sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O CULTO JAPONÊS DA TRANQUILIDADE

 

Vivemos cercados por estímulos. As redes sociais nos convocam a todo instante.


Assista: https://www.youtube.com/watch?v=wqZQEM_8BUI&t=9s

 

Tom Simões, humanista, jornalista e divulgador científico, Santos (Brasil), 14 de agosto de 2026    

 

O vídeo aborda como aspectos da cultura japonesa lidam com o tempo, a impermanência e a finitude de forma integrada à vida.

Marco Aurélio Bilibio, psicólogo clínico e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília, atua em áreas como psicoterapia, ecopsicologia, sustentabilidade, sociedade de consumo, saúde ambiental, adoecimento coletivo e alienação. Sua abordagem tem orientação claramente fenomenológica.

Uma amiga de Bilibio postou no Facebook a seguinte mensagem: “Se a minha alma gêmea estiver passando por mim, por favor, se apresenta, porque provavelmente estarei olhando para o meu celular.”

A brincadeira revela uma realidade cada vez mais séria: vivemos submetidos a um nível inédito de estímulos tecnológicos, que disputa continuamente nossa atenção. O problema talvez não seja apenas o excesso de informação, mas aquilo que estamos deixando de perceber enquanto permanecemos distraídos.

Mantemo-nos conectados a quase tudo, mas corremos o risco de nos desconectar do que acontece diante de nós — e dentro de nós.

Estudos apontam uma reversão do chamado efeito Flynn, identificado pelo pesquisador James Flynn — com quedas no desempenho de determinadas medidas cognitivas em algumas populações ao longo das últimas décadas. Mais do que uma questão de QI (Quociente de Inteligência), porém, esse fenômeno nos convida a perguntar: o que a hiperestimulação está fazendo com a nossa capacidade de atenção, reflexão e contemplação?

Talvez seja justamente nesse ponto que uma antiga sabedoria japonesa tenha algo a nos ensinar. Em uma época que transforma velocidade em virtude e distração em hábito, o silêncio, a simplicidade e a tranquilidade podem assumir um significado quase revolucionário.

Nesse vídeo, focado na aceleração dos novos tempos, Marco Aurélio Bilibio nos convida a olhar para esse modo japonês de cultivar o silêncio, a tranquilidade, a contemplação e o equilíbrio — valores que talvez estejam se tornando cada vez mais necessários para uma existência consciente.

Não se trata de fugir do mundo, mas de aprender a habitá-lo com mais presença. Encontrar a paz não exige mudar o mundo ao redor, mas desabrochar o silêncio dentro de nós.

 

A agitação digital contemporânea

 

Vivemos cercados por estímulos. As redes sociais nos convocam a todo instante, disputando nossa atenção, preenchendo silêncios e, muitas vezes, nos afastando de nós mesmos. Nunca estivemos tão conectados — e, paradoxalmente, talvez tão distraídos.

O chamado culto japonês da tranquilidade nos lembra que uma vida verdadeiramente rica não depende da quantidade de estímulos que recebemos, mas da qualidade da atenção que dedicamos ao que vivemos.

Talvez a grande sabedoria esteja justamente em recuperar aquilo que a pressa contemporânea nos faz esquecer: o silêncio também é uma forma de conhecimento e a tranquilidade, uma sábia forma de liberdade. Ou seja, quando deixamos de ser governados pelo ruído exterior, recuperamos o governo de nós mesmos.

É possível encontrar, em diferentes aspectos da cultura japonesa, um contraponto à dispersão contemporânea e uma inspiração para compreender a tranquilidade como exercício de consciência. Nesse cenário de aceleração, essa inspiração oferece uma reflexão particularmente atual: a tranquilidade não é ausência de vida, mas presença na vida.

Talvez esteja aí uma das grandes lições para o nosso tempo: em uma sociedade que transformou a atenção em mercadoria, aprender a desacelerar antes que a velocidade nos impeça de perceber o essencial.

 

O que, afinal, merece a nossa atenção

 

A tranquilidade não significa isolamento do mundo. Significa não permitir que o mundo exterior ocupe permanentemente o espaço interior. É conseguir permanecer em silêncio sem sentir necessidade de consultar uma tela; observar sem fotografar; caminhar sem pressa; ouvir sem interromper; simplesmente estar.

O Japão nos oferece, assim, mais do que uma estética da serenidade. Oferece uma possibilidade existencial: viver com menos ruído para perceber melhor a vida.

Talvez a verdadeira tranquilidade comece quando deixamos de perguntar o que mais podemos consumir, acompanhar ou responder — e começamos a perguntar o que, afinal, merece a nossa atenção.

Porque uma mente permanentemente distraída pode estar informada sobre muita coisa, mas talvez já não consiga escutar aquilo que acontece dentro de cada um de nós.

O despertar consciente é um processo de mudança interna. Ele nos tira do modo automático da rotina e nos leva a perceber quem somos, como agimos e de que forma o mundo funciona ao nosso redor. É uma saída do sono mental para reencontrar conscientemente uma capacidade que estava adormecida: a capacidade de atribuir sentido à existência.    

 

***

 

         ·         Exemplo de um ritual oriental sagrado: https://www.youtube.com/watch?v=IZkjX_c4hm4&list=RDIZkjX_c4hm4&start_radio=1


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