Como acolher essa emoção negativa com ‘atenção consciente’
Em algum momento, todos
nós experimentamos essa emoção intensa. A raiva não é apenas uma emoção
negativa, mas também uma oportunidade para desenvolver nossa espiritualidade e
aprofundar as relações consigo mesmo e com os outros.
Em termos de nossas emoções, a raiva é como uma onda que pode nos envolver de maneira intensa e surpreendente. Trata-se de uma resposta natural a situações que percebemos como ameaçadoras, injustas ou frustrantes. Ela pode se manifestar de várias formas, desde um ligeiro desconforto até uma fúria incontrolável.
A raiva é uma
emoção primordial que está enraizada em nossa biologia. Quando nos sentimos
desafiados, nosso corpo libera hormônios do estresse, como a adrenalina, que
nos prepara para a ação. Nosso coração dispara, os músculos ficam tensos e os
sentidos se aguçam. É uma reação de luta ou fuga, gerando energia para
enfrentar o que nos incomoda.
“Em nossa consciência, existem
blocos de dor, raiva e frustração, designados de formações internas ou ‘nós’,
pois nos amarram e obstruem nossa liberdade”, escreve Thich Nhat Hanh,
em seu livro Raiva – Sabedoria para Abrandar as Chamas, que acabo de
ler.
Thich Nhat Hanh, 1926-2022, foi um monge
budista e ativista da paz e dos direitos humanos, escritor e poeta. Nasceu no
Vietnã, mas viveu no exílio desde 1966, numa comunidade de meditação, Plum
Vitage, que ele fundou na França. Juntou-se aos monges aos 16 anos de
idade.
Quando alguém nos insulta, ou faz
algo indelicado conosco, cria-se uma formação interna em nossa consciência. Se
a gente não souber desfazer o nó interno e transformá-lo, o ‘nó’ permanece ali
por muito tempo. E na próxima vez que alguém agir assim conosco, aquela
formação interna se fortalece. As nossas formações internas, enquanto ‘nós’ ou
blocos de dor internos, têm o poder de nos empurrar e ditar o nosso
comportamento, aborda o livro.
Depois de um tempo, torna-se
muito difícil transformar e desfazer esses ‘nós’, e então não conseguimos
aliviar a pressão da raiva cristalizada. Cada um de nós tem formações internas
que precisam de cuidados. Com a prática da meditação, por exemplo, podemos
desfazer esses ‘nós’ e experimentar transformação e cura.
No momento que surge, a raiva precisa de tempo para
retroceder. Mesmo que a gente tenha uma evidência inquestionável capaz de
convencer alguém de que a raiva do outro esteja embasada numa percepção
equivocada, por favor, não intervenha imediatamente. Tal como o anseio, o ciúme
e todas as aflições, a raiva precisa de tempo para se acalmar. Isso acontece,
mesmo depois daquela pessoa perceber que distorceu a situação. “Quando o
ventilador é desligado, continua a girar algumas vezes antes de parar. A raiva
é assim. Não espere que a outra pessoa elimine imediatamente sua irritação.
Isso não é realista. É preciso deixar que a raiva se aquiete lentamente. Então
não tenha pressa. Somos muito capazes de cuidar da nossa raiva”, admite Thich,
sabiamente.
Nem todas as formações internas são desagradáveis.
Existem também formações internas prazerosas, mas que ainda podem nos fazer
sofrer. Quando a gente sente o sabor, ouve ou vê algo aprazível, aquele prazer
pode se transformar em um forte nó interno. Quando o objeto do prazer
desaparece, a gente sente falta e sai em busca dele. E então consumimos muito
tempo e energia tentando revivê-lo novamente.
Fumar maconha ou beber bebida alcoólica, e começar a
gostar, isso se transforma numa formação interna no corpo e mente. A gente não
consegue apagar da mente. Sempre irá buscar mais. A força do nó interno obriga
e controla. Por isso, nossas formações internas comprometem nossa liberdade. Apaixonar-se
é outra formação interna. Ao se apaixonar, só se pensa na outra pessoa.
“NÃO DEIXE AS PESSOAS LHE COLOCAREM NA
TEMPESTADE DELAS. COLOQUE-AS NA SUA PAZ”. Buda
Acolhendo a raiva com atenção consciente
Como nos faz sofrer, tentamos ao máximo se livrar da
raiva. É preciso então tratá-la com ternura, ensina o mestre Thich Nhat Hanh.
“Atenção consciente não luta contra raiva ou desespero. Atenção consciente está
presente para reconhecer. Estar atento e consciente de algo significa
reconhecer que algo existe no momento. ‘Inspirando, eu sei que a raiva se
manifestou em mim; expirando, eu sorrio para minha raiva’. Este não é um ato
repressivo ou de combate, é um ato de reconhecimento. Uma vez que tenhamos
reconhecido nossa raiva, nós a envolvemos com muita atenção e ternura”.
A energia da atenção consciente é a energia de Buda.
A raiva pode continuar por algum tempo, mas a gente está fora de perigo, porque
Buda está ali, ajudando a cuidar bem da nossa irritação. A capacidade de
ser consciente, atento, compreensivo, amoroso e cuidadoso traduz-se no nosso Buda
interno. Toda vez que somos capazes de gerar atenção consciente, nosso Buda
interno se torna uma realidade.
Perguntaram ao Buda: “O que você ganhou com a
meditação?”. Ele respondeu: “Nada. Mas deixe-me dizer o que perdi: ansiedade,
raiva, depressão, insegurança, medo da velhice e da morte”.
É importante reconhecer que nosso Buda interno
está sempre disponível. Mesmo se estivermos furiosos, sendo indelicados ou em
desespero. Isso significa que sempre temos o potencial de ser atentos e
conscientes, compreensivos e amorosos.
Thich exemplifica:
“Quando está frio no quarto, a gente liga o aquecedor e o aquecedor começa a
enviar ondas de ar quente. O ar frio não precisa sair do quarto para o quarto
ficar morno. O ar frio é envolvido pelo ar quente e o quarto fica morno – não
há luta, de forma alguma, entre ambos”. Praticamos da mesma forma ao cuidar da
nossa raiva. A atenção consciente reconhece a raiva; e ciente da sua presença,
aceita e permite que ela esteja ali.
Imagine uma mãe se enraivecendo do bebê dela e
batendo nele quando chora. A mãe não sabe que ela e seu bebê são um. Nós somos
mães da nossa raiva, e temos que ajudar nosso bebê, nossa raiva, mas não
combater ou destruí-la. NOSSA RAIVA SOMOS NÓS, COMO TAMBÉM É NOSSA COMPAIXÃO. Meditar
não significa lutar contra. No budismo, a prática de meditação deve ser a
prática de ACOLHER E TRANSFORMAR, não de lutar contra.
Então, quando a raiva surgir, devemos praticar
imediatamente, respirando de modo atento e consciente: “Inspirando, eu sei que
a raiva está em mim. Expirando, estou cuidando muito bem da minha raiva”. Nós
nos comportamos exatamente como uma mãe. Esta é a prática da compaixão. Essa
energia permite que a gente reconheça e acolha os sentimentos dolorosos. Também
podemos ajudar os outros com a energia da nossa atenção consciente, quando
estiverem em dificuldades.
Quando somos arrastados por uma intensa emoção, como
medo ou raiva, a prática é trazer nossa atenção para a região abdominal
inferior. Permanecer no nível da inteligência é perigoso. As emoções aflitivas
são como uma tempestade, e é muito perigoso permanecer no meio dela. Como
explica Thich Nhat, isso é o que a maioria de nós fazemos ao ficar no
nível mental permitindo que os sentimentos nos dominem. “Em vez disso, temos
que nos enraizar trazendo a atenção para baixo. Focamos em nosso abdômen e
respiramos atenta e conscientemente, dando toda nossa atenção ao subir e descer
da barriga. Podemos desenvolver essa prática sentados ou deitados”, orienta o
mestre.
Todos têm uma semente de raiva nas profundezas da sua
consciência. A raiva pode não estar manifesta, mas permanece na consciência
armazenadora. Se alguém fizer algo ou disser algo que toque a semente, a raiva
se manifesta rapidamente.
Assim, a atenção consciente reconhece, acolhe, alivia
e transforma. E nos ajuda a contemplar profundamente para obter discernimento.
O discernimento é o elemento libertador que permite que a transformação
aconteça. Esta é a prática budista de cuidar da raiva.
O silêncio como mecanismo de defesa
emocional
Do ponto de vista da
psicologia, há quem escolha silenciar para evitar conflitos. Calar-se pode
servir como mecanismo de defesa emocional para levar a pessoa raivosa à reflexão,
por conta de uma ação ofensiva imprópria. Importa optar pelo silêncio sem
sofrimento, como forma de beneficiar a relação entre ambos.
A mente consciente utiliza esse recurso para evitar reações impulsivas, prevenindo discussões mais intensas. O comportamento silencioso pode servir como uma tentativa de autorregulação, preservando o controle emocional diante de um estímulo que gera desconforto. Verbalizar a raiva pode resultar em mágoas permanentes ou prejudicar relações importantes.
Especialistas
em saúde mental indicam que o silêncio pode ser uma forma de
processar produtivamente tal ação ofensiva, dando tempo para a reflexão do
outro e evitando respostas das quais se possa arrepender depois. Pessoas
raivosas podem esconder traumas e sentimentos reprimidos, por exemplo. Ataques
de raiva são sinais de que algo precisa ser ressignificado dentro de nós.
“Ganhamos a vitória por nós e por todos aqueles que
amamos. Quando perdemos, nós e nossos amados perdem. Mas quando somos
vitoriosos, vencemos pela outra pessoa também. Então, mesmo que a outra pessoa
não conheça a prática, podemos praticar por nós mesmos e por ele ou ela. Não
espere a outra pessoa começar a praticar para começar a praticar. Você pode
praticar por vocês dois”, revela o monge.
Nos ensinamentos de Buda: “A vida é um eco. Se
você não está gostando do que está recebendo, observe o que está emitindo”. Se
a gente não viver concentrado e consciente, se não viver cada momento da vida
cotidiana de maneira profunda, a gente não conseguirá produzir algo de valor
para oferecer aos outros.
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Outras
referências: https://www.indicedesaude.com/raiva-o-que-e-sintomas-causas-e-tratamento/
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