A polarização ideológica
pode ultrapassar o campo das ideias e atingir os vínculos afetivos
Tom Simões, humanista, jornalista e divulgador científico, Santos (Brasil), 21 de outubro de 2026
O chamado “Efeito
Bolsonaro”, neste artigo, é compreendido como um fenômeno de polarização
política que ultrapassa as divergências ideológicas e passa a afetar relações
familiares e amizades. A questão que me interessa, porém, vai além da crítica
política: trata-se de compreender como determinadas convicções e atitudes podem
comprometer a convivência e revelar incompatibilidades de valores.
Há amizades que não terminam por falta de afeto, mas porque certas divergências nos fazem enxergar o outro sob uma perspectiva que antes desconhecíamos. No Brasil, a polarização política em torno do bolsonarismo tornou esse fenômeno particularmente visível.
Esta reflexão procura
investigar os limites da tolerância e a difícil tarefa de preservar os afetos
sem abandonar os próprios princípios.
Alguns mecanismos
psicológicos e sociais ajudam a compreender esse afastamento:
- Identidade política: a pessoa deixa de
enxergar a política apenas como uma questão de ideias e passa a tratá-la
como parte de sua identidade. Criticar o líder pode ser interpretado como
uma ofensa pessoal.
- Dissonância cognitiva: diante de
informações que contrariam suas convicções, algumas pessoas tendem a
rejeitar os fatos, em vez de reconsiderar suas crenças.
- Desumanização do adversário: quando o discurso
político transforma quem pensa diferente em inimigo, o diálogo cede lugar
à hostilidade.
- Esgotamento emocional: pessoas que
valorizam a convivência respeitosa podem se afastar para preservar a
própria tranquilidade, sobretudo quando as conversas se tornam
repetitivas, agressivas ou ofensivas.
- Conflito de valores: em certos casos, a
divergência deixa de ser apenas política e passa a envolver questões
éticas, como o respeito à dignidade humana, à tolerância e à
responsabilidade social.
Não pretendo condenar
pessoas, mas compreender por que, às vezes, a convivência deixa de ser
possível. Acredito que ela precisa ser respeitosa e enriquecedora para ambas as
partes.
Um desentendimento pode
ser útil quando nos leva a rever conceitos, compreender outra perspectiva ou
reconhecer nossos próprios equívocos. Mas, quando a conversa se reduz à
hostilidade, à repetição de preconceitos e à recusa em ouvir, as possibilidades
de aprendizado diminuem.
A polarização política
pode ultrapassar o campo das ideias e atingir os vínculos afetivos
Uma pesquisa publicada em
2025, na revista acadêmica Research & Politics, investigou os
conflitos familiares motivados por divergências eleitorais no Brasil. O estudo
baseou-se em um levantamento nacional realizado após as eleições presidenciais
de 2022, com 2.501 participantes.
O resultado mais
expressivo foi que 3,5% dos entrevistados relataram ter deixado de falar com
algum familiar por causa das eleições. A pesquisa também identificou maior
probabilidade de rompimento de vínculos familiares entre participantes
lésbicas, gays e bissexuais, resultado que os autores relacionam à
marginalização social e à percepção de ameaças aos próprios direitos.
Uma ressalva importante: o
estudo investigou rompimentos familiares, não afastamentos entre amigos ou
conhecidos. Portanto, seus resultados não permitem concluir que a polarização
tenha provocado rupturas generalizadas na sociedade brasileira. Revelam, contudo,
que os conflitos eleitorais podem afetar os vínculos de maneira desigual,
conforme as circunstâncias e a experiência de cada pessoa.
A pesquisa oferece uma
base empírica para compreender o fenômeno social. Minha contribuição, por sua
vez, está na reflexão humanista sobre a convivência como oportunidade de
aprendizado, sem que isso implique renunciar à consciência ou tolerar
comportamentos que ferem nossos princípios morais.
Às vezes, não é a política
que rompe os vínculos; ela apenas ilumina aquilo que já dificultava a
convivência
Afastar-se de alguém não
significa necessariamente intolerância política. Pode representar uma tentativa
de estabelecer limites diante de comportamentos ofensivos ou incompatíveis com
valores fundamentais. O problema surge quando a divergência, por si só, passa a
justificar o desprezo pelo outro.
O drama da polarização
política começa quando a fidelidade a um líder se torna mais importante do que
o respeito ao próximo. Nesse ponto, não são apenas ideias que separam as
pessoas: estão em jogo os próprios valores que sustentam a convivência humana.
Até que ponto preservar
uma relação afetiva justifica tolerar discursos e comportamentos que contrariam
nossos princípios éticos e nossa consciência? Preservar os vínculos humanos é
importante, mas não deve significar aceitar o inaceitável nem silenciar diante
daquilo que fere nossos valores.
A reflexão está justamente
em encontrar o equilíbrio entre respeitar quem pensa diferente e não trair
aquilo em que acreditamos.
No meu caso, tenho
dificuldade de conviver com pessoas que se identificam com a extrema-direita
quando essa identificação vem acompanhada de discursos e atitudes que considero
incompatíveis com meus valores. Não se trata simplesmente de discordar politicamente,
nem de exigir que todos pensem como eu, mas de reconhecer que preservar a
convivência não pode significar renunciar à própria consciência.
Tenho a impressão de que
certas posturas podem revelar conflitos interiores ainda não elaborados, embora
não me pareça prudente generalizar. Há pessoas facilmente influenciadas pelas
redes sociais; outras podem manifestar, em suas posições políticas, características
pessoais que já se insinuavam antes do advento do bolsonarismo.
O que acontece com nossos
vínculos afetivos quando descobrimos, no outro, valores que nos causam
desconforto moral?
Não posso compactuar com
quem despreza a razão.
O bolsonarismo talvez não
tenha criado certas incompatibilidades, mas exposto diferenças de valores e
traços de comportamento que antes permaneciam discretos. Em determinadas
circunstâncias, o posicionamento político funciona como um revelador de atitudes
e convicções que não se manifestavam tão claramente.
O desconforto não nasce
necessariamente da escolha política do outro, mas daquilo que certas pessoas
revelam por meio de suas atitudes, sobretudo quando movidas por paixões
inflamadas.
Distanciar-se de alguém
nem sempre significa odiar ou rejeitar. Às vezes, significa reconhecer que a
convivência tem um custo emocional e ético que já não desejamos pagar.
Cabe, entretanto, uma
ressalva: não se pode presumir que todos os apoiadores de Bolsonaro
compartilhem os mesmos valores ou motivações. Preservo a amizade com alguns
raros bolsonaristas que demonstram sensatez e abertura ao diálogo. Evitamos
abordar política para não comprometer o respeito mútuo e a possibilidade de
conversas produtivas.
A convivência como fonte
de aprendizado
Uma boa conversa, como um
bom livro, deve nos oferecer algo novo para incorporar à vida e ampliar nossa
compreensão do mundo.
O que podemos aprender de
relações em que o diálogo cede lugar à hostilidade, a divergência se transforma
em ofensa e o fanatismo sufoca qualquer possibilidade de compreensão?
Não precisamos pensar da
mesma maneira para conviver. Precisamos, sim, estar dispostos a ouvir, refletir
e reconhecer a humanidade do outro. Quando essa disposição desaparece, talvez o
afastamento não represente intolerância, mas o reconhecimento de que nem toda
convivência contribui para o crescimento mútuo.
O desafio não está em
eliminar as divergências, mas em preservar a capacidade de dialogar sem
transformar o outro em inimigo. Afinal, conviver não significa concordar com
tudo, assim como respeitar não significa abdicar dos próprios princípios.
Talvez a maturidade esteja
justamente em reconhecer quando uma relação ainda nos permite aprender e quando
a distância se torna necessária para preservar aquilo em que acreditamos.
Referências
GATTO, Malu A. C.; LEAL,
João Gabriel; THOMÉ, Débora. What explains election-driven family conflicts?
Research & Politics, v. 12, n. 1, 2025. DOI: 10.1177/20531680251319815.
Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/20531680251319815
FURTADO, Henrique. O
“Efeito Bolsonaro”. openDemocracy, 19 out. 2018. Disponível em: https://www.opendemocracy.net/pt/o-efeito-bolsonaro/

A consciência funciona como uma bússola moral e interna do ser humano, orientando as nossas escolhas, valores e comportamentos diante dos dilemas da vida. Assim como uma bússola aponta o norte magnético para guiar o caminho físico, a consciência ajuda a discernir entre o certo e o errado, dando direção e sentido à jornada pessoal.
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