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terça-feira, 17 de março de 2026

OSCAR 2026 SOB A SOMBRA DO CONFLITO NO ORIENTE MÉDIO

 

Quando o mundo se inquieta, até uma festa como essa poderia falar em voz mais baixa    

 


Tom Simões, jornalista especializado em divulgação científica, Santos (Brasil), 17 de março de 2026

 

Leia-se este artigo como a expressão de um ponto de vista pessoal, aberto à reflexão.

Comecei a assistir à cerimônia do Academy Awards com a expectativa habitual de quem aprecia o cinema: uma noite dedicada à arte, à imaginação e ao talento humano. Mas bastaram alguns minutos para surgir uma sensação inesperada de desconforto, quando o brilho do espetáculo contrastou com a sombra do tempo. Tive um choque. Então recusei-me a prestigiar. A sucessão de vestidos milionários, joias, tapetes vermelhos e aplausos contrastava de forma quase brutal com o mundo lá fora – um mundo atravessado por guerras, tensões políticas e discursos agressivos que, muitas vezes, partem justamente dos centros de poder dos próprios Estados Unidos.

 

Esse tema pede densidade moral e filosófica, não apenas opinião. Sua força pode estar justamente na reflexão serena diante do contraste entre espetáculo e realidade histórica. Talvez a questão mais profunda não seja se o Oscar deveria ou não acontecer — mas como ele poderia acontecer sem ignorar o mundo real.

Enquanto o mundo atravessa tempos turbulentos, certas celebrações parecem ocorrer como se a história estivesse em silêncio. Quando o mundo se inquieta, até as festas da arte deveriam aprender a falar em voz mais baixa. Há festas que iluminam a arte – e outras que apenas escondem o tempo em que vivemos. Entre o luxo do espetáculo e a consciência do tempo, a arte sempre precisa escolher.

Aqui entra a figura de Donald Trump não necessariamente como alvo pessoal, mas como símbolo de um clima histórico.

O cinema frequentemente denuncia guerras, desigualdades e abusos de poder. Mas a cerimônia do Oscar 2026 pareceu desligada da realidade. A própria celebração da indústria cinematográfica parece, às vezes, suspensa numa bolha de luxo. Como se o espetáculo precisasse ignorar o peso do tempo histórico em que ocorre.

 

Há sinais que nos convidam a acreditar

 

Mesmo que Hollywood, em sua grandiosidade, possa transmitir a impressão de indiferença diante das tragédias do mundo, nem todos se calam. No palco simbólico do Oscar, vozes dissonantes emergem. O ator espanhol Javier Bardem, ao atravessar o tapete vermelho, transformou visibilidade em protesto, exibindo mensagens como “Não à Guerra” e “Liberdade à Palestina”. Ao classificar o atual conflito no Oriente Médio como “ilegal” e sustentado por inverdades, Javier não apenas expressou uma opinião, mas tensionou o contraste entre espetáculo e realidade.     

Já o cineasta iraniano Jafar Panahi, com filme indicado na cerimônia, ao afirmar que o Oscar é “insignificante perto da guerra no Irã”, não apenas critica a cerimônia, mas desloca o eixo da discussão: ele nos obriga a olhar para a desproporção entre o espetáculo e a realidade. Não se trata apenas de luxo versus sofrimento — trata-se de relevância moral. O que significa celebrar, premiar, aplaudir, enquanto vidas estão sendo destruídas?

A hesitação de Jafar em comparecer também é simbólica. Não se trata de um boicote explícito, mas uma espécie de desconforto ético tornado público. E isso tem força: mostra que, mesmo dentro do universo do cinema — muitas vezes acusado de alienação — há vozes que recusam a normalização do horror.

Por sua vez, a cineasta e roteirista tunisiana Ben Hania admitiu que a serenidade lhe escapava em meio aos acontecimentos recentes. Ben trouxe ao Oscar uma dimensão humana frequentemente ausente: a de artistas impactados, pessoal e emocionalmente, pela crise no Oriente Médio. Sua fala rompeu o verniz da celebração para lembrar que há dores que nenhuma festa consegue silenciar.

O conflito no Oriente Médio criou um ambiente de tensão que contrastava com a “normalidade” de Hollywood. A cobertura apontou que, enquanto o cenário internacional piorava, o Academy Awards tentava manter a atenção na disputa cinematográfica.

A cerimônia de 2026, portanto, não foi totalmente indiferente, mas sim palco de um confronto simbólico entre a busca por reconhecimento artístico e a necessidade de se posicionar diante de crises humanitárias urgentes.

 

Como celebrar o Oscar na atual tragédia no Oriente Médio, envolvendo uma escalada militar direta entre Estados Unidos, Israel e Irã? 

 

Talvez a cerimônia pudesse existir de outra maneira. Não menos festiva, mas mais consciente. Menos ostentação, mais sobriedade. Imagine uma celebração em que artistas e público, vestidos com simplicidade, transformassem a noite numa espécie de declaração simbólica: a arte não está alheia ao mundo. Talvez, num outro momento, até uma caminhada silenciosa pelas ruas, sem tumulto, sem palavras de ordem, apenas presença. Uma celebração sóbria, onde a simplicidade fosse também uma linguagem. Um gesto simbólico de artistas que reconhecem o tempo em que vivem. Ao mesmo tempo, um gesto sereno de reflexão coletiva diante do barulho do poder. Como se o cinema dissesse ao mundo que a arte não ignora a realidade, mas dialoga com ela.

Quando o mundo se agita, até as festas mais brilhantes acabam revelando uma pergunta silenciosa. Em certos momentos da história, talvez a verdadeira elegância da cultura não esteja no brilho das luzes, mas na capacidade de olhar o mundo com gravidade e responder a ele com consciência.

Não se trata de condenar o cinema nem a celebração de sua arte. O cinema é uma das mais poderosas formas de expressão humana. Muitas vezes foi ele próprio que denunciou injustiças, revelou tragédias e iluminou dilemas morais da humanidade. Talvez por isso mesmo o contraste se torne mais visível.

Em tempos inquietos, a sobriedade deveria ser a expressão máxima da elegância cultural. O prestígio da arte não está no luxo que a envolve, mas na lucidez que ela é capaz de oferecer ao mundo — sobretudo quando o mundo sangra.

 

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