terça-feira, 26 de junho de 2018

Ana Claudia Quintana Arantes


Autora do livro: ‘A morte é um dia que vale a pena viver’ – e um excelente motivo para se buscar um novo olhar para a vida  


Médica, formada pela USP, com residência em geriatria e gerontologia. Uma das maiores referências sobre Cuidados Paliativos no Brasil. Fez pós-graduação em psicologia – Intervenções em Luto (Instituto 4 Estações de Psicologia) e especialização em Cuidados Paliativos (Instituto Pallium e Universidade de Oxford). Trabalhou em uma unidade de Cuidados Paliativos, exclusiva do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.






VOU CITAR aqui vários trechos desta valiosa obra, cuja abordagem considero indispensável à vida!
É claro que a síntese não substitui a leitura completa do livro. Nele, há um detalhamento precioso. Vai aqui a sugestão de presente a uma pessoa que sofre com a morte de alguém, à família de um doente, a um médico, a alguém interessado em buscar a essência da natureza humana...    
·         Tom Simões 




Eis as produtivas lições da doutora Ana Claudia:



SOU UMA dessas pessoas que têm a sensação de estar perto dos amigos diante do mural do Facebook. Faço bom uso dessa ferramenta e aproveito muito qualquer tempo que posso compartilhar com pessoas tão queridas, mas distantes.”





AINDA ASSIM, penso que estar com os amigos é vital. Com eles construímos relações mais honestas e transparentes, algo que nem sempre é possível viver com a família. E é com os amigos que temos a chance de dizer: ‘Não gostei do que você fez', e ficar bem, porque eles suportarão a crítica. Quando estamos com os amigos, queremos que nossas opções e sentimentos sejam respeitados, e assim é. As pessoas da nossa família nem sempre são as mais agradáveis do mundo, com quem você anseia conviver. Contamos nos dedos as pessoas que gostam de passar o Natal entre parentes. Muita gente faz isso por obrigação, sem prazer, sem alegria.”





SOU uma médica muito privilegiada porque trabalho em dois extremos: em um consultório que fica dentro do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde conheço pacientes com boa condição socioeconômica; e no Hospice, ligado ao Hospital das Clínicas, também em São Paulo, onde recebo pessoas que podem chegar em condições bastante precárias – moradores de rua passam pelos meus cuidados. São dois extremos na cidade, mas uma única realidade: seres humanos doentes que podem estar bem perto da morte. Está claro para mim que o sofrimento humano não escolhe bolso nem número de diplomas, carimbos nem passaportes, pratos cheios ou vazios ou quantidade de livros na estante. Quando falamos da expressão do sofrimento, as questões que o motivam são exatamente as mesmas.”








Ana Claudia nos traz uma surpreendente reflexão sobre o tema. Segundo a autora, o que deveria nos assustar não é a morte em si, mas a possibilidade de chegarmos ao fim da vida sem aproveitá-la, de não usarmos nosso tempo da maneira que gostaríamos.
A morte é um dia que vale a pena viver é um livro que nos faz repensar a nossa existência, que nos incentiva a cultivar relações positivas, a ter hábitos saudáveis sem deixar de fazer o que temos vontade. Uma reflexão fundamental para os dias de hoje, tempo em que vivemos com a sensação permanente de que estamos deixando a vida escorrer entre os dedos.”
·         contracapa do livro


  


 A ÚNICA certeza que temos na vida é de que vamos morrer um dia. Quem nunca ouviu essa frase? É uma afirmação realista, mas que assusta muitas pessoas. Pensar na morte é algo que gera medo e insegurança, principalmente para aqueles que não carregam uma crença sobre o que acontece depois que essa hora chega.”





 EU VEJO as coisas de um jeito que a maioria não se permite ver. Mas tenho tido várias oportunidades de capturar a atenção de pessoas interessadas em mudar de posição, de ponto de vista. Algumas apenas podem mudar, outras precisam; o que nos une é o querer. Desejar ver a vida de outra forma, seguir outro caminho, pois a vida é breve e precisa de valor, sentido e significado. E a morte é um excelente motivo para buscar um novo olhar para a vida.
[...] Cada um de nós está presente na própria vida e na vida de quem amamos. Presente não apenas fisicamente, mas presente com nosso tempo, nosso movimento. Só nessa presença é que a morte não é o fim.
Quase todo mundo pensa que a norma é fugir da realidade da morte. Mas a verdade é que a morte é uma ponte para a vida. Despratique as normas.”





PARA boa parte de nós, a morte é provavelmente o maior de todos os medos. Mas e se a grande questão envolvendo a morte for, na verdade, a vida? Estamos aproveitando nossos dias ou vamos chegar ao fim desta jornada cheios de arrependimentos sobre coisas que fizemos – ou, pior, que deixamos de fazer? De maneira clara e suave, Ana Claudia nos ajuda a ter um novo olhar sobre o modo como gastamos o nosso tempo e sobre a nossa ideia acerca da vida e da morte.”
·     contracapa do livro





COMO Nietzsche, eu também acreditava que o Homem tolera qualquer ‘como’ se tiver um ‘porquê’.”





DIANTE de uma doença grave e incurável, as pessoas entram em sofrimento desde o diagnóstico. A morte anunciada traz a possibilidade de um encontro veloz com o sentido da sua vida, mas traz também a angústia de talvez não ter tempo suficiente para a tal experiência de descobrir esse sentido. Os Cuidados Paliativos oferecem, então, não apenas a possibilidade de suspender tratamentos considerados fúteis, mas a realidade tangível de ampliação da assistência oferecida por uma equipe que pode cuidar dos sofrimentos físicos, sintomas da progressão da doença ou das sequelas de tratamentos agressivos que foram necessários no tratamento ou no controle da doença grave e incurável.”





O SOFRIMENTO emocional é muito intenso. Nele, o doente toma consciência de sua mortalidade. Essa consciência o leva à busca de sentido de sua existência. Sempre digo que medicina é fácil. Chega a ser até simples demais perto da complexidade do mundo da psicologia. No exame físico, consigo avaliar quase todos os órgãos internos de um paciente. Com alguns exames laboratoriais e de imagem, posso deduzir com muita precisão o funcionamento dos sistemas vitais. Mas, observando um ser humano, seja ele quem for, não consigo saber onde fica sua paz. Ou quanta culpa corre em suas veias, junto com seu colesterol. Ou quanto medo há em seus pensamentos, ou mesmo se estão intoxicados de solidão e abandono.”








PRECISO oferecer o melhor do meu conhecimento técnico junto com o melhor que tenho dentro de mim, como ser humano. Jamais poderei dizer que alcancei o máximo da minha humanidade, mas sei o tamanho do compromisso que firmei comigo mesma para desenvolver esse olhar atento e raro todos os dias. E é isso que me permite adormecer em paz todas as noites.”





Só conseguiremos pensar sobre o sentido da vida,  
se a dor passar...




MEU PAPEL como médica é tratar o sofrimento físico com todos os recursos disponíveis. Se a falta de ar passar, se qualquer desconforto físico intenso passar, haverá tempo e espaço para a vida se manifestar. Muitas vezes, diante do alívio do sofrimento físico, o que aparece em seguida é a expressão de outros sofrimentos, como o emocional e o espiritual. A família fica aliviada ao perceber o conforto físico, mas então aparece a necessidade de falar sobre o que falta na vida. Virá o momento de pensar nas famosas ‘pendências’...





ENQUANTO as pessoas não olharem para a morte com a honestidade de perguntar a ela o que há de mais importante sobre a vida, ninguém terá a chance de saber a resposta. O problema é que caminhamos ao lado de pessoas que pensam que são eternas. Por causa dessa ilusão, vivem suas vidas de modo irresponsável, sem compromisso com o bom, o belo e o verdadeiro, distanciadas da própria essência.”





E É só pela consciência da morte que nos apressamos em construir esse ser que deveríamos ser.”





CHEGA uma hora em que nos preocupamos em fazer check-up, em perder a barriga, em tomar conta da vida dos filhos. Pensar na morte faz com que pensemos que é preciso fazer alguma coisa. Outro grave engano: vamos nos distanciando do ‘ser’ pelo caminho do ‘fazer’. Pensamos então que uma vida boa é uma vida que nos leva a ter coisas e a fazer coisas. Mas quando chega o tempo da doença não podemos mais fazer nada. E quando deixamos de fazer, pensamos que isso é morrer, mas não é ainda. A ideia de ‘ser’ humano é simplesmente existir e fazer diferença no lugar onde estamos, por ser quem somos. As pessoas que se ausentaram da própria vida serão apenas ‘ausências’ no tempo de morrer. Porque muita gente é assim na vida, um ausente quase que constante. E quando está presente, sente que esse tempo está vazio.”





MESMO as pessoas que não morrem de morte anunciada, mesmo aquelas que morrem em acidentes ou com doenças fulminantes: quase sempre se diz que  mostraram mudanças no comportamento pouco tempo antes de a morte acontecer. Diversas respostas chegam nesse momento, e a pessoa tem, e se permite, a chance de amar, de ser amada, de perdoar, de pedir perdão, de falar ‘muito obrigada’; se tiver consciência do que está acontecendo, ela se despede. Não há um tempo determinado para isso, pois cada um tem seu tempo.”




A PESSOA que morre está nua, liberta de todas as vestes físicas, emocionais, sociais, familiares e espirituais. E, por estar nua, consegue nos ver da mesma forma. As pessoas que estão morrendo desenvolvem uma habilidade única de ver. Estar ao lado de alguém que está morrendo é desnudar-se também.”





QUANDO estamos perto da morte, aquilo com que nos deparamos é um muro. Um grande amigo, Leonardo Consolim, uma vez disse que imagina esse muro muito alto e comprido, como a muralha da China. E eu gostei dessa imagem, é com ela que me relaciono quando penso na minha morte. Não tem como dar a volta, não tem como escalar. E quando nos deparamos com esse muro e tomamos consciência da nossa morte, a única coisa a fazer é olhar para trás. Então, quando estamos diante da morte de uma pessoa, que fique bem claro para nós: aquela pessoa está olhando para o caminho que percorreu e tentando entender o que fez para chegar até ali – e se aquela viagem valeu a pena. O que norteia nosso caminho e nos impele a fazer boas escolhas é a certeza de que, quaisquer que sejam nossos caminhos e escolhas, o muro nos aguarda.”





O QUE faz a diferença dos caminhos que escolhemos ao longo da vida é a paz que sentiremos ou não nesse encontro. Se fizermos escolhas de sofrimento ao longo da vida, a paz não estará presente no encontro com a morte.”





A MELHOR coisa que posso fazer por alguém na hora da morte é estar presente. Presente ao lado dessa pessoa, diante dela, por ela, para ela. Um estado de presença multidimensional que somente o caminho da compaixão pode revelar.”





SE EU for sentir a dor do outro, então não posso estar presente, pois será a minha dor. Se eu sinto a dor, estou em mim e não no outro. Quanto tenho compaixão pela dor do outro, respeito essa dor, mas sei que ela não me pertence. Posso estar presente a ponto de proporcionar socorro, levar conforto. Se estou em estado de compaixão, posso oferecer ou buscar ajuda. Se estou sentindo a dor, estou paralisada; não posso suportar estar presente diante desse sofrimento e preciso de ajuda. Ver uma pessoa com dor é algo desesperador, especialmente quando não temos ao nosso lado um médico que saiba dar importância a esse cuidado.”









QUANDO toca alguém, nunca toque só um corpo. Quer dizer, não esqueça que toca uma pessoa e que neste corpo está toda a memória de sua existência. E, mais profundamente ainda, quando toca um corpo, lembre-se de que toca um Sopro, que este Sopro é o sopro de uma pessoa com seus entraves e dificuldades e, também, é o grande Sopro do Universo. Assim, quando toca um corpo, lembre-se de que toca um ‘Templo’.”
·         Jean-Yves Leloup





QUER um conselho sábio a respeito da sua vida? Peça a alguém que está morrendo. Esse sopro vital de sabedoria, bem perto da hora da saída, emerge para a consciência e ilumina os pensamentos com uma luz divina, uma lucidez absurda; conseguimos perceber processos do antes, durante e depois, aqueles mistérios sobre os quais os mais religiosos diriam que só Deus sabe. Quando estamos diante da morte, essa revelação da verdade surge nos olhos de quem nos observa. Se mentirem, saberemos. E se for você a estar diante dos olhos de alguém que está morrendo, saiba: essa pessoa pode ver a sua plena verdade.”





A transformação começa no momento em que nos percebemos capazes de estar presente




A PESSOA que está morrendo não deve sentir-se um peso, um estorvo, um incômodo. Ela merece a chance de descobrir-se valiosa para quem está ali, ao lado dela. Todos nós merecemos isso. Sentir que temos valor, que somos importantes, que somos amados, mesmo quando estivermos doentes e morrendo. O desafio de quem quer estar ao lado de uma pessoa que está morrendo é saber transformar o sentimento dela em algo de valor. Transformar o sentimento de fracasso diante da doença em um sentimento de orgulho pela coragem de enfrentar o sofrimento de finitude. Se a pessoa que está morrendo se sente valiosa, no sentido de ser importante, de fazer diferença na própria vida e sentir que está fazendo diferença na vida de quem está cuidando dela, ela honrará esse tempo.”





PARA ESTAR ao lado de alguém que está morrendo, precisamos saber como ajudar a pessoa a viver até o dia em que a morte dela chegar. Apesar de muitos escolherem viver de um jeito morto, todos têm o direito de morrer vivos. Quando chegar a minha vez, quero terminar a minha vida de um jeito bom: quero estar viva nesse dia.”





MUITA GENTE não está viva de fato, mesmo com o corpo funcionando bem. É uma coisa terrível. Pessoas que enterraram suas dimensões emocional, familiar, social e espiritual. Gente que não sabe se relacionar, que tem dificuldade de viver bem, sem culpas nem medos. Gente que prefere não acreditar para não correr o risco de se decepcionar, seja em relação ao outro, seja em relação a Deus. Gente que não confia, não entrega, não permite, não perdoa, não abençoa. Gente viva que vive de um jeito morto. Temos mortos andando livres nas academias de ginástica, nos bares, nos almoços de família de comercial de margarina, desperdiçando domingos por meses a fio. Gente que reclama de tudo e de todos. Gente que perpetua a própria dor se entorpecendo com drogas, álcool ou antidepressivos, tentando se proteger da tristeza de não se saber capaz de sentir alegria. [...] Em um contexto onde as pessoas não têm a chance de perceber que estão vivas, o cheiro característico da morte está mais presente. Mas onde a morte está, de verdade, a vida se manifesta.”






SE VOCÊ expressar o que habita em você, isso irá salvá-lo. Mas se você não expressar o que habita em você, isso irá lhe destruir.”
·         Jesus – Evangelho de São Tomé





O TEMPO é uma questão recorrente quando falamos sobre a finitude. Quando não houver mais tempo, dará tempo de ser feliz? Quando uma pessoa adoece e precisa parar seu tempo de correr para poder se tratar, o tempo não passa em segundos, minutos, horas: passa em gotas ou em comprimidos. Os intervalos são percebidos entre um remédio e outro, entre uma visita de médico e outra, entre um exame e outro. É o tempo do soro pingando no suporte ao lado da cama. De seis em seis horas, de oito em oito horas. O tempo se dilata e não passa.”





É UM grande desafio para os médicos e profissionais de saúde compreenderem que não há fracasso quando acontece a morte. O fracasso do médico acontece se a pessoa não vive feliz quando se trata com ele. Muita gente está curada de câncer, mas se sente completamente infeliz estando viva. Por que isso acontece? De que adianta curar e controlar doenças se não conseguimos fazer com que o paciente entenda que a saúde conquistada pode ser a ponte para a realização de experiências plenas de sentido na sua vida? O papel mais importante do médico em relação ao seu paciente doente é o de não o abandonar.”







A dimensão espiritual do sofrimento humano




ATÉ eu trabalhar no Hospice, onde tive a oportunidade de cuidar de mais de seiscentos pacientes em menos de quatro anos, os ateus de quem cuidei tiveram os processos de morte mais serenos que eu já tinha acompanhado. Eram ateus essenciais, não convertidos.”





OS ATEUS essenciais muitas vezes nasceram em famílias de ateus ou nunca conseguiram de fato acreditar, mesmo quando crianças. No entanto, têm um grau de espiritualidade acima da média. Fazem o bem a si mesmos, ao próximo e à natureza, e praticam esse bem com tamanho respeito que é impossível não se encantar com sua qualidade humana. Como não acreditam em um Deus salvador, fazem a sua parte para salvar a própria vida e a vida do planeta em que vivem.”





PENSO na espiritualidade como um eixo que faz com que eu me movimente na relação comigo mesma, com a minha vida, na relação com o outro, na relação com a sociedade, com o Universo, com a Natureza e com Deus. O drama da religião mora na relação com o outro e com Deus. Julgamentos e condenações agregam a esse eixo sentimentos tóxicos que emperram o fluxo natural do Bem Maior.”





O SER humano tem esse hábito estranho de buscar espaços onde se sinta diferente, se possível superior em relação a outros. E a religião favorece essa percepção de ser escolhido, de ser favorecido, de ser merecedor, de ser segregado positivamente do resto da humanidade da qual discordamos.”





O PROBLEMA é que a verdade não é um conceito. A verdade é uma experiência. Só conseguimos entrar em contato com a verdade ‘espiritual’ quando transcendemos, quando ‘experimentamos’ a verdade. Não faz o menor sentido falar: ‘Eu acredito em Deus!’ Quando o indivíduo teve a experiência da verdade da existência de Deus, diz: ‘Eu sei que Deus existe’. Raciocínio prático:  não preciso dizer que acredito que o sol nasce todos os dias. Eu  SEI que o sol nasce todos os dias. Dentro de mim não há nenhuma dúvida a esse respeito.”






AS PESSOAS que conhecem a verdade em relação à espiritualidade vivem essa experiência de transcender; não é necessário provar nada e é impossível explicar. Não existe a necessidade de convencer ninguém. E essas pessoas não se sentem agredidas caso alguém duvide delas. Quando começamos a discutir religião pelo nível conceitual da verdade, aí faz sentido brigar, pois falamos de regras, normas, políticas, comportamentos, vantagens e desvantagens, custo e benefício.”







AO REFLETIR sobre esse processo de fé como entrega, percebemos que há bem poucas pessoas religiosas. Raríssimas pessoas. A experiência espiritual é uma verdade experimentada, não é uma verdade conceitual. Podemos ter uma experiência de transcendência, independentemente da religião que abraçamos ou não. A transcendência, para mim, é um sentimento intenso de pertencimento, de se tornar ‘um’ com aquilo que nos desperta esse sentimento. Aquele mar, aquele pôr do sol, aquele abraço do ser amado, só estará completo porque estou ali e pertenço àquele momento, faço parte daquele mar, daquela luz, daquele céu, daquela brisa. Não tem mais o ‘eu passado’ nem o ‘eu futuro’; sou aquele momento, aquele instante presente. Na hora em que nos separamos desse sentimento estamos diferentes, transformados.”







A experiência de fim de vida é uma experiência que tem grande poder de transcendência




A EXPERIÊNCIA de transcender é sempre sagrada. É como experimentar água do mar. Água do mar, em qualquer parte do planeta, sempre será água salgada. Sempre que experimentarmos o mar, será salgado. Sempre que experimentarmos a transcendência, será sagrada. Sempre. Se fosse possível entrar em uma máquina de ressonância funcional no momento da transcendência, podemos ter certeza: a área do nosso cérebro que se acenderia é a do sagrado, do que é valor, do que é bom e verdadeiro para nós.”





Como fica a sua fé na hora de viver seus tempos finais e reconhecer que sua missão terminou?





O SOFRIMENTO pode ser o gatilho da sua transformação como ser humano. Pode ser um momento de perceber uma versão totalmente nova de Deus. Se pensarmos que cada um de nós, internamente, tem um reino de Deus, cada um de nós tem uma versão inédita, pessoal, desse divino. E quando achamos que sabemos tudo sobre divino e sagrado e nos colocamos diante de uma pessoa que está morrendo, esse Deus que mora dentro de nós vai nos mostrar, de verdade, quem é o divino e quem é o sagrado dentro de nós.”





QUASE SEMPRE, quando fazemos alguma coisa para agradar a alguém, fazemos por acreditar que, assim, contribuímos para a felicidade dessa pessoa. Nas entrelinhas, são escolhas para validar a nossa importância na vida desse alguém. No entanto, pensemos: usar nosso tempo de vida para nos tornarmos importantes na vida de outra pessoa é escolher um caminho bem torto para existir. Se podemos ser nós mesmos e se isso fizer de nós seres amados apenas pelo que somos, isso é felicidade, é completude. No entanto, se precisamos nos tornar outra pessoa para nos considerarmos amados, há algo errado. É quase certo que nos arrependeremos depois; não podemos ser aquilo que representamos para o outro. É um caminho muito perigoso.”





AS CHANCES que perdemos de demonstrar o que sentimos de verdade chegam com toda força no fim da vida. Mas se ainda há tempo para demonstrar esse afeto, e se fazemos isso... Ah, é lindo viver essa experiência.”




E SE não sabeis trabalhar com amor mas com desagrado, é melhor deixardes o trabalho e sentar-vos à porta do templo a pedir esmola àqueles que trabalham com alegria.”
·         Gibran Khalil Gibran





SE TEMOS um trabalho que nos oferece a chance de deixar o mundo melhor, mesmo que só um pouquinho e só para poucas pessoas; se nos envolvemos nesse trabalho com verdadeira energia de transformação e nos realizamos, vemos sentido no fluxo que escolhemos, ainda que implique trabalhar muito.”





A ENERGIA que vem de um trabalho que não traz sentido à nossa vida é uma energia ruim.”





RECEBER elogios não deve ser levado para o lado pessoal. Se alguém nos acha importantes e interessantes, isso não necessariamente tem a ver conosco. Tem a ver com aquela chave que temos e que abre a porta de bem-estar da pessoa que elogia. Simples assim. Tirar conclusões e levar qualquer coisa, boa ou ruim, para o lado pessoal faz com que muitas vezes tomemos decisões erradas, que nos levarão ao arrependimento.”





JÁ POSSO partir! Que meus irmãos se despeçam de mim! Saudações a todos vocês: começo minha partida. Devolvo aqui as chaves da porta e abro mão de meus direitos na casa. Palavras de bondade é o que peço a vocês, por último. Estivemos juntos tanto tempo, mas recebi mais do que pude dar. Eis que o dia clareou e a lâmpada que iluminava o meu canto escuro se apagou. A ordem chegou e estou pronto para a minha viagem.”
·         Rabindranath Tagore





CADA PERDA existencial, cada morte simbólica, seja de uma relação, de um trabalho, de uma realidade que conhecemos, busca pelos menos três padrões de sentido. O primeiro diz respeito ao perdão, a si mesmo e ao outro. O segundo é saber que o que foi vivido de bom naquela realidade não será esquecido. O terceiro é a certeza de que fizemos a diferença naquele tempo que termina para a nossa história, deixando um legado, uma marca que transformou aquela pessoa ou aquela realidade que agora ficará fora da sua vida. Aceitar a perda tem uma função vital na nossa vida que continua.
[...] Só conseguimos passar para a próxima etapa se tivermos uma destas três confirmações: de que perdoamos, deixamos nossa marca ou levamos a história conosco, tirando delas os aprendizados possíveis. Percebo isso na condução de processos de luto que não estão relacionados com a morte em si.
[...] O terceiro ponto pode ser uma experiência de imortalidade. Seguimos em frente, mas deixamos algo de nossa essência, de nossa história, naquele tempo, naquele ambiente, naquela pessoa que sai da nossa vida.”





O QUE tem que vir conosco das histórias passadas é a transformação que elas nos proporcionaram. Não levemos a história, e sim o produto da história... E a história só terá um produto se tiver mesmo havido um encontro, se realmente mergulhamos nela por inteiro.”






O QUE você viveu não é tão importante quanto pensar em COMO você viveu ou PARA QUE você viveu.”





E para concluir:


ESSA CONVERSA a respeito de diretivas antecipadas, sobre o que queremos ou não para o final da nossa vida, deveria acontecer primeiro entre os nossos familiares, na hora do jantar ou do almoço de domingo. Para nossa segurança e de nossos familiares mais idosos ou adoecidos, convém que essa conversa ocorra em um momento em que não exista atividade nem progressão de doença. Deve acontecer na convivência, quase em um contexto filosófico; um ‘papo cabeça’, como se diria antigamente.”








NÃO EXISTE a possibilidade de haver uma morte absoluta, de desintegração de todas as dimensões de um ser humano cuja existência teve algum sentido na vida de outros seres humanos. Quando a morte acontece, ela só diz respeito ao corpo físico. Meu pai morreu, mas continua sendo meu pai. Tudo o que me ensinou, tudo o que me disse, tudo o que vivemos juntos continua vivo em mim. As duas únicas verdades com que preciso aprender a lidar a partir da morte dele são estas: primeiro, que se tornou invisível; segundo, que não teremos um futuro compartilhado na nossa relação. Haverá momentos em que pensarei nele, sentirei muita saudade e refletirei sobre os conselhos que me daria diante de dilemas que ainda virão. Mas, a depender de como eu decidir viver meu luto por sua morte, saberei encontrá-lo dentro de mim nessas experiências que ainda me aguardam.
Se aquela pessoa trouxe amor, alegria, paz, crescimento, força e sentido de vida, então não é justo que tudo isso seja enterrado junto com um corpo doente. É por meio dessa percepção de valor da relação que o enlutado vai emergindo de sua dor.”





FAZ muito bem lembrar dos momentos engraçados que vivemos com a pessoa que morreu. Quando recebo alguém enlutado, peço que enumere tudo de bom que a pessoa falecida ensinou a ela. Depois sugiro que me conte alguns momentos muito engraçados em que viveram juntos. Com esses dois convites, assisto e um tempo lindo bem na minha frente, quando o enlutado volta a se encontrar com seu ente querido de um jeito novo em meio à dor. Quase sempre, ele fala sobre a perda, a doença, o sofrimento e a morte. Mas, quando provoco lembranças da vida em comum, lembranças boas, intensas, transformadoras, trago de volta a essência daquela relação.
É nessa conversa que posso mostrar ao enlutado como a vida deixada por aquela pessoa que morreu é plena de significado; afinal, o aprendizado e a história em comum não morrem nunca. O enlutado jamais será privado das lembranças e dos sentimentos. O Amor não morre com o corpo físico. O Amor sempre permanece. Se você perdeu ou está perdendo alguém que ama muito, faça esse exercício.”





O MELHOR jeito de nos sentirmos seguros em relação aos cuidados e limites de intervenção no final da vida é conversando sobre isso em algum momento durante a nossa vida com saúde. Quando se está doente, essa conversa, embora necessária, fica bem mais delicada.”





PENSO que, se a sociedade se mobilizar para deixar claro qual é a sua vontade, e me refiro inclusive a deixar esse ponto culturalmente mais claro, mais lúcido dentro da vida de cada um, talvez no futuro seja mais simples oferecer cuidados para preservar a dignidade da vida da pessoa que está morrendo.”



***

Um comentário:

  1. Um livro conscientizador. Eis um texto que dedico aos PODERES que
    comandam nosso País e ignoram os representados :
    “ENQUANTO as pessoas não olharem para a morte com a honestidade de
    perguntar a ela o que há de mais importante sobre a vida, ninguém terá
    a chance de saber a resposta. O problema é que caminhamos ao lado de
    pessoas que pensam que são eternas. Por causa dessa ilusão, vivem suas
    vidas de modo irresponsável, sem compromisso com o bom, o belo e o
    verdadeiro, distanciadas da própria essência.” - Lembrete
    indispensável aos PODERES que comandam nosso País!
    abração amigo
    Izabel da Silva

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