quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

POLÍTICOS: VISÃO TAOÍSTA

“Esse político era muito apreciado, amado, tinha uma personalidade carismática. Então ele subiu ao poder e todo mundo ficou contra ele.”


FINALIZO A LEITURA de “O Barco Vazio”, de Osho, filósofo indiano. Uma obra que, certamente, dará origem a vários artigos meus, em razão das produtivas ‘provocações’ ali contidas. Osho baseia-se nas histórias  taoístas do místico chinês Chuang Tzu. O “Tao” respeita o indivíduo; respeita o único e não a multidão. Respeita a liberdade e não a conformidade. É uma espécie de rebelião possível no sentido construtivo.

Se uma fração dos leitores puder ter algum benefício com a reflexão, já me sinto recompensado. Pois uma leitura útil pode cumprir a função de despertar o leitor e libertá-lo das velhas formas repetitivas e condicionadas de pensar.

Eu não costumo ler noticiário político nem notas policiais. O que busco diariamente no jornal é algo com que eu possa rechear os meus arquivos destinados a embasar o que escrevo; algo que possa levar o leitor a um estágio melhor do que o anterior. Porque falar sobre política no Brasil, por exemplo, é falar sobretudo das intermináveis histórias de corrupção: suborno, intimidação, extorsão, abuso de poder de gente oportunista.    

Falar sobre casos de corrupção é algo frequente em rodas de amigos. Há sempre os revoltados, indignados, inconformados com o abuso do poder. Mas, quem garante que alguns deles, se eleitos num futuro, não seriam diferentes?

Em seu artigo “O que é uma vida decente?”, o filósofo Luiz Felipe Pondé (Folha de S. Paulo, 22/10/2012) escreve: “Quando se fala de corrupção, todo mundo mente. Quase todo mundo prefere um pai ou marido corrupto a um honesto, mas pobre. Para resistir à corrupção, você tem que ser radical, ou religioso, ou moral”.

Porque, como conta Pondé, honestidade não vale nada, o que vale é ter uma ‘vida decente’: segurança para os filhos, uma esposa feliz porque pode comprar o que quiser (dentro do orçamento, claro, mas quanto menor o orçamento menor o amor...), enfim, um ‘futuro melhor’.

QUEM LEMBRA DE ALGUÉM ASSIM?

Em um trecho de “O Barco Vazio”, não há como a gente não identificar algumas ‘personalidades’ políticas, conforme o filósofo descreve com base no taoísmo.

Veja uma observação de Osho: “Ouvi falar de um político. Ele tinha um grande séquito, muitos seguidores, muitos que o apreciavam quando ele não estava no poder, porque na política tudo é momentâneo. Quando não está no poder, você parece muito inocente, porque, se não há poder, o que você pode fazer? Como pode prejudicar? Portanto, sua verdadeira natureza só passa a ser conhecida quando você está no poder”.

Olhe para os seguidores de Gandhi na Índia antes da independência – tão santos!, diz o filósofo. “E agora tudo foi para o extremo oposto. Agora eles são os mais corruptos.  O que aconteceu? Uma lei simples: quando não estavam no poder eram como pombas, inocentes; quando subiram ao poder, tornaram-se semelhantes a serpentes; astutos, corrompidos, exploradores. A sua verdadeira natureza só é conhecida quando você tem poder. Quando você pode prejudicar, então se sabe se você vai prejudicar ou não.”

0sho cita Lorde Acton, quando diz: “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.” Não, isso não está correto, considera Osho. “O poder nunca corrompe, ele só traz a corrupção para fora. Como o poder pode corromper? Você já era corrupto, mas não havia oportunidade. Você já era feio, mas estava na escuridão. Agora você está sob a luz dos holofotes e como vai dizer que a luz fez você ficar feio? Não, a luz apenas revela.”

É BEM ASSIM, COMO RETRATA O FILÓSOFO

“... Esse político era muito apreciado, amado, tinha uma personalidade carismática. Então ele subiu ao poder e todo mundo ficou contra ele. Então, ele foi expulso do poder, o seu nome se tornou notório, ele foi condenado em todos os lugares, teve de deixar sua cidade, porque as pessoas não permitiram que ele vivesse lá; ele tinha causado muitos danos. 

Assim, como sua esposa, ele estava procurando uma nova residência em outra cidade. Viajou para várias cidades apenas para conhecê-las e ver onde morariam.
Então o povo de uma cidade começou a atirar pedras nele. Ele disse: ‘Este é o lugar certo, devemos escolher esta cidade.’

A esposa disse: ‘Você está louco? Você perdeu o juízo? As pessoas estão atirando pedras.’

O político disse: ‘Pelo menos não são indiferentes.”’

A indiferença dói mais porque o ego não pode existir na indiferença. Se você for a meu favor ou contra mim, o ego pode existir, mas não seja indiferente a mim, porque do contrário como posso existir, como o ego pode existir? O homem do Tao, o homem virtuoso, permanece desconhecido. Isso significa que ele não está à procura de pessoas que deveriam conhecê-lo. Se quiserem conhecê-lo, elas têm de procurá-lo.”

O SÁBIO COMO TOLO

Chuang Tzu teria dito: “É melhor ser você mesmo um tolo; assim as pessoas vão gostar de você e depois, por meio de uma metodologia muito sutil, você pode ajudá-las a mudar. Então elas não ficarão contra você.”

É por isso que no Oriente, particularmente na Índia, na China e no Japão, nunca aconteceu um fenônemo tão feio quanto esse que aconteceu na Grécia – Sócrates foi envenenado e morto, explica o autor. “Foi o que aconteceu em Jerusalém – Jesus foi morto, crucificado. Foi o que aconteceu no Irã, no Egito, em outros países – são muitos os sábios que foram mortos, assassinados. Isso nunca aconteceu na Índia, na China ou no Japão, porque, nesses três países, as pessoas perceberam que comportar-se como um homem sábio é um convite para a catástrofe.

Comporte-se como um tolo, como um louco; apenas seja louco. Esse é o primeiro passo do homem sábio – fazer você ficar à vontade para que você não tenha medo dele. É por isso que eu contei essa história.”

Mas Chuang Tzu diz: “Ele não tem poder – porque o uso do poder é sempre parte do ego. O ego quer ser poderoso. Você não pode persuadir um homem sábio a usar seu poder, é impossível. Se você pode persuadi-lo, isso significa que restou algum ego para ser persuadido. Ele nunca vai usar seu poder, porque não há ninguém para usá-lo e manipulá-lo. O ego, o manipulador, não está mais lá”.

Nas palavras de Osho, um sábio é poder, mas ele não tem poder; um sábio é poderoso, mas ele não tem poder – porque o controlador não está mais presente. Ele é energia – transbordante, sem destinatário, sem direção – não há ninguém que possa dirigi-la.

POLÍTICA E HIPOCRISIA

Em sua crônica, o filósofo Luiz Felipe Pondé também revela: “Já se falou muito que quando classes sociais mais baixas ascendem socialmente e tentam imitar os hábitos da aristocracia ficam ridículas. Isso é descrito como ‘novo rico’. Mas o ‘novo corrupto’ é tão ridículo quanto. Que ‘saudade’ dos corruptos clássicos do coronelismo nordestino, que negavam, mas não apelavam para uma inocência ideologicamente justificada, ou simplesmente não se davam ao trabalho de negar. Os ‘mensaleiros’ continuam a agir como um clero de puros de coração”. 

Para Pondé, além do debate político – que ele acha chatinho e quase sempre um circo -, a corrupção se alimenta de algo mais profundo. “Damos pouca atenção a esse fato porque a substância da moral pública é a hipocrisia, por isso é melhor brincar de dizer que a causa é só política, quando na realidade é mais banal do que isso.” 


Portanto, leitor, diante da argumentação é possível crer que haja também homens virtuosos no poder. Mas porque a classe política corrupta não se elege sozinha, o eleitor, por ignorância ou possível beneficiamento próprio, é um grande responsável pela escolha daqueles que o representam no cenário político. Isso me lembra Sigmund Freud em “O mal-estar na civilização”: “Quanto mais virtuoso é um homem, mais severo e desconfiado se torna em relação a si próprio, de tal modo que quem mais se aproxima da santidade mais se acusa dos piores pecados”.

Conforme Freud, não conseguimos evitar a impressão de que por toda a parte os homens se regem por falsos padrões, que procuram para si próprios e admiram nos outros o poder, o êxito e a riqueza, ao passo que subestimam os verdadeiros valores da vida.

E ENTÃO SINTETIZO a atual reflexão com esse pensamento do criador da psicanálise: “A pergunta pelo sentido da vida já foi colocada inúmeras vezes; ainda não obteve, e talvez nem sequer admita, uma resposta satisfatória. Alguns daqueles que fizeram a si esta pergunta acrescentaram: a vida perderia todo o valor caso viesse a descobrir que não tem sentido”.

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Revisão do texto: Márcia Navarro Cipólli, navarro98@gmail.com

Um comentário:

  1. O tema "corrupção" é manchete diária em jornais. Ontem, dia 16 de janeiro de 2013, por ex., foi destaque: Bode 'guarda' empresa de fundo de quintal que recebeu R$ 6 milhões (Rio Grande do Norte). Hoje, 17 de janeiro: Demitido há um ano, após ser alvo de denúncias de irregularidades, ex-ministro Lupi continua a receber salário mensal de R$ 6.000.

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