quarta-feira, 16 de setembro de 2026

ENTRE A TELA E O CORPO

 

O que o uso prolongado de celulares pode fazer com nossa postura — e como reduzir seus efeitos

Imagem: Magnific

 

Tom Simões, humanista, jornalista e divulgador científico, Santos (Brasil), 16 de setembro de 2026

 

Internautas estão começando a se curvar fisicamente diante daquilo que criamos por meio da tecnologia. Talvez seja hora de perguntar se, enquanto curvamos o corpo diante das telas, não estamos também nos curvando excessivamente diante da tecnologia.

O fenômeno visual de encontrarmos pessoas ligeiramente curvadas — especialmente quando caminhamos atrás delas — pode chamar a atenção para uma mudança de hábitos que acompanha a vida digital contemporânea.

Recentemente, ao caminhar pela rua, deparei-me com uma pessoa conhecida à minha frente, com o pescoço visivelmente inclinado para a frente. A cena chamou minha atenção e despertou uma pergunta: haveria relação entre aquela postura e o uso excessivo de celulares? A partir dessa observação, fui pesquisar o assunto.

A resposta não é tão simples quanto parece. A postura corporal resulta da interação de músculos, articulações, hábitos, características individuais e atividades realizadas ao longo do dia. O uso prolongado de celulares pode contribuir para desconforto e dor cervical, sobretudo quando associado à manutenção prolongada da cabeça inclinada e à pouca variação de postura. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada recentemente encontrou associação entre uso excessivo de smartphones e maior risco de dor no pescoço.

O problema, portanto, não está necessariamente no dispositivo, mas na maneira, no tempo e na frequência com que o utilizamos.

Ao olhar para baixo para ler uma mensagem, assistir a um vídeo ou percorrer a tela, podemos manter a cabeça inclinada durante períodos prolongados. Dependendo da posição, esse ângulo pode ser bastante acentuado.

Mas o que acontece quando a tecnologia começa a moldar não apenas nossos hábitos, mas também nosso corpo, nossa atenção e nossa maneira de estar no mundo?

 

O chamado “pescoço tecnológico”

 

A expressão “pescoço tecnológico” — ou tech neck — é usada para descrever desconfortos e alterações posturais associados à permanência prolongada em posições que sobrecarregam a região cervical, especialmente durante o uso de dispositivos eletrônicos.

Não se trata, porém, de um diagnóstico médico específico.

Quando permanecemos muito tempo com a cabeça projetada para a frente ou inclinada para baixo, aumenta a demanda sobre músculos e estruturas da região cervical e dos ombros. A repetição dessa posição pode favorecer tensão, fadiga e dor, sobretudo quando não há alternância de postura.

Isso não significa que o pescoço ficará necessariamente deformado ou que uma alteração postural se tornará permanente. O corpo é dinâmico, e a postura pode variar ao longo do dia e ser influenciada pela atividade física, pelos hábitos, pelo condicionamento e por outros fatores.

Também é importante evitar uma explicação excessivamente simplificada segundo a qual determinados músculos simplesmente “encurtam”, enquanto outros ficam “fracos e alongados”. O funcionamento muscular e postural é mais complexo do que isso.

 

Por que percebemos mais o arqueamento quando alguém caminha à nossa frente?

 

Nossa percepção visual é particularmente sensível ao movimento, à silhueta e às mudanças na postura humana.

Quando caminhamos atrás de alguém, conseguimos observar com facilidade a relação entre cabeça, pescoço, ombros e tronco. A projeção anterior da cabeça, o arredondamento dos ombros ou uma maior curvatura da região torácica podem alterar a silhueta habitual e tornar a postura mais perceptível.

Isso não significa, contudo, que seja possível determinar apenas pela observação se aquela pessoa possui algum problema na coluna ou se sua postura resulta do uso de celular. Há muitas outras possibilidades: hábitos posturais, idade, características anatômicas, dor, alterações musculoesqueléticas, fadiga e até a maneira momentânea de caminhar.

Em muitos casos, alterações posturais leves são modificáveis. A conscientização corporal, a variação de posições ao longo do dia e a prática regular de exercícios podem contribuir para melhorar a postura e reduzir desconfortos.

 

O impacto mecânico

 

A cabeça de um adulto pesa, em média, cerca de 5 kg. Quando está alinhada sobre o tronco, a musculatura cervical trabalha em condições relativamente favoráveis.

À medida que a cabeça se inclina para a frente, porém, aumenta o momento de força exercido sobre a região cervical. Um estudo biomecânico de Kenneth Hansraj, publicado em 2014, estimou que essa carga poderia chegar a aproximadamente 27 kg quando a cabeça estivesse inclinada 60 graus.

É importante compreender corretamente esse número: não significa que a cabeça passe a pesar 27 kg. Trata-se de uma estimativa da força ou carga mecânica exercida sobre a região cervical em determinada postura e sob as condições do modelo utilizado.

Por isso, números como “12 kg a 15 graus”, “22 kg a 45 graus” e “27 kg a 60 graus” devem ser entendidos como estimativas biomecânicas, e não como pesos literais colocados sobre a coluna.

Quanto maior e mais prolongada a inclinação, maior pode ser a exigência mecânica sobre músculos e estruturas cervicais.

O estudo original é útil para compreender esse princípio, mas não deve ser usado para afirmar que determinada postura produzirá inevitavelmente lesões ou degeneração da coluna.

 

O que pode acontecer com o uso prolongado?

 

A exposição frequente a posturas mantidas pode contribuir para:

  • tensão e fadiga nos músculos do pescoço e dos ombros;
  • desconforto ou dor cervical;
  • rigidez e redução da mobilidade;
  • alterações na posição da cabeça em relação ao tronco;
  • sobrecarga musculoesquelética associada à permanência prolongada em uma mesma postura.

É diferente, entretanto, afirmar que o uso de celular causa diretamente hérnia de disco, “bicos de papagaio”, artrose precoce ou degeneração estrutural em jovens. Essas condições têm múltiplos fatores envolvidos, e as evidências disponíveis não permitem atribuir sua ocorrência simplesmente ao uso de smartphones.

A ciência recomenda, portanto, cautela: há evidências de associação entre uso excessivo de smartphones e dor cervical, mas associação não significa que o celular seja, isoladamente, a causa de uma determinada doença estrutural.

 

Como evitar ou reduzir essa tendência?

 

Não é necessário abandonar a tecnologia. O objetivo é utilizá-la de maneira mais consciente e diversificar as posições do corpo ao longo do dia.

1. Eleve a tela sempre que possível

Procure aproximar o celular da altura dos olhos, em vez de manter continuamente a cabeça inclinada para baixo.

Quando estiver trabalhando por períodos prolongados, especialmente em notebook, uma configuração ergonômica adequada — com tela, teclado e cadeira ajustados às características individuais — pode ajudar a reduzir posturas desconfortáveis.

2. Evite permanecer muito tempo na mesma posição

Mais importante do que obedecer rigidamente a um intervalo universal é interromper regularmente os períodos prolongados de imobilidade.

Levantar-se, caminhar alguns minutos, mudar a posição do corpo, movimentar suavemente os ombros e olhar para longe são maneiras simples de introduzir movimento na rotina.

3. Fortaleça o corpo

Exercícios regulares podem contribuir para a força, resistência e controle dos músculos envolvidos na postura. Programas de fortalecimento e exercícios específicos para a região cervical e a parte superior do tronco apresentam evidências de benefício para pessoas com dor cervical e alterações de postura.

Não existe, porém, um único exercício capaz de “colocar a coluna no lugar”. O mais importante é a prática regular e adequada às necessidades de cada pessoa.

 

E o Pilates?

 

O Pilates é um método de exercício que trabalha força, controle motor, mobilidade e consciência corporal.

Pode ser uma opção para pessoas com dor cervical, especialmente quando orientado adequadamente. Revisões sistemáticas recentes encontraram benefícios do Pilates em comparação com ausência de intervenção ou cuidados mínimos, embora não haja evidência consistente de que seja superior às demais formas de exercício.

Assim, não é necessário apresentar o Pilates como solução específica para o “pescoço tecnológico”. Ele pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de atividade física e condicionamento.

 

Como não deixar que a tecnologia nos curve

 

Mais do que procurar exercícios milagrosos, vale incorporar pequenos movimentos à rotina. A seguir, três opções simples, desde que realizadas sem dor e sem forçar os movimentos.

1. Alongamento suave do peitoral

(Para aliviar a sensação de tensão na parte anterior dos ombros e do peito)

Fique de pé ao lado de uma parede. Apoie suavemente o antebraço e a mão na parede, mantendo o cotovelo aproximadamente na altura do ombro. Gire o tronco lentamente para o lado oposto, apenas até perceber um alongamento confortável na região do peito.

Duração: cerca de 20 a 30 segundos, de cada lado, sem provocar dor.

2. Retração suave do queixo

(Para trabalhar o controle da posição da cabeça)

Olhe para a frente. Sem inclinar a cabeça para cima ou para baixo, leve suavemente o queixo para trás, como se quisesse fazer uma pequena “papada”. O movimento deve ser discreto, sem forçar o pescoço.

Mantenha por alguns segundos e relaxe.

Repetição: 8 a 10 vezes, de forma confortável.

3. Extensão torácica suave

(Para movimentar a região média das costas)

Sente-se em uma cadeira firme, com os pés apoiados no chão e as mãos cruzadas sobre o peito ou apoiadas suavemente atrás da cabeça. Mantendo o movimento confortável, incline lentamente a parte superior do tronco para trás, sem forçar o pescoço e sem projetar a cabeça para trás.

Retorne devagar à posição inicial.

Repetição: 5 a 8 vezes, respeitando a amplitude confortável.

Nenhum desses exercícios deve provocar dor, tontura, formigamento ou sensação de choque. Em caso de sintomas, interrompa o movimento.

 

Uma dica simples

 

Procure associar pequenas mudanças posturais a hábitos cotidianos: ao receber ou enviar mensagens, fazer pesquisas ou consultar conteúdos, em vez de automaticamente baixar a cabeça, experimente elevar o celular; depois de algum tempo diante da tela, levante-se e caminhe; ao trabalhar, alterne posições sempre que possível.

A melhor postura não é uma postura rígida mantida o dia inteiro. É aquela que pode variar.

 

Observe os sinais do corpo

 

Dor persistente, formigamento, perda de força, dormência, dor que se irradia para os braços ou limitação importante dos movimentos merecem avaliação de um profissional de saúde.

O objetivo não é temer a tecnologia, muito menos abandonar aquilo que ela oferece de útil. É aprender a utilizá-la sem permitir que sua presença constante determine nossos hábitos, nossa atenção — e, talvez, até a maneira como carregamos o próprio corpo.

Afinal, se fomos capazes de criar tecnologias que nos aproximam do mundo inteiro, talvez também precisemos aprender a não nos afastar de nós mesmos diante delas.

 

         ·         Veja também: https://www.instagram.com/p/DY4foGijhR6/

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