir e passa a fragilizar o self. (5) Ritmo e silêncio (digestão da ‘alimentação’). Assim como na alimentação física, é preciso assimilar: faça pausas intencionais, reflita sobre o que consumiu e dê tempo para o conteúdo gerar TRANSFORMAÇÃO INTERNA. Sem pausa, não há aprendizado – apenas acúmulo.

 

Síntese essencial

 

“Alimentação instrutiva” nas redes é consumir com critério, compartilhar com propósito e interagir com consciência — criando um sistema onde todos crescem juntos.

Se cada era da humanidade teve suas tecnologias, com usos benéficos e perniciosos, na nossa era as ferramentas digitais têm alargado horizontes e possibilidades de realização da nossa identidade, mas a vida excessivamente on-line também tem causado um vazio de sentido.

 

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