quarta-feira, 27 de agosto de 2025

A RAIVA PODE PASSAR... LOGO

 Como acolher essa emoção negativa com ‘atenção consciente’  




Tom Simões, jornalista, Santos (Brasil), 26 de agosto de 2025


Em algum momento, todos nós experimentamos essa emoção intensa. A raiva não é apenas uma emoção negativa, mas também uma oportunidade para desenvolver nossa espiritualidade e aprofundar as relações consigo mesmo e com os outros.

Em termos de nossas emoções, a raiva é como uma onda que pode nos envolver de maneira intensa e surpreendente. Trata-se de uma resposta natural a situações que percebemos como ameaçadoras, injustas ou frustrantes. Ela pode se manifestar de várias formas, desde um ligeiro desconforto até uma fúria incontrolável.

A raiva é uma emoção primordial que está enraizada em nossa biologia. Quando nos sentimos desafiados, nosso corpo libera hormônios do estresse, como a adrenalina, que nos prepara para a ação. Nosso coração dispara, os músculos ficam tensos e os sentidos se aguçam. É uma reação de luta ou fuga, gerando energia para enfrentar o que nos incomoda.

“Em nossa consciência, existem blocos de dor, raiva e frustração, designados de formações internas ou ‘nós’, pois nos amarram e obstruem nossa liberdade”, escreve Thich Nhat Hanh, em seu livro Raiva – Sabedoria para Abrandar as Chamas, que acabo de ler.

Thich Nhat Hanh, 1926-2022, foi um monge budista e ativista da paz e dos direitos humanos, escritor e poeta. Nasceu no Vietnã, mas viveu no exílio desde 1966, numa comunidade de meditação, Plum Vitage, que ele fundou na França. Juntou-se aos monges aos 16 anos de idade.

Quando alguém nos insulta, ou faz algo indelicado conosco, cria-se uma formação interna em nossa consciência. Se a gente não souber desfazer o nó interno e transformá-lo, o ‘nó’ permanece ali por muito tempo. E na próxima vez que alguém agir assim conosco, aquela formação interna se fortalece. As nossas formações internas, enquanto ‘nós’ ou blocos de dor internos, têm o poder de nos empurrar e ditar o nosso comportamento, aborda o livro.

Depois de um tempo, torna-se muito difícil transformar e desfazer esses ‘nós’, e então não conseguimos aliviar a pressão da raiva cristalizada. Cada um de nós tem formações internas que precisam de cuidados. Com a prática da meditação, por exemplo, podemos desfazer esses ‘nós’ e experimentar transformação e cura.

No momento que surge, a raiva precisa de tempo para retroceder. Mesmo que a gente tenha uma evidência inquestionável capaz de convencer alguém de que a raiva do outro esteja embasada numa percepção equivocada, por favor, não intervenha imediatamente. Tal como o anseio, o ciúme e todas as aflições, a raiva precisa de tempo para se acalmar. Isso acontece, mesmo depois daquela pessoa perceber que distorceu a situação. “Quando o ventilador é desligado, continua a girar algumas vezes antes de parar. A raiva é assim. Não espere que a outra pessoa elimine imediatamente sua irritação. Isso não é realista. É preciso deixar que a raiva se aquiete lentamente. Então não tenha pressa. Somos muito capazes de cuidar da nossa raiva”, admite Thich, sabiamente.   

Nem todas as formações internas são desagradáveis. Existem também formações internas prazerosas, mas que ainda podem nos fazer sofrer. Quando a gente sente o sabor, ouve ou vê algo aprazível, aquele prazer pode se transformar em um forte nó interno. Quando o objeto do prazer desaparece, a gente sente falta e sai em busca dele. E então consumimos muito tempo e energia tentando revivê-lo novamente.

Fumar maconha ou beber bebida alcoólica, e começar a gostar, isso se transforma numa formação interna no corpo e mente. A gente não consegue apagar da mente. Sempre irá buscar mais. A força do nó interno obriga e controla. Por isso, nossas formações internas comprometem nossa liberdade. Apaixonar-se é outra formação interna. Ao se apaixonar, só se pensa na outra pessoa.

 

“NÃO DEIXE AS PESSOAS LHE COLOCAREM NA TEMPESTADE DELAS. COLOQUE-AS NA SUA PAZ”.  Buda



Acolhendo a raiva com atenção consciente

Como nos faz sofrer, tentamos ao máximo se livrar da raiva. É preciso então tratá-la com ternura, ensina o mestre Thich Nhat Hanh. “Atenção consciente não luta contra raiva ou desespero. Atenção consciente está presente para reconhecer. Estar atento e consciente de algo significa reconhecer que algo existe no momento. ‘Inspirando, eu sei que a raiva se manifestou em mim; expirando, eu sorrio para minha raiva’. Este não é um ato repressivo ou de combate, é um ato de reconhecimento. Uma vez que tenhamos reconhecido nossa raiva, nós a envolvemos com muita atenção e ternura”.

A energia da atenção consciente é a energia de Buda. A raiva pode continuar por algum tempo, mas a gente está fora de perigo, porque Buda está ali, ajudando a cuidar bem da nossa irritação. A capacidade de ser consciente, atento, compreensivo, amoroso e cuidadoso traduz-se no nosso Buda interno. Toda vez que somos capazes de gerar atenção consciente, nosso Buda interno se torna uma realidade.

Perguntaram ao Buda: “O que você ganhou com a meditação?”. Ele respondeu: “Nada. Mas deixe-me dizer o que perdi: ansiedade, raiva, depressão, insegurança, medo da velhice e da morte”.

É importante reconhecer que nosso Buda interno está sempre disponível. Mesmo se estivermos furiosos, sendo indelicados ou em desespero. Isso significa que sempre temos o potencial de ser atentos e conscientes, compreensivos e amorosos.

Thich exemplifica: “Quando está frio no quarto, a gente liga o aquecedor e o aquecedor começa a enviar ondas de ar quente. O ar frio não precisa sair do quarto para o quarto ficar morno. O ar frio é envolvido pelo ar quente e o quarto fica morno – não há luta, de forma alguma, entre ambos”. Praticamos da mesma forma ao cuidar da nossa raiva. A atenção consciente reconhece a raiva; e ciente da sua presença, aceita e permite que ela esteja ali.

Imagine uma mãe se enraivecendo do bebê dela e batendo nele quando chora. A mãe não sabe que ela e seu bebê são um. Nós somos mães da nossa raiva, e temos que ajudar nosso bebê, nossa raiva, mas não combater ou destruí-la. NOSSA RAIVA SOMOS NÓS, COMO TAMBÉM É NOSSA COMPAIXÃO. Meditar não significa lutar contra. No budismo, a prática de meditação deve ser a prática de ACOLHER E TRANSFORMAR, não de lutar contra. 

Então, quando a raiva surgir, devemos praticar imediatamente, respirando de modo atento e consciente: “Inspirando, eu sei que a raiva está em mim. Expirando, estou cuidando muito bem da minha raiva”. Nós nos comportamos exatamente como uma mãe. Esta é a prática da compaixão. Essa energia permite que a gente reconheça e acolha os sentimentos dolorosos. Também podemos ajudar os outros com a energia da nossa atenção consciente, quando estiverem em dificuldades.

 


 
Você pode sobreviver à tempestade: relaxamento profundo acolhe e cura a raiva

Quando somos arrastados por uma intensa emoção, como medo ou raiva, a prática é trazer nossa atenção para a região abdominal inferior. Permanecer no nível da inteligência é perigoso. As emoções aflitivas são como uma tempestade, e é muito perigoso permanecer no meio dela. Como explica Thich Nhat, isso é o que a maioria de nós fazemos ao ficar no nível mental permitindo que os sentimentos nos dominem. “Em vez disso, temos que nos enraizar trazendo a atenção para baixo. Focamos em nosso abdômen e respiramos atenta e conscientemente, dando toda nossa atenção ao subir e descer da barriga. Podemos desenvolver essa prática sentados ou deitados”, orienta o mestre.

Todos têm uma semente de raiva nas profundezas da sua consciência. A raiva pode não estar manifesta, mas permanece na consciência armazenadora. Se alguém fizer algo ou disser algo que toque a semente, a raiva se manifesta rapidamente.

Assim, a atenção consciente reconhece, acolhe, alivia e transforma. E nos ajuda a contemplar profundamente para obter discernimento. O discernimento é o elemento libertador que permite que a transformação aconteça. Esta é a prática budista de cuidar da raiva.

  

O silêncio como mecanismo de defesa emocional 

Do ponto de vista da psicologia, há quem escolha silenciar para evitar conflitos. Calar-se pode servir como mecanismo de defesa emocional para levar a pessoa raivosa à reflexão, por conta de uma ação ofensiva imprópria. Importa optar pelo silêncio sem sofrimento, como forma de beneficiar a relação entre ambos.

A mente consciente utiliza esse recurso para evitar reações impulsivas, prevenindo discussões mais intensas. O comportamento silencioso pode servir como uma tentativa de autorregulação, preservando o controle emocional diante de um estímulo que gera desconforto. Verbalizar a raiva pode resultar em mágoas permanentes ou prejudicar relações importantes.




Especialistas em saúde mental indicam que o silêncio pode ser uma forma de processar produtivamente tal ação ofensiva, dando tempo para a reflexão do outro e evitando respostas das quais se possa arrepender depois. Pessoas raivosas podem esconder traumas e sentimentos reprimidos, por exemplo. Ataques de raiva são sinais de que algo precisa ser ressignificado dentro de nós.

“Ganhamos a vitória por nós e por todos aqueles que amamos. Quando perdemos, nós e nossos amados perdem. Mas quando somos vitoriosos, vencemos pela outra pessoa também. Então, mesmo que a outra pessoa não conheça a prática, podemos praticar por nós mesmos e por ele ou ela. Não espere a outra pessoa começar a praticar para começar a praticar. Você pode praticar por vocês dois”, revela o monge.  

Nos ensinamentos de Buda: “A vida é um eco. Se você não está gostando do que está recebendo, observe o que está emitindo”. Se a gente não viver concentrado e consciente, se não viver cada momento da vida cotidiana de maneira profunda, a gente não conseguirá produzir algo de valor para oferecer aos outros.

 

           ·        Outras referências: https://www.indicedesaude.com/raiva-o-que-e-sintomas-causas-e-tratamento/

https://www.uai.com.br/uainoticias/2025/07/10/o-que-significa-o-silencio-quando-alguem-esta-com-raiva-segundo-a-psicologia/

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar mais facilmente, ao clicar em “Comentar como – Selecionar Perfil”, selecione NOME/URL. Após fazer a seleção, digite seu NOME e, em URL (preenchimento opcional), coloque o endereço do seu site.