Ele transformou a fé em
compromisso com a justiça e a liberdade, pagando um preço extremo por sua
resistência à repressão
Tom Simões, humanista, jornalista e
divulgador científico, Santos (Brasil), 11 de agosto de 2026
Sabe aqueles achados que
surpreendem a gente durante uma pesquisa bibliográfica para fundamentar uma
ideia? Foi assim que encontrei, não por acaso, um artigo do jornalista Fernando
Gabeira sobre Frei Tito de Alencar.
Trata-se de uma história que não pertence apenas a Gabeira ou a Frei Tito. Ela pertence à própria condição humana. Sem dizer ao leitor o que pensar, Gabeira oferece elementos para que ele pense por si mesmo. É também assim que procuro construir meus textos: a reflexão não como uma conclusão fechada, mas como uma porta aberta.
Ao ler o artigo “A
radical humanidade de Frei Tito de Alencar”, sobre o frade dominicano
cearense e um dos símbolos da resistência à ditadura militar, senti
imediatamente a necessidade de compartilhá-lo.
Gabeira lembra uma frase
que ouviu da filha, diante de um quartel dos bombeiros: “Somos bombeiros, nada
do que é humano nos é indiferente”.
A frase, aparentemente
simples, ganha uma dimensão muito mais profunda quando relacionada à trajetória
de Frei Tito. Para Gabeira, ela ajuda a compreender o drama de alguém que
sofreu a violência praticada por seres humanos contra outro ser humano — e que,
mesmo depois de libertado, continuou prisioneiro das marcas daquela
experiência.
Talvez o meu papel, como
jornalista, não seja “despertar multidões”, mas oferecer oportunidades para o
despertar consciente. A diferença é sutil, mas importante. O despertar depende
da história, da disposição e do momento de cada leitor. O que o autor pode
fazer é criar condições para que esse encontro aconteça.
“A radical humanidade de
Frei Tito de Alencar”
Por Fernando Gabeira
Gabeira conta que, certa
vez, seu carro avançava pela rua Tonelero, em Copacabana, quando sua filha
apontou para o quartel dos bombeiros. Ao ouvir a frase “Nada do que é humano
nos é indiferente”, ele lembrou que ela era muito mais antiga do que aquele quartel.
A conversa o levou
imediatamente à lembrança de Frei Tito de Alencar.
Gabeira havia sido
convidado para falar em uma missa que celebrava os 25 anos da morte do
religioso. Ele o conhecera na prisão, durante a Operação Bandeirantes, em 1970,
e testemunhara seu sofrimento.
Tito chegou a tentar
cortar os pulsos para escapar das sessões de tortura e da humilhação impostas
pelos torturadores. Para Gabeira, foi uma das experiências mais impressionantes
de sua passagem pela prisão.
Sua ligação com Frei Tito,
porém, ia além da experiência política comum, da mesma cadeia e do exílio
europeu. Gabeira confessa que sempre tentou compreender seu suicídio e jamais
conseguiu explicá-lo satisfatoriamente. Como se os fantasmas da tortura fossem
capazes de permanecer na mente muito depois de terminado o sofrimento físico.
As crises daquele
religioso o levaram a buscar uma vida simples. Plantava e colhia legumes em uma
horta, vivia em um quarto modesto e escrevia poesias ao final da jornada.
Gabeira imaginava como
explicaria à própria filha porque Frei Tito havia morrido. E encontrava naquela
frase a possível resposta: nada do que é humano era indiferente para ele.
Daí a enorme dificuldade
de conciliar a tortura e a crueldade que sofreu com a ideia de um ser humano
criado à imagem e semelhança de Deus.
E surge então uma das
passagens mais perturbadoras de seu relato: se os torturadores são humanos,
algo deles também existe em nós. A violência praticada contra outros seres
humanos passa, assim, a fazer parte da própria história.
Depois daquela experiência
radical, argumenta Gabeira, a visão que temos do ser humano nunca mais pode ser
exatamente a mesma.
Ele lembra Arthur Miller e
a pergunta, em Depois da Queda, sobre se a poesia ainda seria possível
depois dos campos de concentração. Frei Tito talvez tenha levado a questão a um
limite ainda mais doloroso: seria a própria vida possível depois da tortura?
Seus versos sugeriam que
essa possibilidade dependeria do extermínio das lembranças de um passado
sombrio.
Não apenas a metafísica,
mas também a poesia e a literatura entraram em crise diante da revelação dos
horrores dos campos de concentração. Para Gabeira, talvez algumas das respostas
encontradas para esse impasse ajudem a compreender a trajetória de Frei Tito.
De certa forma, ele
acredita que Tito encontrou uma espécie de redenção. Não uma redenção social ou
religiosa, mas aquela energia que atravessa o tempo e faz alguém, 25 anos
depois de sua morte, olhar para a própria filha e sentir necessidade de contar
histórias de pessoas como Frei Tito — e de outras figuras da resistência que
morreram no exílio ou no Brasil.
Pessoas que, de maneira
dramática, viveram radicalmente a questão enunciada no quartel dos bombeiros:
“Nada do que é humano nos é indiferente”.
É essa, talvez, a grande
força da frase: ela expressa empatia e solidariedade diante da condição humana.
Tudo aquilo que diz respeito ao ser humano — suas dores, alegrias, conflitos e
esperanças — também nos diz respeito. É uma afirmação de responsabilidade e
pertencimento, porque fazemos parte da mesma humanidade.
Fé e coragem diante da
repressão
Fernando Gabeira
participou da luta armada durante a ditadura militar, foi preso e
posteriormente exilado. Viveu cerca de dez anos no exterior, sobretudo na
Suécia, onde continuou atuando como jornalista. Retornou ao Brasil em 1979,
após a anistia.
Sua experiência foi
narrada no livro O que é isso, companheiro? publicado em 1979, uma de
suas obras mais conhecidas. Mais tarde, na vida pública, foi deputado federal
pelo Rio de Janeiro por quatro mandatos, entre 1995 e 2011. Sua trajetória
política e intelectual percorreu diferentes posições, sempre acompanhada de
atuação no jornalismo e de reflexão crítica.
Frei Tito de Alencar Lima
ingressou na Ordem dos Dominicanos em 1965 e foi ordenado sacerdote em 1967. Aluno
de Ciências Sociais da USP, participou ativamente do movimento estudantil e da
Ação Católica. Preso pela repressão política, foi submetido a severas sessões
de tortura. E libertado e banido do país em dezembro de 1970, seguindo
posteriormente para o exílio na França.
“São noites de silêncio,
vozes que clamam num espaço infinito. Um silêncio do homem e um silêncio de
Deus. As provas das torturas trazemos no corpo”, escreveu ele.
Profundamente marcado
pelos traumas da tortura, Frei Tito morreu no exílio, na França, em agosto de
1974, aos 28 anos. Sua trajetória tornou-se um dos símbolos da violência da
ditadura e da resistência em defesa da dignidade humana.
Foi um religioso que
transformou sua fé em compromisso com a justiça e a liberdade, pagando um preço
extremo por sua resistência à repressão política. E talvez seja justamente por
isso que sua história continue nos interpelando.
Como escreveu Fernando
Gabeira: “Nós éramos prisioneiros dos militares, mas, num certo
sentido, éramos também prisioneiros de nossa lógica”.
A história de Frei Tito
nos convida a ir além da lembrança de um período sombrio da história
brasileira. Ela nos coloca diante de uma pergunta maior e incômoda: o que
fazemos, hoje, diante da dor e da injustiça que atingem outros seres humanos?
Porque, no fundo, talvez
seja esse o sentido mais profundo daquela frase: “Nada do que é humano nos é
indiferente”.
***
Referência: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq02089921.htm, artigo de Fernando
Gabeira na Folha de S.Paulo.

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