segunda-feira, 26 de março de 2012

INDEPENDÊNCIA DE CADA UM NA RELAÇÃO CONJUGAL

“As pessoas amadurecem e mudam, e, quando o outro não aceita esse fato ou não tenta lidar com as mudanças, algo pode se romper”

JÁ FALEI SOBRE ISTO, com base em Robin Sharma (“O monge que vendeu sua Ferrari”): “Você tem que ser seletivo sobre o que deixa entrar em sua mente. Tudo tem que ser extremamente nutritivo. Faça com que seja algo que vá melhorar você e a sua qualidade de vida”.

Identifico-me com Stephen Kanitz, mestre em administração de empresas pela Harvard University, articulista da revista Veja, quando diz: “Aliás, quase todos os artigos que escrevo têm como objetivo mudar o comportamento dos leitores, porque é esta a minha definição de informação. Informação é tudo aquilo que muda o meu comportamento futuro. O resto é ruído. Leia atentamente o jornal ou revista que você assina. Veja que notícias do dia ou da semana realmente mudaram o seu comportamento ou sua visão do mundo”.

O tema deste artigo, “Independência na relação conjugal”, foi-me inspirado no livro “Nietzsche para estressados”, de Allan Percy, ao revelar: “Segundo Platão – que Nietzsche achava chato -, amar é caminhar em busca da parte que nos falta, da velha ‘metade da laranja’. Essa visão é questionada atualmente por muitos terapeutas de casais, que dizem que todo ser humano é uma ‘laranja completa’ e não deve esperar por ninguém para se sentir completo e realizado”.

CAPACIDADE DE MUDANÇA

“A vida dele foi crescendo na nova comunidade, à medida que conhecia gente nova, enquanto a da esposa continuava restrita, em torno da cozinha e dos filhos. O mundo dele estava se expandindo enquanto o da esposa se estreitava. Ela estava envolvida com os filhos a ponto de não ter nenhuma outra atividade. Até a expressão de seu rosto revelava a insatisfação que sentia com a vida”, escreve Flip Flippen, educador e psicoterapeuta, em sua obra “Pare de se sabotar e dê a volta por cima”.


Certo dia, conta o autor, Doug finalmente perguntou à esposa: - Você está feliz por mim e pelo que estou fazendo ou vai me culpar pelo resto da vida? Dava para imaginar o rumo que aquela conversa iria tomar, diz Flippen.

Para Flippen, a vida não é o que nós esperamos que seja – ela é aquilo que se torna. Parte das mudanças reflete as escolhas que fazemos, mas outra parte da nossa vida não passa de uma aventura que permanentemente se desenrola, e precisamos optar por rejeitar ou por nos adaptarmos a ela à medida que se apresenta. Gostemos ou não, cada um é afetado e influenciado pelos outros e pelo que acontece com eles. Isso resume grande parte do que é o casamento.

A questão é, observa o escritor: nós somos capazes de mudar para nos ajustarmos aos novos fatores que entram na nossa vida? É claro que temos o direito de dar nossa opinião sobre o que acontece no casamento ou em qualquer outro relacionamento, mas estamos abertos a novas oportunidades que não estavam no nosso “plano” original?

“Não importa que rumo a gente escolha, sempre haverá alternativas com prós e contras. Na minha opinião, o objetivo é ser capaz de responder às novidades que surgem com o melhor tipo de atitude de que formos capazes. As pessoas amadurecem e mudam, e, quando o outro não aceita esse fato ou não tenta lidar com as mudanças, algo pode se romper”, admite Flippen.

Ele considera que cada pessoa precisa construir uma vida que a faça feliz. “Pode ser algo como dedicar mais tempo aos amigos e realizar atividades significativas. Muitos de nós somos resistentes a mudanças. Manter a cabeça aberta para novos comportamentos e oportunidades pode nos levar a campos mais verdes – ou a alturas nunca alcançadas. Se continuarmos fazendo o que sempre fizemos, teremos os resultados que sempre tivemos.”

Outro ponto interessante para esse autor é que nós precisamos ser capazes de nos adaptarmos a mudanças: os negócios mudam, os horários mudam, os objetivos mudam, o mundo muda. Em geral, as pessoas são resistentes a mudanças por várias razões, entre as quais, receio do desconhecido, medo do fracasso, interesses velados em manter a situação atual e ansiedade relacionada ao aprendizado e a experiências novas."

Flippen nos sugere como norma de comportamento: dedicar-se a atividades diferentes e dizer “vamos experimentar” com mais frequência. É que, preferindo opções mais estáveis, testadas e aprovadas, talvez estejamos perdendo uma opção melhor. (Pensar em um hábito ou uma rotina específica na qual se concentrar e, então, tentar fazer algo consideravelmente diferente. Pedir a alguém de sua confiança que o ajude a elaborar uma ideia divertida para explorar).

http://veja.abril.com.br, Quando viajar pode ser uma terapia, 9/7/2009
Em sua obra “Aprendendo a silenciar a mente, o filósofo Osho revela que pessoas que são criativas – poetas, pintores, músicos, dançarinos – são mais facilmente passíveis de mudança. Já as pessoas que têm vidas menos criativas são mais difíceis de mudar. Se você vive uma vida repetitiva, é porque sua mente tem controle demais sobre você. Tente fazer algo novo a cada dia, e a mente terá menos controle sobre você, recomenda o filósofo, e mais: - Não preste atenção às velhas rotinas: quando a mente disser alguma coisa, responda: “Nós estamos fazendo isso há muito tempo. Vamos fazer algo novo”.

O ATO DE DOAR

“Por mais isolados que tenhamos nos tornado, evidentemente não abandonamos toda a esperança de construir relações. Nos solitários cânions da cidade moderna não existe emoção mais estimada que o amor. Entretanto, não se trata do amor sobre o qual a religião fala, tampouco a expansiva e universal irmandade da humanidade, é uma variedade mais ciumenta, restrita e, no fim, mais mesquinha. É um amor romântico, que nos põe em uma busca maníaca de uma única pessoa com quem esperamos conquistar uma comunhão completa e para toda a vida, uma pessoa em particular que nos dispensará de qualquer necessidade por gente em geral”, cita Alain de Botton em “Religião para ateus”.

Na obra “O ponto alfa” (editora Brahma Kumaris), Anthony Strano escreve que o desejo cria exigências e expectativas e assim limita a liberdade dos outros. Desejo é uma constante fonte de pressão em nossas vidas. Felicidade não é possível sem liberdade.

“Quanto menos as pessoas olham para si mesmas, mais elas olham externamente, projetando as responsabilidades sobre os outros. Nos relacionamentos maduros entre seres humanos não é a forma física que amamos, mas as qualidades e a personalidade daquela pessoa. Uma pessoa pode ter olhos ou um rosto muito bonitos, mas após a atração inicial o físico perde a importância. O que passa a importar é o que a pessoa realmente é – a pessoa dentro da vestimenta física. Isto é o que cria e mantém o relacionamento. Através da história, constata-se que as pessoas genuinamente espirituais, que tiveram tal amor por Deus, normalmente expressaram-no através do desejo de servir. Se alguém ama, ele doa”, complementa Strano.

FLIPPEN E SUA ESPOSA

Em seu livro, Flippen conta que o casamento é a maior de todas as parcerias. As pessoas se casam para passar o resto da vida juntas. No casamento, do ponto de vista jurídico, elas também se tornam sócias. Têm a oportunidade de, juntas, criar os filhos, tomar decisões, comprar e vender, investir, economizar, planejar e compartilhar tudo o que pode ser dividido – juntas.

Mas não é só isso, diz o autor. O casamento é, também, a união definitiva das limitações pessoais dos dois parceiros. Quando me casei com Susan, também me casei com as limitações pessoais dela – e, o que é pior ainda, ela se casou com as minhas.

E é bom que a combinação dê certo, comenta Flippen: - Se tanto eu quanto Susan tivéssemos problemas de falta de autocontrole, provavelmente estaríamos em maus lençóis. Se eu tivesse determinação e paixão demais, e ela, de menos, é possível que meu desejo de fazer algo diferente com minha vida entrasse em conflito com a necessidade dela de que eu chegasse em casa às 17 horas todo dia.

“Por sorte (ou talvez porque ambos sabíamos o que queríamos), minha mulher forma comigo a melhor parceria que eu poderia ter. Nossas limitações funcionam em sinergia. Por exemplo, os fortes atributos organizacionais dela ajudam a ambos, pois compensam minha tendência à desorganização. Por outro lado, eu sou muito mais empreendedor e não tenho medo de assumir alguns riscos, o que me permite avançar mais depressa e pensar de forma mais abrangente do que ela. Meu nível de autocontrole não é tão elevado quanto o de Susan; ela é mais ponderada e precisa de mais informações do que eu antes de tomar decisões. Esses atributos comportamentais dão certo entre nós por dois motivos. Primeiro, nossos pontos fortes e fracos estão bem equilibrados; segundo, ambos reconhecemos os benefícios que o parceiro traz e desejamos ouvir e aprender um com o outro. Imagine como seria a nossa vida se ambos fôssemos altamente dominantes e precisássemos estar no controle de tudo?”, complementa o autor.

No livro “A rosa perdida”, o autor, Serdar Ozkan, declara que o amor não é amor se o amante pedir algo em troca. Para que duas pessoas se apeguem uma à outra, antes elas precisam estar desapegadas.

E então cabe a cada um dos parceiros desenvolver esta ideia do desapego, do controle do ego, da independência, da valorização dos aspectos positivos do outro, do respeito à singularidade de cada um, da tolerância, da sensatez..., lembrando as sábias palavras de Gandhi: “Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”. Pois, quando não é possível o entendimento e a superação gradativa das limitações que comprometem a relação, pode-se colher a separação. E, neste particular, quem é capaz de se separar e manter ainda assim uma relação produtiva, sobretudo quando há filhos menores nesta história toda?...

Revisão do texto: Márcia Navarro Cipólli, navarro98@gmail.com

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