terça-feira, 11 de agosto de 2026

FREI TITO DE ALENCAR

 

Ele transformou a fé em compromisso com a justiça e a liberdade, pagando um preço extremo por sua resistência à repressão



Tom Simões, humanista, jornalista e divulgador científico, Santos (Brasil), 11 de agosto de 2026    

 

Sabe aqueles achados que surpreendem a gente durante uma pesquisa bibliográfica para fundamentar uma ideia? Foi assim que encontrei, não por acaso, um artigo do jornalista Fernando Gabeira sobre Frei Tito de Alencar.

Trata-se de uma história que não pertence apenas a Gabeira ou a Frei Tito. Ela pertence à própria condição humana. Sem dizer ao leitor o que pensar, Gabeira oferece elementos para que ele pense por si mesmo. É também assim que procuro construir meus textos: a reflexão não como uma conclusão fechada, mas como uma porta aberta.

Ao ler o artigo “A radical humanidade de Frei Tito de Alencar”, sobre o frade dominicano cearense e um dos símbolos da resistência à ditadura militar, senti imediatamente a necessidade de compartilhá-lo.

Gabeira lembra uma frase que ouviu da filha, diante de um quartel dos bombeiros: “Somos bombeiros, nada do que é humano nos é indiferente”.

A frase, aparentemente simples, ganha uma dimensão muito mais profunda quando relacionada à trajetória de Frei Tito. Para Gabeira, ela ajuda a compreender o drama de alguém que sofreu a violência praticada por seres humanos contra outro ser humano — e que, mesmo depois de libertado, continuou prisioneiro das marcas daquela experiência.

Talvez o meu papel, como jornalista, não seja “despertar multidões”, mas oferecer oportunidades para o despertar consciente. A diferença é sutil, mas importante. O despertar depende da história, da disposição e do momento de cada leitor. O que o autor pode fazer é criar condições para que esse encontro aconteça.

 

“A radical humanidade de Frei Tito de Alencar”

Por Fernando Gabeira

 

Gabeira conta que, certa vez, seu carro avançava pela rua Tonelero, em Copacabana, quando sua filha apontou para o quartel dos bombeiros. Ao ouvir a frase “Nada do que é humano nos é indiferente”, ele lembrou que ela era muito mais antiga do que aquele quartel.

A conversa o levou imediatamente à lembrança de Frei Tito de Alencar.

Gabeira havia sido convidado para falar em uma missa que celebrava os 25 anos da morte do religioso. Ele o conhecera na prisão, durante a Operação Bandeirantes, em 1970, e testemunhara seu sofrimento.

Tito chegou a tentar cortar os pulsos para escapar das sessões de tortura e da humilhação impostas pelos torturadores. Para Gabeira, foi uma das experiências mais impressionantes de sua passagem pela prisão.

Sua ligação com Frei Tito, porém, ia além da experiência política comum, da mesma cadeia e do exílio europeu. Gabeira confessa que sempre tentou compreender seu suicídio e jamais conseguiu explicá-lo satisfatoriamente. Como se os fantasmas da tortura fossem capazes de permanecer na mente muito depois de terminado o sofrimento físico.

As crises daquele religioso o levaram a buscar uma vida simples. Plantava e colhia legumes em uma horta, vivia em um quarto modesto e escrevia poesias ao final da jornada.

Gabeira imaginava como explicaria à própria filha porque Frei Tito havia morrido. E encontrava naquela frase a possível resposta: nada do que é humano era indiferente para ele.

Daí a enorme dificuldade de conciliar a tortura e a crueldade que sofreu com a ideia de um ser humano criado à imagem e semelhança de Deus.

E surge então uma das passagens mais perturbadoras de seu relato: se os torturadores são humanos, algo deles também existe em nós. A violência praticada contra outros seres humanos passa, assim, a fazer parte da própria história.

Depois daquela experiência radical, argumenta Gabeira, a visão que temos do ser humano nunca mais pode ser exatamente a mesma.

Ele lembra Arthur Miller e a pergunta, em Depois da Queda, sobre se a poesia ainda seria possível depois dos campos de concentração. Frei Tito talvez tenha levado a questão a um limite ainda mais doloroso: seria a própria vida possível depois da tortura?

Seus versos sugeriam que essa possibilidade dependeria do extermínio das lembranças de um passado sombrio.

Não apenas a metafísica, mas também a poesia e a literatura entraram em crise diante da revelação dos horrores dos campos de concentração. Para Gabeira, talvez algumas das respostas encontradas para esse impasse ajudem a compreender a trajetória de Frei Tito.

De certa forma, ele acredita que Tito encontrou uma espécie de redenção. Não uma redenção social ou religiosa, mas aquela energia que atravessa o tempo e faz alguém, 25 anos depois de sua morte, olhar para a própria filha e sentir necessidade de contar histórias de pessoas como Frei Tito — e de outras figuras da resistência que morreram no exílio ou no Brasil.

Pessoas que, de maneira dramática, viveram radicalmente a questão enunciada no quartel dos bombeiros: “Nada do que é humano nos é indiferente”.

É essa, talvez, a grande força da frase: ela expressa empatia e solidariedade diante da condição humana. Tudo aquilo que diz respeito ao ser humano — suas dores, alegrias, conflitos e esperanças — também nos diz respeito. É uma afirmação de responsabilidade e pertencimento, porque fazemos parte da mesma humanidade.

 

Fé e coragem diante da repressão

 

Fernando Gabeira participou da luta armada durante a ditadura militar, foi preso e posteriormente exilado. Viveu cerca de dez anos no exterior, sobretudo na Suécia, onde continuou atuando como jornalista. Retornou ao Brasil em 1979, após a anistia.

Sua experiência foi narrada no livro O que é isso, companheiro? publicado em 1979, uma de suas obras mais conhecidas. Mais tarde, na vida pública, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro por quatro mandatos, entre 1995 e 2011. Sua trajetória política e intelectual percorreu diferentes posições, sempre acompanhada de atuação no jornalismo e de reflexão crítica.

Frei Tito de Alencar Lima ingressou na Ordem dos Dominicanos em 1965 e foi ordenado sacerdote em 1967. Aluno de Ciências Sociais da USP, participou ativamente do movimento estudantil e da Ação Católica. Preso pela repressão política, foi submetido a severas sessões de tortura. E libertado e banido do país em dezembro de 1970, seguindo posteriormente para o exílio na França.

“São noites de silêncio, vozes que clamam num espaço infinito. Um silêncio do homem e um silêncio de Deus. As provas das torturas trazemos no corpo”, escreveu ele.

 

Profundamente marcado pelos traumas da tortura, Frei Tito morreu no exílio, na França, em agosto de 1974, aos 28 anos. Sua trajetória tornou-se um dos símbolos da violência da ditadura e da resistência em defesa da dignidade humana.

Foi um religioso que transformou sua fé em compromisso com a justiça e a liberdade, pagando um preço extremo por sua resistência à repressão política. E talvez seja justamente por isso que sua história continue nos interpelando.

Como escreveu Fernando Gabeira: “Nós éramos prisioneiros dos militares, mas, num certo sentido, éramos também prisioneiros de nossa lógica”.

A história de Frei Tito nos convida a ir além da lembrança de um período sombrio da história brasileira. Ela nos coloca diante de uma pergunta maior e incômoda: o que fazemos, hoje, diante da dor e da injustiça que atingem outros seres humanos?

Porque, no fundo, talvez seja esse o sentido mais profundo daquela frase: “Nada do que é humano nos é indiferente”.

 

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Referência: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq02089921.htm, artigo de Fernando Gabeira na Folha de S.Paulo. 

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